Trabalhos 

A OUTRA REVOLUÇÃO
Até 2020 o aumento do consumo de carnes 
nos países em desenvolvimento será irreversível.

Luiz Antonio Pinazza é redator de pecuária e política agrícola 
da Revista  Agroanalysis,  da Fundação Getúlio Vargas.

Trabalho publicado em 10/03/2001


A expansão demográfica, a urbanização e o aumento da renda nos países em desenvolvimento estão provocando uma elevação substancial no consumo de alimentos de origem animal: é a chamada revolução pecuária. Trata-se de uma mudança nas dietas alimentares em prol de uma melhoria significativa do bem-estar de bilhões de indivíduos, principalmente os de menor renda.

Sintonia necessária
Enquanto a revolução verde teve impacto na oferta de produtos vegetais, a revolução pecuária surge de forma indireta, mais induzida, pois decorre basicamente do aumento na demanda de seus gêneros. De comum entre ambas, há conseqüências profundas sobre a saúde e os hábitos de vida das pessoas, bem como sobre o meio ambiente. As cadeias dos complexos de carnes, junto com os governos, precisam manter-se em sintonia com esse processo quanto à definição dos investimentos e ao estabelecimento de políticas de longo prazo. Os elos da produção, indústria e distribuição, no conjunto, devem encontrar meios de satisfazer as necessidades e melhorar as condições de nutrição do público consumidor. Enquanto isso, os poderes governamentais precisam atuar pela criação de oportunidades para que os mais necessitados alcancem renda suficiente que lhes permita o acesso à proteína animal, bem como pela criação de uma legislação capaz de minorar os problemas ecológicos e de saúde pública. Há ainda um longo caminho a percorrer. A renda de uma grande parcela da população permanece baixa.Mas há um fato concreto a justificar algum otimismo: a partir de uma pequena base, por um fenômeno semelhante ao da massificação, os países em desenvolvimento acompanham a tendência de consumo dos países desenvolvidos. Nos últimos 30 anos, a começar pela Ásia, o volume de carne demandada nos países em desenvolvimento quase triplicou o registrado nos países desenvolvidos.

Em que consiste
Os produtos animais, em média, fornecem 27% das calorias e 56% das proteínas que compõem a alimentação dos habitantes dos países desenvolvidos. As médias dos países em vias de desenvolvimento são bem menores – 11% e 26%, respectivamente. A diferença entre os níveis de consumo indica as profundas mudanças previstas para a futura expansão da produção mundial de alimentos após a revolução pecuária.
Há indícios de que a produção de alimentos de origem animal crescerá rapidamente nos lugares onde o consumo também aumenta. O total da produção de carne nos países em vias de desenvolvimento aumentou 5,4% por ano, entre o início dos anos 80 e meados dos 90. Isso supera em cinco vezes a taxa dos países desenvolvidos.A produção per capita manteve-se no mesmo ritmo do crescimento da população nos países em vias de desenvolvimento, com exceção do Subsaara africano (quanto à carne) e da Ásia ocidental e Norte da África (quanto ao leite),

Região

Aumento % anual do consumo total de carne

Consumo total de carne em milhões de toneladas

 

