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O
semi-árido brasileiro é marcado pela singularidade de ser a única
região semi-árida tropical do planeta, pela diversidade ecológica
decorrente de seus diversos ambientes naturais, pela persistente situação
de miséria e pobreza da maioria da população, especialmente aquela
que vive nos espaços rurais.
É
uma das maiores regiões semi-áridas do planeta em extensão geográfica
e em população. São 858.000km2, mas o polígono das secas
é estimado em 1.083.790km2. Segundo o Ministério do
Desenvolvimento Agrário - MDA, em 2001, o semi-árido abrigava pouco
mais de 21 milhões de pessoas em 1.031 municípios situados no Norte de
Minas Gerais, nos sertões da Bahia, Paraíba, de Sergipe, Alagoas,
Pernambuco, do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí. Outras fontes
incluem o Norte do Espírito Santo e uma parte do Sudeste do Maranhão
na região semi-árida. As áreas dos Tabuleiros Costeiros do Ceará,
Rio Grande do Norte e parte da Paraíba, embora não sejam consideradas
pertencentes aos domínios do semi-árido. Portanto, longe de se
caracterizar como um espaço homogêneo, o semi-árido pode ser
apresentado como um “grande mosaico”.
Em
termos climáticos, destacam-se as temperaturas médias elevadas e
precipitações médias anuais inferiores a 800mm, extremamente
concentradas, gerando os períodos de chuvas e estiagens. Cerca de 50%
terrenos são de origem cristalina, e os outros 50% são terrenos
sedimentares, sendo os primeiros de baixa capacidade, e os segundos de
alta capacidade de acumulação de águas subterrâneas. A vegetação
predominante é a caatinga, mas são observadas outras formações
florestais nos microclimas existentes na região.
A
ocupação do semi-árido nordestino pelos colonizadores vinculou-se
historicamente à atividade pecuária, base econômica da região por
alguns séculos. O sistema de grandes fazendas, originárias das
sesmarias, é a forma típica de ocupação do território. Formada pelo
“coronel” e seus familiares mais próximos, e contando com as famílias
trabalhadoras vivendo agregadas ao núcleo familiar proprietário das
terras, a fazenda era uma comunidade econômica social marcada por
complexas relações de dominação e compadrio. A criação de gado e a
indústria da charqueada constituíram o apogeu desse sistema. Além
disso, a criação tanto de gado como de caprinos e ovinos estava
voltada para a alimentação da
população local e para o aproveitamento do couro nas necessidades da
fazenda. As famílias trabalhadoras desenvolviam uma pequena agricultura
diversificada composta de cultivos alimentares e de uso doméstico e a
criação de porcos e aves, também voltada para o consumo da população
local. Essas atividades eram praticadas no interior das fazendas de gado
ou nas posses situadas nas terras devolutas. A hegemonia da pecuária
sobre a agricultura expressa-se na lei “cerca quem planta”,
geradora do sistema de roçados cercados para o cultivo agrícola
e da criação solta, ferrada a fogo, com a marca identificadora do
proprietário.
Centrada
inicialmente na pecuária, a expansão da agricultura no semi-árido
deveu-se ao cultivo em larga escala do algodão-mocó, que se integrou
à criação formando o binômio gado/algodão. Os sistemas de produção
incluíam ainda culturas alimentares e outras culturas de expressão
regional como a mamona, o sisal e o extrativismo da carnaúba, da
oiticica e do caju. A florescente agroindústria algodeira e dos demais
produtos cultivados ou extrativistas, mesmo passando por momentos críticos,
foi a base econômica do semi-árido desde a década de 1930, até
meados da década de 1980, quando o sistema praticamente entrou em
colapso, devido a um conjunto de problemas sociais, ambientais, tecnológicos
e comerciais, que não foram solucionados pelo setor produtivo e pelas
instituições públicas atuantes no semi-árido.
A
dinâmica de modernização tecnológica da agricultura nacional
empreendida pelos governos militares foi bastante desigual nas grandes
regiões brasileiras. No semi-árido expressou-se de maneira localizada,
por meio dos projetos de irrigação do Departamento Nacional de Obras
Contra as Secas - DNOCS, na forma de enclaves, não se verificando
disseminação generalizada do pacote tecnológico químico-mecânico,
nem a constituição dos complexos agroindustriais, na proporção
verificada em outras regiões. Isso, entretanto, não significa a
inexistência de profundas transformações no espaço rural do semi-árido.
