Trabalhos

Produção orgânica de leite como alternativa para a produção familiar

 Luiz Januário Magalhães Aroeira E-mail: laroeira@cnpgl.embrapa.br
Elizabeth Nogueira Fernandes
E-mail: nogueira@cnpgl.embrapa.br 
Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite
Rua Eugênio do Nascimento, n. 610 – Bairro Dom Bosco, Juiz de Fora, MG- Brasil. 36038-330

Trabalho publicado em 20/12/02

 
 1.  Introdução:

Segundo a FAO (Food Agriculture Organization), órgão da ONU (Organização das Nações Unidas), define-se como agricultura orgânica, a produção holística de um sistema de manejo, que promove e estimula a saúde do agrosistema, incluindo a biodiversidade, ciclos biológicos e a atividade biológica do solo.

O sistema enfatiza ainda, práticas de manejo em preferencia ao uso de insumos externos à propriedade, levando-se em conta à adaptação dos sistemas às condições regionais. Soma-se a esse pressuposto, o uso, sempre que possível, de praticas agronômicas, métodos mecânicos e biológicos, em detrimento do uso de materiais sintéticos para realização das funções de um determinado sistema.

 

 2.  Antecedentes:

A agricultura mundial foi impulsionada significativamente nos anos 60 e 70 com a chamada "Revolução Verde", em que as práticas de mecanização, correção e fertilização do solo, assim como a utilização de agrotóxicos contra pragas e doenças, impulsionaram a produção mundial de alimentos para patamares nunca antes experimentados.

A inserção dos animais aos sistemas agrícolas que, antigamente, era definida pela disponibilidade de alimentos e pelo clima, passou, na produção intensiva, a ser feita a partir do manejo das instalações e o nicho alimentar, substituído pela ração industrialmente formulada  (Kathounian, 1998 e Moura, 2000).

Ainda nos anos 70, reflexos negativos destas práticas, como a erosão e a contaminação de solos e  mananciais começaram a ser notados e, já nos anos 80, práticas menos agressivas ao ambiente passaram a ser experimentadas e adotadas  (Neves, 2001).

A necessidade de se mudar os paradigmas de desenvolvimento foram evidenciados no evento RIO-92 (Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento), na qual ficou reconhecida a importância de se caminhar para a sustentabilidade no desenvolvimento das nações, a partir do comprometimento com a Agenda 21.

Os novos anseios que envolviam a produção de alimentos despertaram o mundo para sistemas de produção mais conservacionistas, e a palavra ecologia ganhou significado especial. Surgem, então, os sistemas alternativos com propostas ambiciosas para a produção de alimentos em harmonia com o meio ambiente. Em comum, todas apresentam forte preocupação com os destinos inseparáveis do homem e do meio ambiente, sendo a agricultura orgânica a mais conhecida desse segmento.

A agricultura orgânica apresenta-se como um mercado inovador, inclusive para o agricultor familiar, em decorrência da baixa dependência por insumos externos, pelo aumento de valor agregado ao produto com conseqüente aumento de renda para o agricultor e por propiciar a conservação dos recursos naturais.

 
 3. Agricultura Familiar

Não existe praticamente consenso quanto à classificação e caracterização da agricultura familiar. Contudo, alguns atributospoderão ser descritos para caracterizar este tipo de exploração. O primeiro seria a relação terra versus trabalho, onde enfatiza que a atividade familiar utiliza basicamente os recursos da terra pelos membros da família e que permanecem no lar para satisfazer as demandasda exploração. O segundo se refere ao acesso limitado aos recursos da terra e capital, onde as áreas dos agricultores se encontram nas faixas baixas de posse da terra e também, predominantemente, em área com recursos naturais degradados ou com menos potencial de cultivo (solo e água). E finalmente o terceiro atributo que se refere à relação de subordinação com os mercados, onde diz que em maior ou menor grau, todos os produtores familiares estão integrados ao mercado através da venda de excedente da produção própria, venda da força de trabalho, compra de artigos de consumo, insumos e bens de capital Cavalcante (2001).

