Trabalhos 

Análise Comparativa Entre o Sistema Orgânico
e Convencional de Batata Comum

Moacir Roberto Darolt 1
Anibal Rodrigues 1
Nilceu Nazareno
1
Airton Brisolla
1
Osvaldo Rüppel 2

1. Pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR, Curitiba, Fone: (41) 551-1036, E-mail: darolt@iapar.br 
2. Estagiário do Curso de Agronomia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Trabalho publicado em 07/11/03

 
RESUMO
Este trabalho faz uma análise comparativa entre o sistema de cultivo convencional e orgânico de batata comum na região metropolitana de Curitiba, observando as principais dificuldades técnicas, desempenho econômico e potencialidades do sistema orgânico. Para tanto, foram acompanhados quatro estabelecimentos orgânicos e levantados indicadores técnicos e econômicos para uma análise comparativa com valores médios regionalizados da agricultura convencional. Observou-se que a principal dificuldade técnica do sistema de batata orgânica está na falta de variedades com maior rusticidade e resistência a patógenos. Um ponto de estrangulamento para o futuro da atividade é a produção de batata-semente de origem orgânica. Os resultados mostraram que no sistema convencional a produtividade média (400 sacas/hectare) foi superior ao sistema orgânico (206 sacas/hectare). Os gastos com insumos foram, em média, 81% maiores no sistema convencional. Os custos variáveis percentuais foram pouco maiores (75,42%) no convencional que  no sistema orgânico (70,27%). No sistema orgânico o custo da mão-de-obra (5% do custo total) e dos serviços (29%) foi superior ao convencional (3,8% e 24%, respectivamente). Os preços pagos ao produtor orgânico pela batata comum foram em média 90% superiores ao similar convencional. Apesar de menor produtividade, a relação benefício/custo = 3,11 (B/C)  no sistema orgânico foi superior ao convencional (B/C = 2,03), o que gerou uma renda líquida de aproximadamente R$ 2 mil/ hectare a mais no sistema orgânico. No estágio atual, existe maior eficiência de mercado do que eficiência técnica para a batata orgânica. Trata-se de investir em pesquisa para melhorar a eficiência produtiva do sistema.  

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos 30 anos, a produção brasileira de batata cresceu 70%, o que representa uma disponibilidade anual de aproximadamente 15 kg por habitante (LOPES & REIFSCHNEIDER, 1999). Este valor pode ser considerado modesto quando comparado com alguns países europeus, em que a disponibilidade é dez vezes maior. Mesmo assim, a batata é um item importante da dieta alimentar brasileira, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, onde a produção se concentra. No cultivo de batata normalmente utilizam-se grandes quantidades de fertilizantes químicos e agrotóxicos, o que pode gerar elevada concentração de resíduos no produto final e no ambiente (IAPAR, 2000). Segundo a SEAB/DERAL (2003), os agroquímicos representam a maior parte dos gastos com insumos na cultura da batata. O cultivo orgânico, em que se substituem fertilizantes químicos e agrotóxicos por adubação orgânica e manejo diferenciado, tem surgido como uma alternativa de manejo sustentável.

O objetivo deste artigo é verificar as possibilidades de se produzir batata em sistemas orgânicos, observando os principais entraves técnicos, desempenho econômico e potencialidades do sistema orgânico. Neste sentido, foram levantados alguns indicadores técnicos e econômicos que  permitem a comparação entre o sistema orgânico e o convencional.  

 

METODOLOGIA

Para este estudo foram selecionadas quatro propriedades que estão trabalhando com batata orgânica em dois municípios (Araucária e Campo Largo) da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), Paraná. A partir de um diagnóstico de campo de caráter qualitativo e quantitativo foram obtidos indicadores de produção física e econômica. Optou-se por selecionar alguns indicadores que pudessem ser comparados com valores médios regionalizados da agricultura convencional. Os dados referentes à produção orgânica foram obtidos junto a agricultores certificados pelo Instituto Biodinâmico (IBD) e Rede Ecovida de Certificação Participativa que estão trabalhando no sistema orgânico há cerca de quatro anos. Os dados obtidos nas propriedades orgânicas foram transformados em médias ponderadas para a composição dos custos.