Essas se deram muito mais pelas transformações nas relações sociais
de produção da região, em especial na relação de parceria entre os
grandes proprietários fundiários e as famílias de agricultores, que
moravam e trabalhavam nas grandes fazendas. A quebra dessa relação de
parceria e, principalmente, da condição de moradia foi uma medida
preventiva do segmento patronal, contra a reivindicação de direitos
trabalhistas e a luta pela reforma agrária, fundamentadas no “bem de
raiz”, proporcionado pelo cultivo do algodão-mocó pelos
parceiros-moradores. Essas medidas geraram uma situação de conflito
social generalizado.
O
Estado militarizado, aliado às oligarquias rurais locais, procurou
controlar essa situação e modernizar a economia do semi-árido,
combinando diversas medidas, destacando-se a repressão à crescente
organização dos trabalhadores rurais, a política assistencialista,
por intermédio do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural - Funrural,
e o generoso financiamento da “pecuarização” e/ou
“reflorestamento”, mediante incentivos fiscais, crédito subsidiado
e trabalho das frentes produtivas nos períodos de seca. Um dos
resultados dessa política foi o “desenraizamento” das famílias
rurais, gerando intenso fluxo migratório para outras regiões do país.
Além
dessas dinâmicas demográficas e territoriais e do enriquecimento ilícito
de muitos, esse processo resultou na montagem de significativa
infra-estrutura produtiva nas grandes propriedades do sertão,
representada pelos açudes, estábulos, silos e cercamento das terras.
Por outro lado, a formação de pastagem nativa e exótica provocou o
desmatamento e o uso de herbicida em proporções mais elevadas. Também
do ponto de vista econômico essa opção configurou-se em fracasso,
comprometendo ainda mais as dinâmicas econômicas locais já
ressentidas da progressiva desestruturação da agroindústria algodeira
e dos produtos regionais e extrativistas.
Outro
resultado observado foi a desarticulação entre as dinâmicas dos
demais espaços agrários subsidiários e a hegemônica dinâmica pecuária/algodeira
do sertão. Nas serras e agrestes, constituíram-se pólos
hortifrutigrangeiros orientados para o abastecimento das grandes cidades
e pólos alcooleiros. Na região subcosteira foram formados pólos de
produção de caju, coco e cana para a produção de álcool, além
daqueles dedicados à avicultura e à pecuária leiteira, possibilitando
o direcionamento da economia dessas regiões para as grandes cidades e
para o mercado externo.
No
bojo do processo de redemocratização da década de 1980 e da fase
neoliberal da década de 1990, aprofundam-se no semi-árido a diferenciação
e a desarticulação interna entre os enclaves de agricultura irrigada e
os amplos territórios de predomínio da agricultura de sequeiro.
Ampliando-se o foco sobre o cenário, podem-se observar a progressiva
decadência produtiva e econômica dos perímetros irrigados, resultado
do esgotamento do padrão tecnológico, organizativo e gerencial adotado
pelo DNOCS, e o dinamismo econômico dos novos pólos de desenvolvimento
da agricultura irrigado, centrados na fruticultura de exportação,
mediados por poderosos grupos empresariais, com integração dos
agricultores de menor porte e com forte apoio estatal. Esses pólos,
entretanto, reproduzem os processos de degradação ambiental, de
exploração da força de trabalho integrada e de exclusão socio-econômica
de parcelas significativas da população local, observados nas áreas
mais antigas.
Por
outro lado, nos territórios de predomínio da agricultura de sequeiro,
três dinâmicas podem ser identificadas: a dos sertões, a dos agrestes
e serras e a da região subcosteira. Nesta última observa-se a
crescente queda de produtividade da cajucultura e dos coqueirais, com
incidência crescente de pragas e doenças. Nos agrestes e serras, a
degradação dos solos e a contaminação por agrotóxicos são os
problemas mais relevantes. É no sertão, entretanto, que residem os
maiores desafios, pois a desestruturação socioprodutiva descrita ainda
não foi superada, em decorrência dos fracos resultados em termos da
revitalização da cultura do algodão e dos produtos regionais e
extrativistas, bem como do insuficiente desenvolvimento e difusão de
alternativas de renda. Essa difícil situação geral, entretanto, é
pontuada por numerosas situações localizadas que se diferenciam pela
emergência de processos de reestruturação produtiva, por meio da
incorporação da agricultura irrigada de pequena escala aos sistemas
existentes, bem como pela própria modernização de atividades
tradicionais, em especial da ovinocaprinocultura e da bovinocultura
leiteira.