Segundo o autor, (Cavalcante, 2001), atualmente os estudos da agricultura na América Latina, atuam com diferentes concepções teóricas e em geral admitem a agricultura familiar como uma forma permanente de produção, diferente da agricultura empresarial. Para alguns a persistência da forma de produção da agricultura familiar é resíduo tradicional pré-capitalista, condenado a desaparecer com o transcurso da modernização das estruturas econômicas dominantes e com a globalização dos mercados. A agricultura familiar, portanto, convive e interage com as estruturas sócio-econômicas maiores, com tipos de agentes, modificando suas condutas e padrões produtivos e as novas restrições ao potencial que ela representa.

Contudo, é de reconhecimento geral no meio agrícola, a importância da pequena propriedade rural para o desenvolvimento da economia brasileira. É inquestionável que ela atua como geradora de grande número de produtos para o mercado interno e para a exportação. Também é notório que a pequena propriedade rural funciona como um elo de emprego a baixo custo social e como fator de correção das distorções de equilíbrio social.

Segundo estimativas da FAO, em 1995, existiam no Brasil um total de 5.801.809 estabelecimentos familiares. É sugerido também que os estabelecimentos agropecuários com menos de cem hectares, cuja área total corresponde aproximadamente a 23% do total dos estabelecimentos existentes, são responsáveis por uma significativa participação na produção agropecuária do País, sendo: 89% na produção de mandioca, 80% do feijão, 69% do milho, 67% do algodão, 48% da soja, 39% do arroz e 27% da produção do rebanho bovino.

Pelos números apresentados fica evidenciado a importância do pequeno produtor rural no contexto do desenvolvimento sócio-econômico do País. Sendo assim, é plenamente justificável que se adote políticasamplas e permanentes para esta classe de produtor, associada à intensificação de suas organizações, o que aceleraria o seu processo de modernização tecnológica, refletindo diretamente no aumento da produção agropecuária. As políticas voltadas ao pequeno produtor ainda poderiamperfeitamente contribuir para o aumento de renda e melhoria de vida no campo, além de contribuir para a solução de vários graves problemas sociais urbanos.

 

 4. Agricultura Orgânica e Agricultura Familiar

Em função de suas particularidades, como tamanho, diversidade de produção, baixa utilização de insumos, acesso restrito a financiamentos agrícolas, a agricultura familiar é o segmento diretamente beneficiado das tecnologias geradas para a agricultura orgânica. O aumento da renda traz um impacto social direto e imediato em nível de propriedade. A manutenção do produtor na propriedade decorrente do aumento de sua renda traz um impacto social de médio e longo prazo na diminuição de custos de infra-estrutura urbana. A produção orgânica, em geral, demanda maior mão de obra, afetando positivamente a geração de empregos, fixando o homem no campo e, consequentemente, com impacto social importante (Carvalho, 2001).

Além do mais, segundo a Revista Arco (2001), no crescente mercado de produtos orgânicos nacionais (incrementos de 30% ao ano) está inserida a produção dos agricultores familiares, distribuídos em 4, 1 milhões de estabelecimentos em todo o país. Deste total, mais de quatro mil são projetos de assentamento da reforma agrária, onde vivem cerca de 600 mil famílias assentadas pelo Programa Nacional de Reforma Agrária, coordenado pelo Ministério do desenvolvimento Agrário (MDA). Todo agricultor assentado recebe financiamento para se manter e produzir na terra, por meio de programas de reforma agrária  e da agricultura familiar. Os financiamentos, geralmente, são voltados a projetos de produção orgânica, porque oferecem maior garantia de qualidade e rentabilidade e seu processo produtivo não prejudica o ambiente.

A produção orgânica dos agricultores familiares é ainda é pequena, mas ajuda a incrementar o montante exportado pelo Brasil. Os orgânicos brasileiros movimentam U$ 120 milhões por ano. Os maiores importadores são Europa, Japão e estados Unidos. (Revista Arco, 2001).    

Desde 1992, durante 9ª Conferência Técnica Científica da IFOAM (International Federation Organic Agriculture Movement), em São Paulo, que a questão de justiça social vem sendo abordada como necessária à inclusão nos padrões/normas técnicas da agricultura orgânica. Em 1996, um capítulo sobre justiça social foi incorporado aos padrões básicos da IFOAM. Segundo o texto, justiça social significa não violar os direitos dos trabalhadores rurais e dos  pequenos produtores (Fonseca, 2002).