Para a análise econômica, optou-se pela Análise de Benefício Custo, por ser uma das mais usadas na análise de atividades em que se quer apresentar/comparar o valor presente/atual de diferentes atividades. Trata-se de avaliar a razão entre o valor presente dos benefícios e o valor presente dos custos. Obviamente, a atividade que tiver a maior relação benefício custo (B/C), será a apropriada, do ponto de vista econômico.

Consideraram-se como custos, apenas os variáveis: gastos com insumos, mão-de-obra, serviços e transporte; como benefícios, as receitas brutas. Neste estudo não se consideraram os custos fixos por assumir que a estrutura de produção é semelhante, entre as propriedades em que se coletaram os dados.

No caso da agricultura convencional os dados foram obtidos com o Departamento de Economia Rural (DERAL) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado do Paraná (SEAB). Utilizou-se um estudo de campo para atualização de coeficientes e composição de preços da produção de batata comum[1] na RMC, realizado em maio de 2003. Os preços de insumos, de serviços e mão-de-obra e demais itens necessários à composição dos  custos para os dois sistemas, foram tomados da tabela de “Preços pagos pelos produtores no Estado do Paraná” da SEAB, referente ao mês de março de 2003. Os preços pagos ao produtor de batata comum foram obtidos no CEASA de Curitiba, durante o mês de junho de 2003.  

 

DIFERENÇAS E PARTICULARIDADES ENTRE O SISTEMA DE PRODUÇÃO DE BATATA ORGÂNICA E CONVENCIONAL  

A tabela 1, mostra algumas diferenças entre o sistema orgânico e convencional de batata. Em termos de preparo de solo praticamente não existe diferença entre os dois sistemas, sendo que no sistema orgânico recomenda-se o uso de implementos que movimentem o mínimo possível o solo, o que ainda não se conseguiu implementar com eficiência. 

Em relação ao processo de  fertilização, além de diferenças técnicas, existem abordagens distintas. No caso do sistema orgânico o que se busca não é simplesmente a nutrição da planta mas, sobretudo, a melhoria da fertilidade do  solo e do sistema como um todo. A fertilização orgânica é baseada na matéria orgânica e em fertilizantes minerais naturais pouco solúveis. O aporte de elementos fundamentais (N, P, K, Ca, Mg) é feito com o uso de esterco, adubos verdes, húmus, torta de mamona, farinha de ossos, rochas moídas semi-solubilizadas ou tratadas termicamente (fosfatos naturais, termofosfatos, sulfato potássio etc.), sendo estimulado o uso de calcário. No caso dos principais microelementos (Bo, Fe, Zn, Cu, Mn), a utilização ocorre principalmente na forma quelatizada, por meio da fermentação da matéria-prima em solução de água, esterco e aditivos energéticos, conhecidos como biofertilizantes (p. ex. supermagro, biogel etc).

TABELA 1 -  PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE O SISTEMA DE PRODUÇÃO DE BATATA CONVENCIONAL E ORGÂNICA
CARACTERÍSTICAS SISTEMA DE CULTIVO
CONVENCIONAL ORGÂNICO
Preparo de Solo Aração, gradagem, abertura de sulco Aração, gradagem, abertura de sulco
Fertilização

Uso de adubos químicos altamente solúveis (Uréia, Super simples, Cloreto K, NPK etc.)