Esse
complexo quadro de ocupação do território do semi-árido também
gerou grande diferenciação nos empreendimento agrícolas da região.
Convivem nos mesmos espaços empresas agrícolas modernizadas, empresas
tradicionais pouco tecnificadas, latifúndios improdutivos, agricultores
familiares modernizados e tradicionais. Estes dois últimos comportam
formas variadas de acesso à terra, que definem diversas categorias
sociais. No geral, a pressão da agricultura familiar sobre a terra é
cada vez maior e combina-se com o empobrecimento generalizado,
provocando fluxos migratórios, principalmente nos anos de ocorrência
de seca.
Desde
a ocupação inicial até as dinâmicas mais recentes, vêm-se
acumulando impactos socioambientais negativos no semi-árido. Os mais
amplos são, sem dúvida, a degradação da vegetação e dos solos,
observando-se crescente processo de desertificação em diversas regiões.
Segundo o Instituto Desert, esse processo vem comprometendo de forma
“muito grave” uma área de 98.595 km2 e de forma
“grave” 81.870km2, totalizando 181.000km2. Nas
áreas de agricultura irrigada, os problemas de contaminação por agrotóxicos
e salinização das terras são os mais relevantes. As grandes barragens
geraram impactos muito fortes sobre o ambiente e as populações locais,
que pouco se beneficiaram dos altos investimentos realizados pelo
Estado. De modo geral, prevaleceu a chamada “solução hidráulica”
e não se desenvolveu a cultura de convivência com o semi-árido. As
linhas mestras do modelo de desenvolvimento concentrador e excludente,
historicamente estabelecidas, continuam vigorando, sendo determinantes
na configuração do quadro de miséria e pobreza vigente no semi-árido
brasileiro.
A
TRANSIÇÃO PARA A AGROECOLOGIA
Nesse
contexto geral, a agroecologia tem servido de base para a construção
de uma cultura de convivência no semi-árido, possibilitando o
renascimento e o rejuvenescimento de vertentes de conhecimento e de
proposições tecnológicas, que tinham sido ceifadas pela concepção
químico-mecânica, estabelecidas em universidades, centros de pesquisa,
instituições de créditos e empresas de assistência técnica e extensão
rural.
As
dinâmicas de promoção da agroecologia originam-se das iniciativas de
estudantes e profissionais da área agronômica e ambiental que
recuperam os postulados de Guimarães Duque, Vasconcelos Sobrinho e
outros estudiosos e entusiastas do semi-árido e da região nordestina
em geral. A agroecologia permite revisitar e atualizar essa linha de
pensamento, desenvolvendo-a na perspectiva da construção de uma
cultura de convivência com o semi-árido, fundamentada na interação
entre os conhecimento e as técnicas geradas pela vivência da população
local com seu meio e aqueles originários dos processos de pesquisa
científica da atualidade.
A
partir de meados da década de 1980 essas iniciativas das organizações
não-governamentais - ONGs no campo da tecnologia alternativa começam a
articular-se com as organizações dos trabalhadores rurais e com as
estruturas de base das igrejas, gerando um movimento crescente, voltado
para a construção de um novo modelo de desenvolvimento agrícola para
o semi-árido. Esse trabalho desenvolve-se por meio da estruturação de
centro e de redes de tecnologia alternativa, construindo-se pontos de
contato com as universidades e outras instituições de pesquisa e
extensão rural. A estratégia seguinte orienta-se para a ação local,
em municípios selecionados, tendo como base a metodologia do diagnóstico
rápido e participativo dos agroecossistemas e de elaboração de planos
de desenvolvimento agroecológicos para comunidades rurais, em algumas
situações com abrangência municipal. Esses trabalhos envolvem um
significativo conjunto de temas técnicos, tendo alguns deles passado a
ser o elemento de constituição de redes temáticas, com destaque para
as sementes, a apicultura e a água. Essas ações evoluíram e se
disseminaram para muitas áreas do semi-árido, constituindo-se em
estratégias de ação que podem ser assim classificadas:
A
primeira delas pode ser caracterizada como Ação de Pesquisa,
Desenvolvimento e Difusão Ampla de uma Tecnologia Específica.