1982-94

1993-2020

1983

1993

2020

China

8,6

3,0

16

38

85

Outros países do Leste asiático

5,8

2,4

1

3

8

Índia

3,6

2,9

3

4

8

Outros países do Sul da Ásia

4,8

3,2

1

2

5

Sudeste asiático

5,6

3,0

4

7

16

América Latina

3,3

2,3

15

21

39

Oeste asiático e África do Norte

2,4

2,8

5

6

15

África subsaariana

2,2

3,5

4

5

12

Países em desenvolvimento

5,4

2,8

50

88

188

Países desenvolvidos

1

0,6

88

97

115

Mundo

2,9

1,8

139

184

303

Consumo do Futuro
A formulação das tendências de consumo é investigada pelo IFPRI, seguindo um modelo alimentar mundial em que se incluem dados originários de 37 países e grupos de países e 18 produtos.Conhecido como Impact (International Model for Policy Analysis of Agricultural Consumption), o cenário do início dos anos 90 até 2020 prevê um aumento do consumo da carne e do leite de respectivamente 1,8 e 3,3% nos países em vias de desenvolvimento e de 0,6 e 0,2% nos países desenvolvidos.Ou seja, até 2020, em toneladas métricas, os países em vias de desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas de carne e mais 223 milhões de leite. Esse vultuoso crescimento mal pode ser comparado com o aumento projetado de 18 milhões de toneladas métricas da carne e do leite para os países desenvolvidos.
Como se vê, de uma maneira geral, as taxas de aumento da produção de carne até o ano 2020 acompanham as do consumo de carne. A produção de carne aumentará quatro vezes mais rapidamente nos países em vias de desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Até 2020, os países em vias de desenvolvimento produzirão 60% da carne mundial e 52% do leite mundial. A China encabeçará a produção de carne, e a Índia a produção de leite.

Preços Mundiais
O aumento da produção de proteína animal vai incrementar o consumo dos cereais forrageiros em 292 milhões de toneladas métricas. Alguns setores manifestam preocupação com a pressão altista sobre o comportamento futuro dos preços dessas commodities. Mas o modelo do IFPRI mostra o contrário e prevê uma ligeira baixa, se bem que não tão acelerada como a que aconteceu nos últimos 20 anos.A hipótese mais pessimista parte do pressuposto de um forte aumento na industrialização da produção, na falta de uma correspondente melhoria na conversão alimentar das criações. Nesse caso extremo, os preços dos cereais forrageiros por unidades de carne poderão ter uma subida de 1% ao ano.Ainda assim, o modelo Impact mostra que os preços reais do milho no ano 2020 subirão, no máximo, até um quinto acima dos níveis presentes e permanecerão substancialmente abaixo dos níveis registrados no início dos anos 80.Mesmo que a produtividade das criações pecuárias aumente bem menos que seus registros históricos, as perspectivas não chegam a alarmar. No ano 2020 haverá carne, leite e cereais forrageiros em quantidades suficientes e a preços inferiores aos níveis praticamente no triênio 1992/93/94.Logo, a questão-chave dirá muito menos respeito à disponibilidade de oferta. Os grandes temas se concentrarão nos efeitos diretos do aumento em escala da produção e do consumo de proteína animal pelas grandes massas, no meio ambiente e na saúde humana.

Massificação de consumo
Nas populações de baixa renda e extrema pobreza, o aumento do consumo de produtos de origem animal fará aumentar seu poder de compra. A criação pecuária proporciona aos lavradores os adubos e a tração bovina. Dá-lhes também a possibilidade de explorar áreas comuns de pastagem e diversificar suas fontes de rendimento.Aqui há uma preocupação procedente. A acelerada industrialização da produção, combinada com a concessão farta de créditos subsidiados podem pôr em risco esse tênue equilíbrio. Assim, na elaboração de políticas públicas para o setor agropecuário deve-se levar em conta que a revolução pecuária constitui um dos meios principais para aliviar a pobreza nos próximos 20 anos. Nenhum zelo será excessivo para manter as populações pobre num dos mercados em expansão onde elas têm posição competitiva.Por sua vez, os produtos pecuários também beneficiam as populações de baixa renda reduzindo seus déficit de proteínas e de micronutrientes, carências crônica nos países em vias de desenvolvimento. Cada indivíduo pobre que aumenta seu consumo de carne e leite, mesmo em quantidades pequenas, ganha uma quantidade de elementos nutritivos, proteínas e calorias similar à de uma grande refeição diversificada de cereais e vegetais.

