Trabalhos

Cenário Internacional: 
Situação da Agricultura Orgânica em 2003
[1]

 Moacir Roberto Darolt
Engenheiro Agrônomo, Doutor em Meio Ambiente, Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR)
  Fone: (41) 665-6336. E-mail: darolt@pr.gov.br

Trabalho publicado em 04/04/03

 

Segundo a Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), o sistema orgânico já é praticado em mais de uma centena de países ao redor do mundo, sendo observada uma rápida expansão, sobretudo na Europa, EUA, Japão, Austrália e América do Sul. Esta expansão está associada, em grande parte, ao aumento de custos da agricultura convencional, à degradação do meio ambiente e à crescente exigência dos consumidores por produtos “limpos”, livres de substâncias químicas e/ou geneticamente modificadas.

De acordo com YUSSEFI (2003), atualmente no mundo cerca de 23 milhões de hectares são manejados organicamente em aproximadamente 400.000 propriedades orgânicas, o que representa pouco menos de 1% do total das terras agrícolas do mundo. A maior parte destas áreas está localizada na Austrália (10,5 milhões de hectares), Argentina (3,2 milhões de hectares) e Itália (cerca de 1,2 milhão de hectares). Conforme mostra a figura 1 a Oceania tem aproximadamente 46% da terra orgânica do mundo, seguida pela Europa (23%) e América Latina (21%). É importante destacar que os países que têm o maior percentual de área sob manejo orgânico em relação à área total destinada à agricultura, computam a área de pastagem. Assim, por exemplo, em países como a Austrália e Argentina mais de 90% da área de produção orgânica correspondem a áreas de pastagem. O mesmo acontece nos países da Europa: na Áustria 80% da área orgânica refere-se à pastagem; na Holanda, 56%; na Itália, 47%, e no Reino Unido 79%.

Numa análise comparativa entre o tamanho de área manejada sob o sistema orgânico e o número de propriedades orgânicas e é possível perceber que a maior parte do volume da produção orgânica mundial ainda é proveniente de pequenas e médias propriedades. A figura 2 mostra que o maior número de fazendas orgânicas encontra-se na Europa (44,1%), América Latina (19,0%) e Ásia (15,1%).

 

FIGURA 1 – 

DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DAS ÁREAS EM AGRICULTURA ORGÂNICA, SEGUNDO OS DIFERENTES CONTINENTES

 

FONTE:  Adaptado de YUSSEFI (2003)
 

FIGURA 2 – 

PERCENTUAL DO NÚMERO TOTAL DE PROPRIEDADES ORGÂNICAS, SEGUNDO OS DIFERENTES CONTINENTES

 

As estatísticas mundiais sobre o setor de alimentos orgânicos ainda não insuficientes, o que dificulta a obtenção de números mais precisos sobre o tamanho deste mercado. Todavia, estimativas do International Trade Center (ITC), instituição ligada à Organização Mundial do Comércio (OMC), mostram que o comércio mundial de alimentos orgânicos (considerando 16 países europeus, América do Norte e Japão) movimentou aproximadamente US$ 17,5 bilhões em 2000 e cerca de US$ 21 bilhões em 2001 (KORTBECH-OLESEN, 2003). Segundo o mesmo autor, baseado em estimativas recentes, as vendas mundiais de orgânicos devem ficar entre US$ 23 e 25 bilhões em 2003 e provavelmente atinjam 29 a 31 bilhões em 2005.

Informações do ITC indicam que as vendas de produtos orgânicos na Europa devem atingir um patamar entre US$ 10 bilhões e US$ 11 bilhões em 2003, ante cerca de US$ 9 bilhões em 2001. Nos Estados Unidos, as vendas de orgânicos podem alcançar a marca de US$ 11 bilhões em 2003, mostrando a consistência desse mercado, que era de US$ 9,5 bilhões em 2001. Os números apresentados são expressivos, mas mesmo considerando o rápido crescimento dos últimos anos, o segmento de alimentos orgânicos ainda pode ser considerado como um nicho de mercado. As vendas de orgânicos representam apenas uma pequena parcela do total de alimentos vendidos, não mais que 3 a 4%. Os dados indicam que existe um potencial enorme de crescimento para este setor em todo o mundo.