Iniciou-se com o desenvolvimento de uma tecnologia específica, de amplo
alcance, de fácil reprodução e adaptação, que responde a uma
necessidade fundamental da população. A referência dessa estratégia
é o trabalho em torno da cisterna de placas, que começou com a
sistematização da experiência de um pedreiro, passou pela adaptação
e melhoramento do método de construção e pelo desenvolvimento da
metodologia de treinamento e de financiamento pelas ONGs, sendo incluído
em programas de ação de prefeituras e estados, e chegando até a
formaulação atual do Programa de Formação e Mobilização Social
para a Convivência com o Semi-Árido - Um Milhão de Cisternas - P1CM.
Essa estratégia ampliada só foi possível devido à simultânea
estruturação da Articulação do Semi-Árido - ASA, que atualmente
envolve 613 diferentes organizações da sociedade civil.
A
segunda estratégia que pode ser identificada é a Ação de Pesquisa,
Desenvolvimento e Difusão Local de uma Base Tecnológica Agroecológica.
Diversas entidades situadas no semi-árido adotam essa estratégia, de
forma mais ou menos elaborada. Normalmente há significativo
investimento no desenvolvimento de tecnologias agroecológicas, com
formação de grupos de interesse e difusão em escala local.
Trabalha-se com a complexidade dos sistemas de produção,local,
vinculando-se às organizações dos agricultores familiares.
Trabalhando
ou não com agroecologia, a Ação de Resgate, Valorização,
Fortalecimento e Inclusão de Segmentos e Grupos Sociais é outra estratégia
presente nas intervenções no semi-árido, principalmente em relação
a mulheres e jovens. Ações de natureza educacional, artística,
cultural, de geração de trabalho e renda, de apoio jurídico, etc,
caracterizam as organizações desse campo. Também não direcionada
especificamente para a transição agroecológica, verifica-se estratégia
focada na Ação de Fortalecimento da Cidadania e Democratização das
Políticas Públicas, que tem na capacitação das lideranças populares
para a gestão social do desenvolvimento local um de seus principais
focos de trabalho. Quando essa estratégia aponta para a discussão da
Agenda 21, abre-se um grande campo para o debate do modelo agrícola e
da necessidade de uma agricultura sustentável.
Nesse
mesmo sentido, apresenta-se a estratégia de Desenvolvimento Local, que
tanto pode ser uma iniciativa das organizações populares, das ONGs ou
de instituições públicas estatais. São exemplos desse trabalho o
Programa de Desenvolvimento Local Sustentável - PDLS do movimento
sindical, as ONGs participantes do Rede Desenvolvimento Local Integrado
e Sustentável - Dfis, os programas públicos desenvolvidos por instituições
como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES,
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD, Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - Sebrae, Banco do
Nordeste, Conselho da Comunidade Solidária, etc. Aqui, a transição
agroecológica, normalmente via agricultura orgânica, também começa a
ganhar algum espaço, principalmente pela discussão da Agenda 21.
Além
dessas estratégias mais gerais têm-se dinâmicas específicas que estão
contribuindo significativamente para o avanço da agroecologia. A
constituição de associações de consumidores e produtores orgânicos,
visando ao planejamento da produção e à comercialização direta tem
sido um caminho bastante promissor. Associações de produtores orgânicos
voltados para a venda em feiras agroecológicas ou mesmo para redes de
supermercados têm mostrado a viabilidade técnica e econômica da
proposta, reforçando a transição agroecológica no semi-árido.
Algumas poucas grandes empresas rurais também começam a investir na
produção orgânica, a exemplo do caju, mostrando que a agricultura
familiar não é a única interessada nesse assunto.
Em
síntese, pode-se concluir que, de forma semelhante ao que ocorre em
outras regiões do Brasil, no semi-árido também estão se constituindo
diversas dinâmicas de promoção da agroecologia, com vários atores
envolvidos. De modo geral, elas ainda são incipientes, restritas e
pouco articuladas, sendo necessário um grande esforço de integração,
expansão e consolidação, para que se possa avançar na transição
agroecológica no semi-árido brasileiro.
