Como se vê, de uma maneira geral, as
taxas de aumento da produção de carne até o ano 2020 acompanham as do
consumo de carne. A produção de carne aumentará quatro vezes mais
rapidamente nos países em vias de desenvolvimento do que nos países
desenvolvidos. Até 2020, os países em vias de desenvolvimento
produzirão 60% da carne mundial e 52% do leite mundial. A China
encabeçará a produção de carne, e a Índia a produção de leite.
Preços Mundiais
O aumento da produção de proteína animal vai incrementar o consumo
dos cereais forrageiros em 292 milhões de toneladas métricas. Alguns
setores manifestam preocupação com a pressão altista sobre o
comportamento futuro dos preços dessas commodities. Mas o modelo
do IFPRI mostra o contrário e prevê uma ligeira baixa, se bem que não
tão acelerada como a que aconteceu nos últimos 20 anos.A hipótese
mais pessimista parte do pressuposto de um forte aumento na
industrialização da produção, na falta de uma correspondente
melhoria na conversão alimentar das criações. Nesse caso extremo, os
preços dos cereais forrageiros por unidades de carne poderão ter uma
subida de 1% ao ano.Ainda assim, o modelo Impact mostra que os
preços reais do milho no ano 2020 subirão, no máximo, até um quinto
acima dos níveis presentes e permanecerão substancialmente abaixo dos
níveis registrados no início dos anos 80.Mesmo que a produtividade das
criações pecuárias aumente bem menos que seus registros históricos,
as perspectivas não chegam a alarmar. No ano 2020 haverá carne, leite
e cereais forrageiros em quantidades suficientes e a preços inferiores
aos níveis praticamente no triênio 1992/93/94.Logo, a questão-chave
dirá muito menos respeito à disponibilidade de oferta. Os grandes
temas se concentrarão nos efeitos diretos do aumento em escala da
produção e do consumo de proteína animal pelas grandes massas, no
meio ambiente e na saúde humana.
Massificação de consumo
Nas populações de baixa renda e extrema pobreza, o aumento do consumo
de produtos de origem animal fará aumentar seu poder de compra. A
criação pecuária proporciona aos lavradores os adubos e a tração
bovina. Dá-lhes também a possibilidade de explorar áreas comuns de
pastagem e diversificar suas fontes de rendimento.Aqui há uma
preocupação procedente. A acelerada industrialização da produção,
combinada com a concessão farta de créditos subsidiados podem pôr em
risco esse tênue equilíbrio. Assim, na elaboração de políticas
públicas para o setor agropecuário deve-se levar em conta que a
revolução pecuária constitui um dos meios principais para aliviar a
pobreza nos próximos 20 anos. Nenhum zelo será excessivo para manter
as populações pobre num dos mercados em expansão onde elas têm
posição competitiva.Por sua vez, os produtos pecuários também
beneficiam as populações de baixa renda reduzindo seus déficit de
proteínas e de micronutrientes, carências crônica nos países em vias
de desenvolvimento. Cada indivíduo pobre que aumenta seu consumo de
carne e leite, mesmo em quantidades pequenas, ganha uma quantidade de
elementos nutritivos, proteínas e calorias similar à de uma grande
refeição diversificada de cereais e vegetais.
Sustentabilidade e saúde
pública
Ante os baixos níveis do consumo de calorias pelas populações pobres,
a falta de acesso às proteínas de origem animal preocupa os governos.
As doenças transmissíveis ao homem pelo consumo de produtos pecuários
constituem um risco sério de saúde nos países em desenvolvimento. Aí
estão a gripe aviária, a salmonela, a contaminação microbiana
resultantes da manipulação pouco higiênica dos alimentos.O mesmo grau
de perigo oferecem os resíduos de defensivos, vacinas e antibióticos
na rede alimentar resultantes das práticas de produção fora dos
preceitos técnicos.Os efeitos da revolução pecuária sobre o meio
ambiente também são problemáticos, principalmente nos sistemas de
produção intensiva. As grandes quantidades de gases de estufa, os
excessos de nutrientes e dejetos produzidos pelas criações ameaçam o
meio ambiente.Por sua vez, as concentrações maiores de animais nas
áreas suburbanas e marginais das cidades têm duplo efeito. Um é
positivo, pois servem para suprir as necessidades crescentes de carne e
leite das áreas urbanas. O outro é negativo, já que causam a
degradação das áreas, contaminam mananciais e geram poluição.
É melhor prevenir
A bovinocultura contribui para a sustentabilidade do meio ambiente nos
sistemas agropecuários quando se pratica a rotação do cultivo de
plantas com a criação animal. Nesses sistemas, a criação proporciona
o estrume, a força de tração dos animais e mantém a produção
intensiva das culturas.Normalmente no entanto as políticas de incentivo
da pecuária se desvirtuam e se tornam vetores da devastação de
florestas para a formação de pastagens, ao fomentar a criação
extensiva em relação à intensiva, que é sustentável.Algum dia,
irremediavelmente, a poluição causada tanto pelas criações
intensivas de pequenos e médios animais como pela derrubada de matas
nativas para instalação da bovinocultura extensiva terá de ser
considerada como um custo financeiro para a sociedade, seja no nível do
produtor ou do consumidor.
Formulação das políticas
A revolução pecuária é resultado da contínua transformação nos
hábitos nutricionais dos países em desenvolvimento, impulsionada pelo
aumento dos rendimentos da população e pela expansão das áreas
urbanas. Os responsáveis pelas políticas para o setor terão de se
debruçar então sobre quatro questões fundamentais:
- a integração dos pequenos criadores na cadeia
vertical da carne, ligados à indústria de transformação e à
distribuição dos produtos;
- as facilidades de acesso das camadas pobres a meios
produtivos tais como crédito, instalações de refrigeração,
treinamento e informação sanitárias;
- os benefícios da redução da pobreza com a
integração dos pequenos criadores às grandes empresas industriais
de processamento;
- os efeitos ambientais da criação animal em
pequena escala e os efeitos benéficos sobre a saúde das economias
de escala obtidos pelo processamento industrial em grande escala.
A elaboração de políticas facilita
a integração dos pequenos agricultores na produção comercial, quando
corrige as distorções promovidas pelas economias de escala
artificiais, via crédito subsidiado.
O êxito desse esforço depende do
empenho político, seja da parte do governo, seja do setor privado.
Ambos devem colaborar na geração de tecnologias e práticas para
reduzir os riscos de contaminação, sempre suscetíveis quando animais
de numerosos pequenos criadores convivem em uma única instalação.
Enfim, priorizar temas ligados aos aspectos sanitários nas fases de
industrialização e distribuição dos produtos.Sabe-se que as
tecnologias e práticas para combater os riscos de saúde pública e
ambientais não funcionarão, salvo se houver mecanismos regulatórios
para seu cumprimento. Um lenitivo pelo menos, pois se não há grande
espaço para as políticas estancarem a revolução pecuária, elas
pode, contudo, ajudá-la a ser benéfica para o bem-estar das
populações, notadamente as de menor renda.
Bibliografia
Delgado, C.; Bosegrant, M.;
Steinfeld, H.; Ehui, S. & Livestock, C. 2020: the next food
revolution. 2020 vision for food, agriculture, and environment.
Washington DC: Internatioonal Food Policy Research Institute, 1999.
Discussion paper.