 

 EUROPA ORGÂNICA

Desde o início da década de 1990, o sistema de agricultura orgânica tem se desenvolvido muito rapidamente na Europa. Segundo WILLER & YUSSEFI (2001), entre 1986 e 1996, a conversão para o sistema orgânico teve um crescimento anual de 30%. HAMM et al. (2002), analisando o mercado europeu de produtos orgânicos, mostraram que o setor orgânico de vendas no varejo cresceu 439% entre 1993 e 2000. As previsões mais recentes (KORTBECH-OLESEN, 2003), mostram que o crescimento anual entre 2003 e 2005 deve variar entre 5 e 20%.  Apesar das altas taxas de crescimento, esses valores não ultrapassaram 4% do total de vendas de alimentos e representaram no ano de 2000 apenas 2,9 % da área agrícola total cultivada na União Européia. Cabe destacar que o maior crescimento tem ocorrido nos países da Escandinávia e Mediterrâneo.

A tabela 1 mostra que existem na Europa cerca de 175 mil propriedades orgânicas, ocupando uma área de 5,1 milhões de hectares.  A Áustria é o país da União Européia com o maior percentual de área orgânica cultivada do mundo (11,3%). Segundo WILLER (1999), em algumas regiões do país, como Salzbourg e Tyrol, 50% dos agricultores já estão no sistema orgânico. O setor, impulsionado a partir de 1983, obteve nos últimos anos um forte apoio político com incentivos financeiros para conversão. O objetivo do país é atingir nos próximos anos 20% das terras com a produção orgânica. Paralelamente, tem se observado um forte crescimento e a organização do mercado orgânico, com destaque para os supermercados. Um dos motivos de sucesso, além do apoio político, é o eficiente acompanhamento e serviço de inspeção.

 

TABELA 1 – 

NÚMERO DE PROPRIEDADES, PORCENTAGEM DO N. TOTAL DE PROPRIEDADES, ÁREA CULTIVADA E PORCENTAGEM DA ÁREA AGRICOLA TOTAL COM AGRICULTURA ORGÂNICA NA EUROPA

País

Número de Propriedades

% do Número Total de Propriedades

Área Orgânica 
(1000 hectares)

% da Área Agrícola Total

Data

Itália

56.440

2,44

1.230

7,9

2001

Áustria

18.292

9,30

285,5

11,3

2001

Espanha

15.607

1,29

485

1,6

2001

Alemanha

14.703

3,28

632,1

3,7

2001

França

10.364

1,55

419,7

1,4

2001

Grécia

6.680

0,81

31,1

0,6

2001

Suíça 

6.169

10,2

102,9

9,7

2001

Finlândia

4.983

6,4

147,9

6,6

2001

UK (Reino Unido)

3.981

1,71

679,6

3,9

2001

Suécia

3.589

4,01

193,6

6,3

2001

Dinamarca

3.525

5,58

174,6

6,5

2001

Noruega

2.099

3,09

26,6

2,6

2001

Polônia

1.787

0,07

44,8

0,3

2001

Holanda

1.528

1,42

38,0

1,9

2001

Hungria

1.040

-

105,0

1,8

2001

Iugoslávia

1.000

-

15,2

0.3

2001

Irlanda

997

0,69

30,0

0,6

2001

Portugal

917

0,22

70,8

1,8

2001

Bélgica

694

1,03

22,4

1,6

2001

República Tcheca

654

2,3

218,1

5,0

2001

Outros**

20.767

 

196,2

-

-

TOTAL

175.816

-

5.149,1

-

2001

FONTE:  Adaptado de YUSSEFI &  WILLER  (2003) ; DAROLT (2002)
NOTA: **Bulgária, Croácia, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Luxemburgo e Romênia.

 

A Suíça é outro país que apresenta cifras acima da média mundial em agricultura orgânica, cerca de 9,7 % da área total é cultivada com agricultura orgânica e 10,2% dos agricultores do país são orgânicos. Este crescimento se deve a uma estrutura organizada de apoio à produção, fiscalização e comercialização, além de apoio para pesquisa, extensão e inspeção de atividades agropecuárias orgânicas.