Todas as considerações sociais devem estar envolvidas na agricultura orgânica (os custos sociais da poluição, o maior potencial em gerar empregos etc). Para a Assembléia Geral da IFOAM em 2002, há sugestão de inclusão de 3 padrões mínimos a serem observados nas unidades produtoras orgânicas (liberdade dos operários se associarem em cooperativas, não discriminação entre operários, fornecimento de oportunidades de educação a crianças empregadas pelas unidades orgânicas).

Segundo Fonseca (2000) o objetivo é de desenvolver uma agricultura ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável. As definições surgidas transmitem a visão de um sistema produtivo de alimentos que garanta ao mesmo tempo: (a) a manutenção a longo prazo dos recursos naturais e da produtividade agrícola; (b) o mínimo de impactos adversos ao ambiente; (c) o retorno adequado aos agricultores e trabalhadores rurais; (d) a otimização da produção com  mínimo uso de insumos externos; (e) a satisfação das necessidades humanas, de alimentos e de renda, e atendimento das necessidades das famílias e das comunidades rurais (Almeida et al., 1996). Acrescente-se a isso, os benefícios que a sociedade urbana e o ambiente urbano receberão, direta ou indiretamente (menor migração para a cidade, menores gastos com saúde por acesso a alimentos saudáveis, contribuição para o combate à violência devido à geração de maior número de empregos etc. 

 5. Produção Animal

A produção animal sob sistema orgânico certificado ainda é pouco difundida no País, mas já existem criações de cabras e vacas leiteiras, produção de bovinos de corte, bem como a produção de ovos e mel, embora em pequena escala, sendo a maioria comercializada na venda direta ao consumidor, ou nos canais tradicionais (abatedores, matadouros e frigoríficos), sem a qualificação (selo, prêmio) orgânica (Fonseca, 2000).

O chamado “boi verde” carece de definição mais específica do que seja, pois a produção de carne orgânica deve obedecer a certos critérios bem específicos, estabelecidos por normas. A produção de leite é pequena, sendo mais para consumo próprio, de familiares e vizinhos, na sua forma líquida, ou industrializado artesanalmente como queijo, vendido diretamente em cestas a domicílio ou em feiras específicas. Algumas iniciativas de maiores volumes acontecem no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

Os maiores problemas dizem respeito à produção de forragem e grãos para a alimentação animal face ao pequeno tamanho das propriedades, à escassez de rações orgânicas para suplementar na seca, à baixa fertilidade do solo nas áreas de pastagens, ao pouco uso da prática da adubação verde e ao clima desfavorável em determinada época do ano, em certas regiões que limitam as produtividades de sistemas orgânicos de origem animal, muito comum a quaisquer pequenos sistemas agropecuários convencionais intensivos. O combate às doenças e pragas (ecto e endoparasitas) dos animais vem tendo sucesso com o uso da homeopatia.

As mudanças no nível de produtividade e na genética dos animais preconizadas na revolução verde também foram enormes, contribuindo para o aparecimento de muitas doenças que implicam no uso intensivo de medicamentos e condições artificiais de criação, tornando os animais verdadeiras máquinas de produção. Sofrem primeiro os animais, depois o homem por estar sendo impelido a consumir alimentos de qualidade duvidosa quanto a função de gerar/manter a saúde humana. Os problemas de ordem de segurança alimentar, como o mal da vaca louca, invocam a importância do uso da rastreabilidade como forma de garantir uma qualidade superior ao consumidor.

Os alimentos orgânicos de origem animal são comercializados em pequena escala (feiras, lojas e cestas à domicílio) face às exigências de legislação sanitária para ser industrializado em pequenas plantas, e posteriormente serem colocados num grande canal varejista. As legislações estaduais e municipais vêm facilitando as ações de pequenos agricultores e agroindústrias de pequeno porte, tanto para os alimentos de origem vegetal quanto animal (Fonseca, 2000).