Uso de adubos orgânicos (esterco, biofertilizantes, compostos, adubos verdes,  rochas naturais moídas, biofertilizantes)
Controle de pragas e doenças

Uso de produtos químicos (inseticidas,  fungicidas, nematicidas)

A base de medidas preventivas e produtos naturais pouco tóxicos (Caldas Bordaleza, Sulfocálcica, Extrato de Nim, iscas, armadilhas)
Controle de invasoras Uso de herbicidas ou controle integrado (incluindo químico) Controle mecânico na fase de amontoa, seguido de capinas manuais
Variedades normalmente utilizadas Tipo Lisa (Monalisa, Bintje, Vivaldi) Tipo Comum (Araucária, Contenda, Asterix, Elvira, Itararé)
Produtividade 400 sacas / hectare * 206 sacas/hectare**
Particularidades
  • Não exige certificação

  • Grandes áreas (> 5 hectares)

  • Exige certificação para receber o selo orgânico  

  • Pequenas áreas (0,5-2 hectares)

NOTA: * SEAB/DERAL (2003);  **Média das propriedades acompanhadas 

 

De uma maneira geral, os métodos empregados para o manejo de pragas e doenças no sistema orgânico de batata  podem ser sintetizados em três grandes pontos: 1) aumento da resistência das plantas (manejo adequado, espécies adaptadas e biofertilizantes); 2) controle biológico e uso de feromônios; 3) repelentes e tratamentos curativos à base de produtos naturais.

O controle de insetos com hábitos subterrâneos pode causar danos em lavouras de batata, ao perfurar, escarificar e abrir galerias nos tubérculos, depreciando-os comercialmente.  O seu controle torna-se mais complexo nas lavouras conduzidas em sistema orgânico, nas quais os produtores não tendo a opção do uso de agroquímicos, necessitam adotar outras medidas de controle, no sentido de tentar reduzir os prejuízos diretos e indiretos provocados por este grupo de pragas.

De acordo com BRISOLLA et. al. (2002), dentre as pragas de maior importância para a cultura da batata encontram-se as larvas de solo como a larva alfinete (Diabrotica speciosa), que causa danos na superfície do tubérculo e cujo adulto, um pequeno coleóptero, danifica a parte aérea, porém de menor relevância. A larva arame (Conoderus spp.) também causa danos nos tubérculos, normalmente em nível maior que a larva alfinete, sendo que sua forma adulta (Coleóptero) não causa danos à cultura. Os “Corós”, escaravelhos e/ou besouros de diversas espécies, atacam a cultura na sua fase larval, destacando-se as espécies: Euteola humilis, Diloboderus abderus, Phytalus sanctipauli e Phyllophaga cuyabana, todos Coleópteros. A “Pulga do fumo” (Epitrix fasciatus), um pequeno besouro (Coleópteoro), mais comum em lavouras orgânicas e atualmente nas convencionais, causa danos no tubérculo na sua fase larval e quando adultos na parte aérea. De forma geral, a larva arame e a larva alfinete  são as que causam maior dano ao tubérculo, seja pelo seu consumo depreciando-o e/ou por estar presentes desde a instalação da cultura.

Nas lavouras orgânicas tem-se observado uma incidência de pragas maior nos primeiros anos (DAROLT,2002). Neste caso, como medidas curativas utilizam-se preparados como o extrato de Nim, o ácido pirolenhoso, a calda de fumo, além de medidas preventivas como a rotação de culturas, época de semeadura com base na biologia e ecologia dos insetos, culturas armadilha e a instalação de lavouras próximas a áreas de mata, o que potencializa o controle por inimigos naturais, além de medidas de controle antes e após o plantio, conforme citado por BRISOLLA et al. (2002) e NAZARENO et. al. (2001).

De modo geral, a experiência prática tem mostrado que é possível conviver com as pragas dentro de um ambiente “orgânico” equilibrado, onde as pragas são  controladas naturalmente, inviabilizando sua permanência e/ou reduzindo suas populações.

Atualmente, o principal entrave técnico para a produção da batata orgânica é o controle de doenças. Segundo LOPES & BUSO (1997) mais de uma centena de doenças causadas por fungos, bactérias, vírus e nematóides foram registradas na  cultura da batata, muitas delas tão devastadoras que se não adequadamente controladas, causam perda total da produção. As principais doenças da batata são transmitidas por meio de batatas-semente infectadas. Por isso, torna-se necessário implementar um conjunto de medidas preventivas de controle antes e após o plantio, conforme citadas por NAZARENO et. al. (2001).