Segundo WIRTHGEN (1999), o mercado alemão de produtos orgânicos é um dos mais importantes da Europa. A Alemanha foi o primeiro país do mundo a criar um organismo para inspeção e controle da produção orgânica, mediante a Associação Deméter. Em 2001, foram contabilizadas cerca de 14.703 unidades de produção (3,2% do total), o que representa uma área de 632.165 hectares (3,7% da área total). Atualmente, a Alemanha é o terceiro país da União Européia em termos de área total com agricultura orgânica atrás da Itália e do Reino Unido. A principal forma de venda é o marketing direto (feiras e outros canais, que representam 20% das vendas) e as lojas de produtos naturais (33%). Recentemente, os supermercados têm ganhado importância significativa como canal de marketing, representando cerca de 27% das vendas.

O crescimento da agricultura orgânica na Itália tem surpreendido nos últimos anos.  Segundo as últimas estatísticas, a Itália é o primeiro país da União Européia tanto em termos de área total cultivada (perto de 1,2 milhão de ha) como em número de produtores (tabela 1). O rápido crescimento do sistema deve-se, sobretudo, às ajudas financeiras governamentais que apóiam o processo de conversão das unidades de produção. A Itália se destaca na produção de cereais, azeite de oliva, frutas e domina também a produção de vinho orgânico. Segundo HAMM et al. (2002) o país é responsável por 53% do vinho orgânico produzido na União Européia.

Os países situados mais ao norte da Europa como Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia apresentam um dos maiores crescimentos do mundo, motivado pelo aumento da demanda dos consumidores. A área em agricultura orgânica nesses países varia de 2,6 a 6,6% (Tabela 1). Os governos da Suécia e Finlândia, por exemplo, fixaram como objetivo a conversão de 10 % das unidades de produção para os próximos anos.

A Dinamarca apresenta o maior percentual de produção de vegetais orgânicos da União Européia (15,9%), seguido pela Suécia (6,5%). Segundo HAMM et al. (2002), os países nórdicos também se destacam na produção animal, com destaque para produção de leite e derivados, carne bovina, carne de ovelha, carne de cabra e ovos.

De acordo com dados do Observatoire National de l’Agriculture Biologique / ONAB (1999) da França, nos últimos anos o número de unidades de produção aumentou 28% e a área certificada cerca de 16%. De qualquer forma, este crescimento é considerado insuficiente para a agricultura francesa atingir os objetivos fixados pelo Plano Plurianual de Desenvolvimento da Agricultura Biológica (PPDAB), que pretende converter 25.000 propriedades e 1 milhão de hectares até o ano 2005. A tabela 1 mostra que até o momento foram convertidas cerca de 10.300 propriedades em 419 mil hectares. Segundo um dossier preparado pela revista Chambres d’Agriculture (APCA, 1999), para atingir esta meta, o nível atual de conversão deveria estar em torno de 2.500 unidades de produção e 100.000 hectares por ano. Como mostra a tabela 1, o manejo orgânico é utilizado em apenas 1,4% da área total agrícola da França.

Ainda na França, cabe destacar um aumento significativo de algumas produções animais na linha orgânica, sobretudo o frango orgânico que teve taxas de crescimento de 135% nos últimos dois anos, além da produção de porcos (39%), ovelhas (35%) e leite (19%). Em relação à produção vegetal o destaque é para o aumento das áreas de pastagens e forrageiras (29%), seguidas do cultivo de olerícolas (21%).

Outros países que têm apresentado crescimento importante são a Espanha e o Reino Unido. A Espanha nos últimos anos triplicou o número de produtores e a área, motivada pela ajuda governamental e pela possibilidade de exportação de seus produtos. O país conta com ótimas condições de clima mediterrâneo e continental para posicionar-se como destaque na União Européia. Entretanto, possui um pequeno mercado interno até o momento. Desta forma, a maior parte da produção orgânica é exportada para países do centro e norte da Europa.