Sustentabilidade e saúde pública
Ante os baixos níveis do consumo de calorias pelas populações pobres, a falta de acesso às proteínas de origem animal preocupa os governos. As doenças transmissíveis ao homem pelo consumo de produtos pecuários constituem um risco sério de saúde nos países em desenvolvimento. Aí estão a gripe aviária, a salmonela, a contaminação microbiana resultantes da manipulação pouco higiênica dos alimentos.O mesmo grau de perigo oferecem os resíduos de defensivos, vacinas e antibióticos na rede alimentar resultantes das práticas de produção fora dos preceitos técnicos.Os efeitos da revolução pecuária sobre o meio ambiente também são problemáticos, principalmente nos sistemas de produção intensiva. As grandes quantidades de gases de estufa, os excessos de nutrientes e dejetos produzidos pelas criações ameaçam o meio ambiente.Por sua vez, as concentrações maiores de animais nas áreas suburbanas e marginais das cidades têm duplo efeito. Um é positivo, pois servem para suprir as necessidades crescentes de carne e leite das áreas urbanas. O outro é negativo, já que causam a degradação das áreas, contaminam mananciais e geram poluição.

É melhor prevenir
A bovinocultura contribui para a sustentabilidade do meio ambiente nos sistemas agropecuários quando se pratica a rotação do cultivo de plantas com a criação animal. Nesses sistemas, a criação proporciona o estrume, a força de tração dos animais e mantém a produção intensiva das culturas.Normalmente no entanto as políticas de incentivo da pecuária se desvirtuam e se tornam vetores da devastação de florestas para a formação de pastagens, ao fomentar a criação extensiva em relação à intensiva, que é sustentável.Algum dia, irremediavelmente, a poluição causada tanto pelas criações intensivas de pequenos e médios animais como pela derrubada de matas nativas para instalação da bovinocultura extensiva terá de ser considerada como um custo financeiro para a sociedade, seja no nível do produtor ou do consumidor.

Formulação das políticas
A revolução pecuária é resultado da contínua transformação nos hábitos nutricionais dos países em desenvolvimento, impulsionada pelo aumento dos rendimentos da população e pela expansão das áreas urbanas. Os responsáveis pelas políticas para o setor terão de se debruçar então sobre quatro questões fundamentais:

  • a integração dos pequenos criadores na cadeia vertical da carne, ligados à indústria de transformação e à distribuição dos produtos;
  • as facilidades de acesso das camadas pobres a meios produtivos tais como crédito, instalações de refrigeração, treinamento e informação sanitárias;
  • os benefícios da redução da pobreza com a integração dos pequenos criadores às grandes empresas industriais de processamento;
  • os efeitos ambientais da criação animal em pequena escala e os efeitos benéficos sobre a saúde das economias de escala obtidos pelo processamento industrial em grande escala.

A elaboração de políticas facilita a integração dos pequenos agricultores na produção comercial, quando corrige as distorções promovidas pelas economias de escala artificiais, via crédito subsidiado.

O êxito desse esforço depende do empenho político, seja da parte do governo, seja do setor privado. Ambos devem colaborar na geração de tecnologias e práticas para reduzir os riscos de contaminação, sempre suscetíveis quando animais de numerosos pequenos criadores convivem em uma única instalação. Enfim, priorizar temas ligados aos aspectos sanitários nas fases de industrialização e distribuição dos produtos.Sabe-se que as tecnologias e práticas para combater os riscos de saúde pública e ambientais não funcionarão, salvo se houver mecanismos regulatórios para seu cumprimento. Um lenitivo pelo menos, pois se não há grande espaço para as políticas estancarem a revolução pecuária, elas pode, contudo, ajudá-la a ser benéfica para o bem-estar das populações, notadamente as de menor renda.

Bibliografia

Delgado, C.; Bosegrant, M.; Steinfeld, H.; Ehui, S. & Livestock, C. 2020: the next food revolution. 2020 vision for food, agriculture, and environment. Washington DC: Internatioonal Food Policy Research Institute, 1999. Discussion paper.

 


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