 

 6. Mercado de Leite Orgânico

Na década passada houve um substancial crescimento de produtos orgânicos de origem animal, tal como a carne e o leite, devido a transformações na preferencia do consumidor. De maneira geral, os países em desenvolvimento são os principais produtores, sendo a União Européia e o Estados Unidos os principais importadores. Entretanto, mesmo nos países onde a comercialização de produtos orgânicos vem aumentando de maneira acentuada, sua participação no mercado total de alimentos se situa em 2 a 3%. Neste contexto, de demanda em expansão, a oportunidade se faz presente nos países em desenvolvimento, a despeito de que em alguns casos, haja preferencia do consumidor por produtos local ou regionalmente produzidos. 

Entretanto, apesar de constituir um subnicho do mercado que cresce 30% ao ano no País, o chamado leite orgânico ainda é um produto raro, de insignificante produção entre os 21 bilhões de litros de leite convencional que deverão ser produzidos em 2002 (MITTIMAN, 2002).

Não fossem isoladas iniciativas, poder-se-ia dizer que não existe leite orgânico no Brasil, um a situação bem oposta à dos Estados Unidos, onde o setor movimenta US$ 3,5 bilhões anualmente. A falta de uma regulamentação específica do Ministério da Agricultura para o produto (existe  a Instrução Normativa número 07, mas refere-se indistintamente a todos produtos orgânicos) e o desinteresse das empresas receptoras em processa-lo podem explicar o baixo volume oferecido à população (MITTIMAN, 2002).

Todos perdem com essa situação: o consumidor , que não encontra no mercado o produto saudável que procura e o produtor, que deixa de receber até três vezes mais pelo litro de leite (MITTIMAN, 2002).

 

 7. Produção Orgânica de Leite, um Enfoque da Embrapa Gado de Leite

A Embrapa Gado de Leite, atendendo aos apelos de uma produção sustentável e preocupada com os anseios do consumidor por um produto de qualidade, isento de agrotóxicos e resíduos químicos, sediou um workshop para discussão do tema produção orgânica de leite. Discutiu-se o estado da arte da pecuária orgânica de leite no Brasil, as experiências de produção e as potencialidades do mercado com este tipo de produto. Definiu-se que as principais demandas de pesquisa estão ligadas às áreas de Manejo e Alimentação, Sanidade do Rebanho, Qualidade do Leite e Sócio-economia.

Foi elaborado um Projeto, intitulado: Tecnologias para a produção orgânica de leite, aprovado pelo edital do PRODETAB (Projeto de apoio ao  desenvolvimento de tecnologia agropecuária para o Brasil), para 2001 que contempla a agricultura familiar, apresentando como linha temática os sistemas de produção orgânica de plantas e animais de interesse econômico, em base científica.

Entende-se neste projeto que, a produção atual orgânica de leite necessita de tecnologias que viabilizem a produção de alimentos e os cuidados sanitários do rebanho. Tecnologias que contribuam para o desenvolvimento sustentável do sistema podem agregar valor à produção da agricultura familiar. A pecuária orgânica consiste na exploração de policultivos que estimulam a biodiversidade, sem deixar de lado a produtividade e a rentabilidade para o produtor.

A proposta da Embrapa Gado de Leite é composta de cinco subprojetos, que, com exceção do subprojeto 1, tem suas atividades voltadas para duas macrorregiões (Cerrado e Mata Atlântica), onde estão localizadas as principais bacias leiteiras do País.

Subprojeto 1. Conhecimento do estado da arte da produção orgânica de leite como base para o estabelecimento de programas de  transferência de tecnologia. Este tem por objetivo conhecer as restrições e as potencialidades da cadeia do leite orgânico no Brasil como base para estabelecer programas de transferência de tecnologias direcionados às atuais demandas do setor. Para isso serão levantadas informações junto aos produtores, mercado de insumos, pontos de comercialização e beneficiamento e junto ao consumidor, com a finalidade de se conhecer os manejos adotados nas propriedades de explorações orgânicas, a capacidade de suporte do mercado de insumos, os pontos de estrangulamento das unidades de beneficiamento e de distribuição e o perfil dos consumidores. O conhecimento da realidade existente nas propriedades brasileiras permitirá, além da identificação de prioridades de novas pesquisas, a busca e a disponibilização de soluções para os problemas identificados através de estratégias específicas de transferência de tecnologias de produção. 