A Espanha já ocupa a terceira posição em termos de número de produtores e quarta posição em área plantada. Alguns dos principais produtos provenientes de fazendas orgânicas são: grãos de leguminosas, hortaliças, frutas cítricas, frutas temperadas (maçã, pêra, melão, pêssego e nectarina), azeitonas, vinho, ervas aromáticas e medicinais, além de forragem para animais. A maioria da indústria processadora está ligada a produção de azeite de oliva e conservas de frutas e legumes que vão para o mercado externo.

No Reino Unido, depois do lançamento de uma lei de ajuda à conversão, editada em julho de 1994, a produção orgânica passou de 50.000 hectares em 1996, para 679.631 hectares em 2001 (YUSSEFI, 2003). Do total das áreas consideradas orgânicas, aproximadamente 80% correspondem a áreas de pastagem. O crescimento da produção animal orgânica também aponta para uma crescente importação de cereais orgânicos. O crescimento relativamente rápido experimentado na Inglaterra contrasta com o baixo crescimento de outros países como a Irlanda, por exemplo.

Vale ressaltar que dentro do setor orgânico se identificam pelo menos 800 empresas processadoras de alimentos certificadas, as quais orientam sua produção, importação e exportação para produtos destinados a alimentação humana e animal. A maior concentração destas empresas está voltada à produção animal. 

A meta do governo é converter pelo menos 10% das terras sob manejo orgânico até o ano de 2005. De qualquer forma, a produção ainda é insuficiente para suprir a demanda dos consumidores, fato que faz com que 70% dos alimentos orgânicos do Reino Unido sejam importados.

Em síntese, analisando os países da Europa, podemos observar um crescimento muito rápido do número de unidades de produção orgânicas e da demanda dos consumidores. A maioria dos países possui um sistema bem definido de Normas de Produção e Certificação. Para o ano de 2003, segundo previsões do ITC (KORTBECH-OLESEN, 2003), estima-se que o volume comercializado de produtos orgânicos na União Européia fique entre US $ 10,0 e US $ 11,0 bilhões, com destaque para os cereais, frutas, leite e ovos. Segundo o mesmo autor, a taxa de crescimento do mercado orgânico até 2005 deve variar entre 5 e 20% ao ano.

 

 AMÉRICA DO NORTE ORGÂNICA

Estatísticas recentes mostram que existem cerca de 6.949 propriedades orgânicas nos Estados Unidos, cobrindo uma área de 950 mil hectares, onde se cultiva principalmente cereais, com destaque para soja e trigo (HAUMANN, 2003). Segundo dados da Organic Farming Research Fundation / Fundação de Pesquisa em Agricultura Orgânica, aproximadamente 1% do mercado americano de alimentos é proveniente de métodos orgânicos de produção. Em 1996, isso representava em torno de US $ 3,5 bilhões em vendas. Nos últimos anos a venda de produtos orgânicos tem sido incrementada em até 20% ao ano. A tabela 2 mostra os principais produtos comercializados por categoria. O volume de vendas, estimado pelo OTA em 2000, que era de cerca de US $ 8 bilhões anuais, está sendo previsto para US $ 11 bilhões para o final de 2002.   

TABELA 2 – 

VENDA DE PRODUTOS ORGÂNICOS POR CATEGORIA DE MERCADORIA (US $)  -MERCADO DOS ESTADOS UNIDOS.

Produto

Ano Base

 

1998  
US $ (1.000.000)

1999  
US $ (1.000.000)

2000  
US $ (1.000.000)

Frutas e vegetais

3.486

3.904

4.294

Derivados de Leite

424

598

832

Congelados

400

565

813

Produtos Refrigerados

274

329

401

Grãos

201

278

400

Carne e Lingüiça

168

218

288

Produtos de Conveniência

145

196

269

Outros

112

129

145

Alimento para bebê

84

117

166

Sucos

60

75

91

Cerveja e Vinho

46

54

60

TOTAL

5.400

6.463

7.759

FONTE: OTA (2000)

 

Em relação ao mercado, é interessante observar que 62% dos produtos orgânicos são comercializados por lojas de comidas naturais, 31% por supermercados e somente 7% via comercialização direta (feiras, sacolas etc). O maior supermercado orgânico está no Texas, possui mais de 85 lojas em 19 estados, com um movimento em 1998, segundo a OTA (2000), de US $ 1.4 bilhão.