Vale lembrar que a produção de batata-semente de origem orgânica ainda não existe em escala comercial no Brasil. Dessa forma, os materiais utilizados são provenientes do sistema convencional o que pode ser um entrave técnico para o futuro da bataticultura orgânica. De outro lado, pode ser considerado como uma boa oportunidade de mercado para os produtores/fornecedores de insumos da cadeia produtiva orgânica.

Em relação a doenças importantes no sistema orgânico pode-se destacar duas: a requeima (Phytophthora infestans) e a pinta preta (Alternaria solani), ambas causadas por fungos.  Segundo SOUZA et al. (2003), a requeima da batata tem sido o principal fator limitante ao desenvolvimento da cultura em sistemas orgânicos de produção, visto que reduz a área foliar e o ciclo vegetativo, comprometendo a produtividade de tubérculos. Além de tratamentos preventivos, utilizam-se métodos curativos à base de caldas como bordaleza, sulfocálcica e biofertilizantes.

O manejo de invasoras não chega ser considerado problema para produção de batata orgânica, pois o controle é realizado no momento da amontoa. Segundo HAYASHI & STONTEMBORG (2001) antecipar este tipo de manejo evita perdas por competição com ervas e lesões nos tubérculos, o que pode ser uma porta de entrada de bactérias. Ademais, procura-se seguir um conjunto de medidas preventivas. Assim, recomenda-se o uso de práticas que evitem a ressemeadura de invasoras, o uso de plantas com efeito alelopático, o plantio em época adequada (antecipado para ganhar a concorrência com as invasoras), além do controle mecânico em época e condições de solo adequadas.

Voltando a tabela 1 pode-se observar que a batata orgânica é usualmente produzida, em pequenas propriedades, utilizando-se basicamente de mão-de-obra familiar. Em função da própria filosofia da produção orgânica de alimentos, a batata não é a única ou principal cultura das propriedades fazendo parte de um sistema mais complexo de rotação, sempre consorciada com outras culturas e muitas vezes com produção pecuária de pequeno porte. Sendo caracterizada por pequenas propriedades, com diversidade de produtos e sem a prática da monocultura, as áreas cultivadas com batata orgânica raramente ultrapassam dois hectares.

Segundo PEREIRA et al. (2002), para que se encontre produto no mercado durante todo o ano, a batata orgânica é cultivada de maneira parcelada dentro da propriedade a fim de dispor do produto ao longo do período, para comercialização nas feiras de produtores orgânicos.

Para finalizar a análise da tabela 1 pode-se observar que a produtividade média do sistema orgânico foi de baixa eficiência física (206 sacas/hectare) quando comparado ao convencional (400 sacas/hectare). Contudo, este tipo de avaliação deve ser ponderado, pois exige incorporar a questão dos impactos ambientais devidos ao uso desses insumos, o que obriga a considerar os custos sociais que o seu uso provoca e que a rigor são custos econômicos assumidos pela sociedade, chamados de externalidades e não computados nos custos diretos. 

É sabido que a cultura da batata apresenta elevado potencial de impacto ao ambiente, em função do uso elevado de agroquímicos e do potencial erosivo marcante pela intensa movimentação de solo no plantio e na colheita. Agregando-se o fato de que é uma lavoura de elevado risco quanto à viabilidade econômica, pode-se concluir que o modo convencional de produção de batata tem apresentado um baixo grau de sustentabilidade, fato que pode ser constatado numa visita de campo à região Metropolitana de Curitiba que já foi uma das maiores produtoras nacionais do produto.