Subprojeto 2. Implementação de um sistema silvipastoril (SSP) para a produção orgânica de alimentos para bovinos de leite na Região do Cerrado. Neste, serão enfocadas a interação de espécies arbóreas exóticas (crescimento rápido) e nativas do Cerrado, leguminosas arbustivas e herbáceas em pastagens já estabelecidas de Brachiaria brizantha e a serem estabelecidas com Panicum maximum. Segundo Cantarutti & Boddey (1997), a baixa fertilidade dos solos, entre outros aspectos, é o principal fator limitante da produtividade e sustentabilidade das pastagens tropicais. A baixa disponibilidade de N compromete a manutenção da produção de forragem. Estima-se que, no Cerrado, 24 milhões de hectares de pastagens cultivadas encontram-se em diferentes estádios de degradação (Macedo, 1995).

Os SSP são uma modalidade de agrofloresta que integram na mesma área física árvores, pastagens e animais. Em alguns, o produto principal é proveniente das árvores  (madeira, lenha e frutos), em outros, o produto animal (carne, leite, lã) é prioritário, onde as árvores contribuem, se leguminosas, como fixadoras de N, com sombra e biomassa para o sistema (Carvalho, 2001).

Subprojeto 3. Instalação de um sistema de produção orgânica de leite numa propriedade particular. A Fazenda Salvaterra, localizada a 15 km de Juiz de Fora, tem como principal objetivo a introdução da pecuária de leite na propriedade, associada a sistemas agrícolas e florestais, visando, além da produção orgânica de leite, à produção de esterco necessário ao sistemas agroflorestais, formados de café, diferentes espécies frutíferas e madeiráveis. Pretende-se com isto, buscar um incremento de receita importante para a propriedade, visto que se localiza próxima aos maiores mercados consumidores de produtos orgânicos no país, como o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Subprojeto 4. Tecnologias de suporte à alimentação de um rebanho de produção orgânica de leite, em área de influência da Mata Atlântica. Este tem como objetivo fornecer subsídios para a produção orgânica de forrageiras de média e de alta produção de matéria seca, enfocando o policultivo e a sucessão de culturas. A produção de leite de vacas em pastagens de capim-elefante (Pennisetum purpureum) e em forrageiras do gênero Cynodon, adubados  com nitrogênio, já é bem estudada na Embrapa Gado de Leite (Deresz et al., 1994, e Alvim et al., 1997). As pastagens de gramíneas consorciadas com leguminosas poderão suprir as necessidades de animais, com produção semelhante às obtidas na Embrapa, usando-se monocultivos (Rodriguez & Cuellar, 1993, Murgueitio, 2000, Molina et al 2001). Alternativas de suplementação da dieta de bovinos usando a leguminosa nativa Cratylia argentea na mistura com cana-de-açúcar foram reportadas por Lascano (1995). A  amoreira (Morus alba) tem sido empregada com a mesma finalidade (Benavides, 1994). No período da  seca, espécies de clima temperado podem também fornecer forragens de boa qualidade (Xavier et al., 2000).

Subprojeto 5. Tecnologias de saúde animal adaptadas a sistema de produção orgânica de leite. O subprojeto tem por objetivos avaliar o efeito de produtos naturais no combate ao carrapato e na prevenção e tratamento da mastite dos bovinos.

Para isso, serão testadas alternativas ao controle químico de carrapatos dos bovinos usando-se extrato das folhas do Nim (Azadirachta indica) e nematóides entomopatogênicos (Nematoda: Rhabditida:Steinernematidae e Heterorhabditidae). De acordo com Kocan et al. (1998), os nematóides apresentam efeitos ovicidas, larvicidas e antimuda em determinadas espécies de carrapatos.

O controle da mastite bovina e a cura dos animais infectados constituem um dos maiores problemas enfrentados pela pecuária leiteira (DeGraves & Fetrow, 1993). Será estudada a eficiência da adição de um composto mineral para a alimentação de vacas leiteiras, visando redução da mastite sub-clínica (Araújo Filho, 2000) . Para se avaliar a eficiência do tratamento com produtos alternativos (homeopáticos e de moléculas orgânicas provenientes de extratos vegetais) nas infecções da glândula mamária, serão inoculados experimentalmente animais com Staphylococcus aureus e Escherichia coli. Os resultados obtidos serão comparados aqueles observados com tratamentos convencionais. 