A importação dos EUA é considerável com relação aos produtos de origem tropical e alimentos processados. Atualmente, de acordo com dados da OTA (2000), 1/3 da população norte-americana ocasionalmente compra produtos orgânicos, sendo que 3% compram regularmente. Em média, os produtos orgânicos nos EUA custam 20% a mais que os similares convencionais.

No Canadá, segundo a Canadian Organic Growers – COG (COG, 2002; HAUMANN, 2003), existem aproximadamente 3.236 produtores orgânicos, produzindo basicamente trigo, aveia, cevada, trigo mourisco, frutas temperadas e vegetais. A área manejada com orgânicos é de aproximadamente 430.600 hectares, cerca de 0,58% da área total. Existem 45 certificadoras no Canadá, e mais de 320 processadores e transformadores de alimentos orgânicos. O mercado de alimentos orgânicos no Canadá é estimado entre US $ 460 e US $ 660 milhões. A expectativa, segundo a COG, é chegar a US $ 2 bilhões em 2005.

No México a agricultura orgânica começou a crescer a partir do início dos anos de 1980. Entretanto, nos últimos 5 anos o crescimento foi maior. Segundo TOVAR (2000) e HAUMANN (2003), as áreas orgânicas certificadas passaram de 23 mil hectares em 1996 para cerca de 143 mil hectares no ano 2001. Existem cerca de 137 zonas incorporadas ao movimento orgânico no México, cultivando cerca de 30 diferentes produtos, com destaque para o café (cultivado em cerca de 75% da área); hortaliças, incluindo tomate, pimenta, pepino, alho etc. (10% da área); maças (5% da área); sementes de gergelim (4%); feijões e grão-de-bico (3%) e outros produtos em menor escala (3% da área) como amendoim, cana-de-açúcar; banana, abacate, cacau, manga, morango e outras ervas medicinais.

O México apresenta o maior número de produtores orgânicos das Américas, cerca de 35.000, divididos em dois grupos: pequenos produtores ligados a grupos de movimentos sociais, que representam 95% do total de produtores, e grandes produtores ligados a grupos privados. Segundo TOVAR (2000) os pequenos produtores são responsáveis por 89% da produção orgânica mexicana e respondem por 78% da renda gerada com esses produtos.

Em torno de 85% da produção orgânica mexicana é exportada, sobretudo para os Estados Unidos. O restante 15% é distribuído no mercado interno. Isto faz com que as principais certificadoras sejam estrangeiras. Para se ter uma idéia, aproximadamente 79% da certificação é realizada por agências estrangeiras, sobretudo por certificadoras norte-americanas, como a Organic Crop Improvement Association International (OCIA), que acompanha 43% da área certificada. De acordo com TOVAR (2000), o setor orgânico mexicano gera aproximadamente 8,7 milhões de empregos por ano e movimentava cerca de US $ 70 milhões em exportações.

 

 AGRICULTURA ORGÂNICA NA OCEANIA

A região da Oceania inclui a Austrália, Nova Zelândia, Fiji, Papua, Nova Guiné, Tonga e Vanuatu. A concentração das áreas está majoritariamente na Austrália que possui cerca de 10,5 milhões de hectares orgânicos e 1.380 produtores (YUSSEFI, 2003), sendo mais de 90% da área com pastagens.

Na Austrália, segundo CLAY (2000), o mercado orgânico passou de US $ 19,2 milhões em 1990 para US $ 137 milhões em 2000.  O sortimento de produtos orgânicos passa por legumes, frutas frescas (maçã e laranja), produtos derivados de leite e carne. A maioria da área orgânica é administrada com pastoreio extensivo para gado e ovelha, sendo a carne exportada, basicamente, para a Europa. O produto no mercado interno é comercializado em lojas especializadas e, sobretudo, em grandes cadeias de supermercados. 