 

ANÁLISE ECONÔMICA COMPARADA DA PRODUÇÃO DE BATATA ORGÂNICA E CONVENCIONAL
A análise econômica foi realizada a partir da composição dos custos variáveis dos dois sistemas de produção considerados. As tabelas 2 e 3 apresentam uma síntese dos resultados. Os indicadores físicos e econômicos, as quantidades de insumos e de trabalho aplicadas, bem como os custos destes para os dois sistemas podem ser observados nas tabelas A.1 e A.3 em anexo.
TABELA 2 -  SÍNTESE COMPARATIVA DOS GASTOS MONETÁRIOS COM INSUMOS E SERVIÇOS, MÃO-DE-OBRA E PRODUTIVIDADE DA BATATA NOS SISTEMAS ORGÂNICO E CONVENCIONAL
 

SISTEMA DE CULTIVO

ORGÂNICO

CONVENCIONAL

INSUMOS R$ % R$ %
   Sementes 2.246,75 53,3 2.184,00 30,7
   Fertilizantes/Corretivos 560,24 13,3 1.714,70 24,1
   Inseticidas 566,08 8,0
   Fungicidas 16,28 0,4 563,04 7,9
   Sacos 138,72 3,3 272,00 3,8
   Herbicidas 58,48 0,8
Total Insumos 2.961,97 70,3 5.358,30 75,4
Total Serviços 1.252,94 29,7 1.746,00 24,6
Mão-de-Obra (horas) 35,03 19,50
Produtividade (sc  50 kg/ha) 206 400
FONTE: Levantamento Campo;  SEAB/DERAL (2003)
 

Na tabela 2 observa-se que na lavoura de batata convencional, os gastos com insumos (fertilizantes, inseticidas e fungicidas) representam a maior parte dos custos variáveis de produção (75,4%). No caso do sistema orgânico, verificou-se tendência percentual similar, representando cerca de 70% do custo total. Contudo, em termos monetários, no sistema convencional gastou-se significativamente mais (81%) com insumos que no orgânico (R$ 2.396,33 a mais por hectare). Esse diferencial econômico que onera o sistema convencional permitiu alcançar maior produtividade física (94% a mais) quando comparado ao orgânico.

Analisando os gastos com insumos no sistema orgânico, percebe-se que a compra de batata-semente representa mais da metade (53,30%) dos custos totais. A produção deste insumo é uma boa oportunidade para produtores que queiram se especializar neste tipo de serviço o que pode baratear ainda mais os custos de produção e aumentar a eficiência produtiva. Vale lembrar que num futuro próximo, como já ocorre na Europa, a produção de sementes de origem orgânica será uma exigência das certificadoras.

O custo maior do item serviços no sistema convencional, deve-se ao maior gasto com a colheita (maior volume a colher) e com as pulverizações. Nas tabelas A.2 e A.4 anexas, observa-se que o tempo gasto em serviços no sistema orgânico foi maior (35 horas/ha) quando comparado ao sistema de batata convencional (19,5 horas de trabalho/ha).

O estudo confirma que nos sistemas orgânicos o uso de mão-de-obra o tende a ser maior a necessidade do trabalho aplicado à produção – preparação de insumos na propriedade, aplicação dos insumos, práticas culturais, colheita e armazenamento mais meticulosos –, fato que torna a gestão mais complexa e, em alguns casos, onera mais os custos monetários. Por ser esse um fator relevante na comparação entre sistemas de produção convencionais e orgânicos, apresenta-se em anexo as tabelas de composição da mão-de-obra para os dois sistemas. Os resultados evidenciaram que no sistema orgânico o uso de mão-de-obra (5%) e serviços (29%) foi ligeiramente superior ao convencional (3,8% e 24%, respectivamente).

A tabela 3 apresenta um resumo complementar dos principais indicadores econômicos para a análise comparativa dos sistemas em estudo. No anexo pode-se observar a composição detalhada dos custos dos insumos e dos serviços.