Serão monitoradas a qualidade do leite e a saúde da glândula mamária de rebanhos com produção orgânica e em fase de conversão, em propriedades identificadas no levantamento no Subprojeto 1.

 

 7.1. Objetivos Gerais

a) Fornecer soluções tecnológicas que viabilizem a produção orgânica de leite, enfocando a produção de alimentos e a saúde do rebanho;

b) propiciar a melhoria das condições sócio-econômicas das comunidades rurais, pela oferta de maior diversidade de produtos diferenciados;

d) contribuir para o desenvolvimento sustentável da pecuária leiteira, com o mínimo de impactos negativos ao meio ambiente.    

 

 7.2. Objetivos Específicos

a) Caracterizar a produção orgânica de leite no Brasil, levantando informações junto aos produtores e mercado de consumo;

b) fornecer ao produtor de leite orgânico opções para introdução de árvores e arbustos em pastagens nos ecossistemas da Mata Atlântica e do Cerrado;

c) fornecer opções de diversificação da renda para o agricultor familiar, com explorações, além da produção orgânica de leite, de madeiras, frutas e grãos;

d) disponibilizar alternativas para a suplementação de bovinos leiteiros, durante a época seca, a partir da exploração de policultivos; 

e) incrementar a produção e valor nutritivo de pastagens cultivadas, com o uso de leguminosas fixadoras de N2;

f) desenvolver tratamentos alternativos (biológico e fitoterápico) para o controle do carrapato;

g) fornecer tecnologias alternativas (fitoterápicas e homeopáticas) para a prevenção e tratamento das mastites.

 

 7.3. Resultados e Impactos Esperados

Os produtos esperados consistirão em tecnologias a serem disponibilizadas aos produtores, no que concerne a produção orgânica do leite, a recria de novilhas, as produções de madeira e de grãos para o consumo humano e dos animais e de frutos do Cerrado. Na presente proposta, a madeira, os grãos e os frutos não são o produto prioritário, mas servirão para estimular a biodiversidade dos sistemas e complementar a renda da propriedade, ou serem utilizados na própria fazenda. Os impactos esperados com a produção orgânica do leite nas áreas estudadas por meio de policultivos na propriedade, pela ordem são:

1aumento da renda do produtor com a venda de um produto diferenciado, atualmente alcançando preços de mercado três vezes superior ao pago pelo leite convencional;

2adoção de práticas que contribuam para a exploração sustentável das atividades leiteiras, evitando novos processos de degradação;

3aumento da diversificação da renda do produtor rural, pela venda de madeira, grãos e frutos;

4diminuição da aquisição de insumos externos o que pode a vir diminuir os custos de produção;

5diminuição dos prejuízos econômicos e ambientais resultantes da erosão e queda de barreiras de áreas com cobertura vegetal precária;

6possibilidade de aumentar a geração de empregos, contribuindo para a diminuição do êxodo rural;

7preservação dos recursos naturais.

Espera-se que os resultados a serem obtidos com o projeto poderão ter repercussão em outras regiões do País, e em outras áreas tropicais e subtropicais.

 

 8. Conclusão

Somos obrigados a reconhecer que, nos últimos 50 anos, todos os esforços de pesquisa foram orientados para desenvolver variedades de alto rendimento fortemente dependentes de grandes aportes de insumos e tecnologias orientadas, principalmente para a maximização da produtividade, sem maiores preocupações com os aspectos ecológicos.

Portanto, é de se esperar que um longo caminho esteja por ser percorrido, visando desenvolver tecnologias produtivas orientadas para alta eficiência no uso de insumos e apropriadas para a agricultura e pecuária orgânicas. Faz-se, portanto, cada vez mais necessário propiciar condições para instalação de sistemas de produção que sejam economica­mente viáveis e estáveis, em que a proteção ambiental, o uso eficiente dos recursos naturais e a qualidade de vida do homem estejam contemplados, garantindo a identidade e a qualidade do produto.

 

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