O país possui Normas estabelecidas desde 1992 para Produção de Produtos Orgânicos e Biodinâmicos e um Serviço Australiano de Inspeção (AQIS – Australian Quarantine Inspection Service). Sete Instituições estão cadastradas pela AQIS para o trabalho de inspeção de propriedades orgânicas e biodinâmicas, todas com permissão para exportação.

Aproximadamente 60% dos alimentos orgânicos vão para o mercado interno. Neste caso, os produtos orgânicos recebem cerca de 50 a 75% de prêmio quando comparados com os similares convencionais. Os principais mercados para exportação são a Grã-Bretanha, Alemanha e Japão. Uma boa perspectiva para a Austrália está em produtos como o trigo, carne bovina, cenouras, laranja e vinho. Apesar de ter a maior superfície orgânica do mundo, a Austrália ainda importa produtos orgânicos, sobretudo sucos de frutas, óleo de oliva e comida para bebê.

No que diz respeito à Nova Zelândia, até 1990 o mercado de produtos orgânicos era muito pequeno, apresentando um crescimento mais expressivo nos últimos 5 anos. CLAY (2000), calcula que o país movimentou cerca de US$ 60 milhões em alimentos orgânicos no ano 2000, o que corresponde a 1% do mercado de alimentos. Frutas e legumes representam o maior segmento de artigos organicamente produzidos. Cereais, derivados de leite e ovos representam cerca de 10% do total. A maioria dos alimentos orgânicos é comercializada em lojas de produtos naturais, as quais oferecem também outros tipos de produtos não orgânicos. Interessante destacar que o mercado da Nova Zelândia se desenvolveu basicamente sem o apoio governamental.

Em 1999, 60% do produto orgânico da Nova Zelândia foi exportado (Japão, Europa, EUA e Austrália) e 40% foram comercializados no mercado interno. Os produtos exportados foram kiwi, maçã, legumes congelados, legumes frescos e mel. A Nova Zelândia importa frutas secas principalmente dos Estados Unidos, Turquia e América do Sul, em segundo lugar nozes dos Estados Unidos e Índia, arroz da Austrália, Índia e Indonésia. Café e chá também são importados dos Estados Unidos, América do Sul, Índia e Sri Lanka. Neste país, os consumidores em 1999 pagaram em média 30% a mais sobre as frutas, legumes e óleos, e 40% a mais pelo preço da carne orgânica (CLAY, 2000).  Para finalizar, é importante destacar que desde 1992 a Nova Zelândia tem padrões nacionais para os produtos orgânicos. Recentemente, em julho de 2002, o governo fundou uma organização (OPENZ – Organic Product Exporters of New Zealand) visando facilitar a exportação dos produtos da Nova Zelândia para União Européia, Estados Unidos e Japão.

 

 ÁSIA ORGÂNICA

Dados recentes mostram que o continente asiático, no qual se computam 23 países[2], apresenta cerca de 60 mil propriedades orgânicas e 590 mil hectares de terras manejadas sob o sistema orgânico. Segundo YUSSEFI (2003), a Indonésia apresenta o maior número de produtores (45.000 propriedades em 40 mil hectares de área). A Índia também apresenta um número expressivo de propriedades orgânicas (5.661) em 41 mil hectares. Já a China se caracteriza por grandes propriedades, computando a maior área do continente asiático (301.000 hectares) e cerca de 2.900 propriedades. O Japão apresenta uma produção local reduzida em aproximadamente 5 mil hectares sendo, basicamente, um grande importador.

É por isso, que o maior mercado asiático de alimentos orgânicos está no Japão. As estimativas do Ministério da Agricultura Japonês indicam que a movimentação financeira deste mercado atingiu cerca de US $ 2,5 bilhões em 2000. Anteriormente, este número fora divulgado como US $ 4 bilhões, todavia neste cálculo eram computados outros produtos "verdes" ou "naturais" não-certificados. Cabe destacar que o país apresenta um grande número de consumidores orgânicos, variando de 3 a 5 milhões de pessoas, segundo dados da FAO (1994). No início dos anos de 1970 a Associação de Agricultura Orgânica Japonesa fez uma aliança entre produtores e consumidores, a meta era desenvolver um duradouro sistema de mercado justo.  Atualmente, de acordo com dados fornecidos por uma Associação Japonesa de Consumidores Orgânicos, com o qual mantivemos contato pessoal, existem cerca de 10 milhões de consumidores para o mercado orgânico e similar (com produtos que respeitam o meio ambiente). A tabela 3 aponta os principais tipos de alimentos importados pelo mercado asiático.