 

TABELA 3 -  SÍNTESE COMPARATIVA DE INDICADORES ECONÔMICOS PARA OS SISTEMAS ORGÂNICO E CONVENCIONAL DE PRODUÇÃO DE BATATA

INSUMOS

SISTEMA DE CULTIVO

ORGÂNICO

CONVENCIONAL

  R$ % / Custo Total R$ % / Custo Total
Custo dos insumos 2.961,97 70,3 5.358,30 75,4
Custo dos serviços 1.252,94 29,7 1.746,00 24,6
Custo da mão-de-obra1 213,26 5,1 276,25 3,9
Custo total de produção 4 214,91   7 104,30  
Renda bruta 13 132,50   14 000,00  
Renda líquida 8 917,59   6 895,70  
Relação B/C 3,11   2,03  
Custo produção/sc 20,50   17,76  
Preço recebido/sc 63,75   35,00  
(1) Já computado em “Custo dos Serviços”.
 

Como visto, o diferencial dos dois sistemas é dado pelo uso intensivo de insumos industriais e pela produtividade da batata. A produtividade mais elevada do sistema convencional compensa os custos mais elevados e o menor preço recebido pelo produto, o que permitiu obter renda bruta pouco diferente, entre os dois sistemas (Tabela 3).

Contudo, o custo de produção de R$ 2.889,39 a mais por hectare no sistema convencional redundou em renda líquida significativamente menor – menos R$ 2.021,89/ha que no orgânico. O fato é relevante tanto pela diminuição real da renda líquida, quanto pelo potencial de risco próprio da atividade, sempre afeta a condições ambientais e de mercado bastante adversas.

Analisando a viabilidade econômica – para os dois sistemas – podemos dizer que isso ocorrerá desde que haja a possibilidade de venda dessa batata a um preço razoável, o que não é assegurado em uma série anual mais ou menos longa, destacadamente  para a batata convencional. Observe-se que, nas condições deste estudo, a batata orgânica foi vendida a R$ 63,75/sc, 82 % a mais que a convencional. É preciso destacar que para haver benefício custo favorável, a batata orgânica não pode ser vendida a menos de R$ 25,00/sc (R$ 20,50 referente aos custos variáveis mais R$ 4,50 estimados - 20% a mais  para os custos fixos), nas condições dadas. Nesse aspecto, para a batata convencional a “margem de manobra” é um pouco maior, pois o limite de preço de venda ficaria em torno dos R$ 21,00/sc.

Finalmente, é preciso analisar a relação Benefício Custo (B/C) que avalia a razão entre o valor presente dos benefícios e o valor presente dos custos. Neste caso, notou-se superioridade para o sistema orgânico (B/C = 3,11) em comparação com o sistema convencional (B/C = 2,03). Os resultados mostraram que do ponto de vista da viabilidade econômica e adequação ambiental, o sistema de produção de batata orgânica foi o mais eficiente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do ponto de vista técnico, o cultivo orgânico de batata depende, prioritariamente, da geração de clones com maior grau de rusticidade e resistência varietal a doenças e pragas para obtenção de melhores produtividades. Um ponto de estrangulamento técnico para o desenvolvimento do sistema é a produção de batata-semente orgânica. No futuro, o uso de sementes de origem orgânica deverá ser uma exigência das certificadoras. Além disso, este item representa mais da metade do custo de produção, o que pode ser uma excelente oportunidade de mercado futuro.

De forma geral, os indicadores técnicos demonstram que a produtividade do sistema orgânico atinge apenas metade da eficiência física do sistema convencional. O diferencial de eficiência produtiva somada a baixa escala de produção, tornam a atividade orgânica pouco representativa para atender a demanda de mercado. Desta forma, é preciso maior organização da cadeia produtiva e, sobretudo, investimento na pesquisa de variedades adaptadas ao sistema orgânico.

Os resultados econômicos do sistema de produção de batata orgânica não deixam dúvida quanto à sua viabilidade. Ficou demonstrado que a viabilidade econômica do sistema orgânico está relacionada à venda de produtos em mercados diferenciados. Assim, os preços recebidos pelo produtor orgânico são praticamente o dobro do convencional, associado a menor variação e a maior estabilidade no tempo. Além disso, a demanda de mercado pela batata orgânica é crescente.

Neste contexto, assegurado a eficiência econômica e ecológica do sistema orgânico, resta aperfeiçoar sua eficiência técnica para que atenda aos aspectos sociais de segurança alimentar. Além disso, é desejável fortalecer a organização da cadeia produtiva da batata orgânica para aumentar a representatividade de mercado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

BRISOLLA, A .D.; NAZARENO, N.R.X. de; TRATCH, R.; FURIATTI, R.S.; JACCOUD FILHO, D.S. Manejo integrado das principias doenças e pragas da cultura da batata – uma visão holística de controle para o Estado do Paraná. Londrina: IAPAR, 2002. (IAPAR. Circular, 124). 43 p.

DAROLT, M.R.  Agricultura Orgânica: inventando o futuro. Londrina: IAPAR, 2002. 250 p.

HAYASHI, P. & STONTEMBORG, J. Batata Orgânica. Batata Show – A Revista da Batata, Ano 3, n. 7, p. 24. 2001.

LOPES, C.A . & BUSO, J.A . O cultivo da batata (Solanum tuberosum L.). Embrapa, Brasília, DF. Instruções Técnicas da Embrapa Hortaliças, 8. 1997.

LOPES, C.A . & REIFSCHNEIDER,F.J.B. Manejo  integrado das doenças da batata. EPAMIG, Informe Agropecuário. Vol. 20, n. 197. 1999.

NAZARENO, N.R.X. de; BRISOLLA, A .D.; TRATCH, R. Manejo integrado das principias doenças fúngicas e de pragas de solo da cultura da batata – uma visão holística de controle para o Estado do Paraná. Londrina: IAPAR, 2001. (IAPAR. Circular, 118). 29 p.

PEREIRA, A .M.; TRENTINI, C.M.K.; MONTRUCCHIO, E.P.; KOEHLER, J.C. Estudo comparativo entre as cadeias produtivas da batata orgânica e convencional. Faculdade Católica de Administração e Economia FAE/CDE. Curitiba: 2002, 64 p.

SEAB/DERAL. Preços Médios Mensais Recebidos pelos Produtores. http://www.pr.gov.br/seab/deral. Acesso em 17/10/2003.

IAPAR. Agronegócio do Paraná: perfil e caracterização das demandas das cadeias produtivas. Londrina: IAPAR, 2000.  (IAPAR, Documento, 24). p.109-114.

SOUZA, J.L. de;  VENTURA, J.A .; COSTA, H. Avaliação de genótipos de batata (solanum tuberosum) em cultivo orgânico. www.cnph.embrapa.br/novidade/eventos/organica/trabalhos.html. Acesso em 14/10/2003.

 

ANEXOS
Na Tabela A.1 apresenta-se a composição dos custos dos insumos[2] e dos serviços aplicados ao sistema de produção de batata orgânica e as variáveis  para a avaliação econômica desse sistema. O dados referem-se à média de quatro propriedades representativas da Região Metropolitana de Curitiba.

 

TABELA A.1 COMPOSIÇÃO DOS CUSTOS E INDICADORES PARA A ANÁLISE ECONÔMICA DO  SISTEMA  DE PRODUÇÃO DE BATATA ORGÂNICA
COMPONENTES DO CUSTO UNID

QTIDADE/
ha

Nº de
AÇÕES

CUSTO UNID. (R$)

 CUSTO
R$/ha

PART.
%

INSUMOS
Sementes de batata kg 2 150 1,0 1,04 2246,75 53,30
Esterco ton. 6 37 1,0 80,88 515,61 12,23
Sacos unid. 204 1,0 0,68 138,72 3,29
Calcário dolomítico ton. 3 425 0,2 56,00 38,36 0,91
Calda bordaleza kg 0,64 6,0 4,24 16,28 0,39
Adubo foliar litro 2,0 2,5 1,25 6,25 0,15
Sub-Total Insumos  

2 961,97

70,27

SERVIÇOS (Horas-máquina + M. O.)

Colheita hora 11,5 1,0 35,86 412,39 9,79
Plantio hora 10,25 1,0 33,84 346,86 8,23
Pulverizações hora 1,25 7,2 33,46 301,14 7,15
Preparo de solo