 

TABELA 3 – 

PRINCIPAIS PAÍSES E  TIPOS DE ALIMENTOS ORGÂNICOS NO MERCADO ASIÁTICO

País

Produtos Caseiros 

Importação

Prêmio
Preço*

Índia

Todos os tipos

 

100 %

Filipinas

Vegetais frescos e arroz;

Mel, chá, café, tempero, principalmente alimentos processados;

30-50 %

Tailândia

Arroz, vegetais, feijão, frutas;

 

10-30 %

China

Chá, mel, broto de bambu, amendoim, arroz, feijão;

 

10–30 %

Japão

Arroz, chá japonês, saquê, vinagre de arroz;

Macarrão, cereais, café, chá preto, chá de erva, vinho, cerveja, óleo, marmelada, manteiga, mel, vegetais congelados, nozes, frutas secas, frutas frescas (banana, kiwi, laranja), carne de boi, frango, queijo,

açúcar, pão, macarrão japonês, sucos, temperos (molho de soja, misô etc.), produtos a base de feijão/soja (tofu, natto etc.)

20-50%

FONTE: (MASUDA, 2000)
NOTA: * Prêmio pago ao produto orgânico em relação ao similar convencional

 

 No Japão existe uma campanha para se obter 1% da área agrícola orgânica para os próximos anos. Países como Turquia e Israel estão produzindo frutas secas e frescas, legumes e nozes. Na Ásia Oriental os países como China, Índia, República da Coréia e Sri Lanka estão produzindo cacau, café, óleos essenciais, ervas, especiarias, arroz, chá, baunilha e amendoim. Na maioria dos países ainda não existe um mercado diferenciado para os alimentos orgânicos, não havendo diferença de preço em relação aos produtos convencionais. Em países como Israel, Malásia, Filipinas e Japão os produtos orgânicos são comercializados em lojas especializadas e supermercados.

Na China, Hong Kong, Taiwan e Filipinas a demanda por produtos organicamente produzidos estão em ritmo de crescimento. Apesar de o mercado interno ainda ser pequeno, existe um grande potencial para exportação. Na Turquia toda produção certificada é para a exportação, principalmente para os mercados da Europa e Estados Unidos, sendo que 90% dos alimentos produzidos são frutas secas.

 

 ÁFRICA ORGÂNICA

O Continente africano apresenta uma particularidade importante: a “revolução verde” teve sucesso limitado, sendo que o uso de agroquímicos permaneceu baixo. Desta forma, pode-se dizer que muito da produção agrícola africana obedece aos padrões da agricultura orgânica. Entretanto, esta produção raramente é certificada pois não existem normas para produção orgânica em nenhum país do continente. Além disso, as estatísticas sobre a produção são limitadas a poucos países. As certificadoras que operam no continente são basicamente estrangeiras, o que torna o custo de certificação elevado.

A tabela 4 apresenta os principais produtos orgânicos da agricultura africana colocados no mercado internacional.  No Norte da África o mercado local de produtos orgânicos está crescendo, como é o caso do algodão e chá no Egito.  Os principais países produtores são Uganda, África do Sul, Moçambique, Senegal, Marrocos, Tanzânia Madagascar e Tunísia.

 

TABELA 4 – 

PRODUTOS ORGÂNICOS DA AGRICULTURA AFRICANA NO MERCADO  INTERNACIONAL

PRODUTO

PAÍS DE ORIGEM

Café

Uganda, Tanzânia, Madagascar

Algodão

Uganda, Senegal, Egito, Zimbabwe, Benin, Moçambique

Cacau

Tanzânia, Costa Marfim, Madagascar

Abacaxi

Gana, Uganda, Ilhas Maurício, Camarões, Madagascar

Doce de Banana

Uganda, Camarões

Mel

Argélia, Madagascar, Malawi, Zambia

Frutas Secas