As
dinâmicas de promoção da agroecologia no semi-árido estão
referenciadas no conjunto das experiências que podem ser analisadas a
partir de grandes temas e questões, identificando-se em cada um dos acúmulos
e os pontos de estrangulamento, de modo a se ter um painel do nível de
construção da proposta agroecológica no semi-árido. Esse esforço de
análise é apresentado a seguir.
O
acesso à terra continua sendo ponto de estrangulamento para milhares de
famílias de agricultores do semi-árido. De modo geral, duas situações
bem diferenciadas podem ser observadas. Nas áreas sertanejas e
subcosteiras, a presença das grandes propriedades, passíveis de
desapropriação, aponta para a necessidade de ampliação do número de
assentamentos federais, capaz de absorver parcela significativa dos
“sem terra” dessas regiões. Por outro lado, nas unidades
geoambientais dos agrestes e serras, a resolução da questão fundiária
passa por outros mecanismos, tais como a reorganização e o crédito
fundiários. Embora muito aquém das necessidades, a política de
assentamento do governo federal e de alguns governos estaduais vem
criando uma realidade diferenciada para um conjunto de famílias rurais,
e em alguns municípios e microrregiões do semi-árido, as transformações
na estrutura fundiária são relevantes. Entretanto, um pouco
extremamente preocupante é a recorrente dificuldade de os assentamento
situados no semi-árido viabilizarem-se produtiva e economicamente,
observando-se níveis de pobreza semelhantes aos da situação rural das
áreas em que estão inseridos. Vale ressaltar que um número
significativo desses assentamentos dispõe de infra-estrutura básica,
teve acesso aos créditos da reforma agrária para a estruturação das
atividades produtivas, e alguns também foram beneficiados com programas
de alfabetização e de assistência técnica, embora com as
descontinuidades típicas das ações governamentais nesse campo.
No
semi-árido o recurso natural crítico é a água. Seu uso indevido na
agricultura irrigada, a precariedade do gerenciamento e a poluição das
fontes de armazenamento são problemas crescentes ainda pouco
trabalhados. A degradação dos recursos vegetais e do solo é um forte
impacto ambiental negativo dos sistemas de produção “tradicionais”
e “modernizados” existentes no semi-árido nordestino. Em algumas áreas
essa degradação está evoluindo para a desertificação, com risco do
comprometimento definitivo da sustentabilidade da agricultura. A
gravidade da situação e as respostas positivas que os sistemas
agroecológicos de produção vêm apresentando criam ambiente favorável
para a difusão ampliada das soluções.
O
desafio de conhecer a singularidade e a diversidade do trópico semi-árido
requer significativo investimento em pesquisa, o que esta muito longe do
que se tem atualmente. A condição de região com índices de
desenvolvimento muito abaixo da média nacional e o pouco investimento
na produção de conhecimento sobre a realidade regional são fatores
que se alimentam mutuamente, reforçando o círculo vicioso de pouca
pesquisa, baixo desenvolvimento e vice-versa. Essa situação geral da
pesquisa na região agrava-se quando se analisa a base científica para
a transição agroecológica no semi-árido. Entretanto, nesse campo
específico, os esforços das ONGs, articulados com as organizações
dos agricultores familiares e com a colaboração de alguns poucos
pesquisadores das instituições públicas, possibilitaram a geração
de um conjunto mínimo de técnicas, capaz de responder aos problemas básicos
dos sistemas de produção da maioria dos agricultores familiares do
semi-árido. Nesse sentido destacam-se as técnicas de recuperação e
conservação dos solos; a captação, o armazenamento e a utilização
da água na propriedade, o manejo da vegetação, em especial da
caatinga, mediante os sistemas agropastoris, silvopastoris ou
agrossilvopastoris, a criação de bovinos, ovinos, caprinos, suínos e
aves caipiras, a agroindustrialização familiar ou comunitária de
diversos produtos e muitas outras tecnologias apropriadas às condições
da agricultura familiar no semi-árido. O principal ponto de
estrangulamento está na insuficiência e na ineficiência do sistema público
estatal de assistência técnica e extensão rural, bem como em sua
fragilidade e insuficiente articulação, com as instituições de
pesquisa e com o setor público não estatal formado por ONGs,
cooperativas de trabalho e empresa prestadoras de serviços. Este último
setor, por sua vez, articula-se em redes diversas, mas não conseguiu
estabelecer-se como um sistema organicamente estruturado, e seu
funcionamento dependente, por um lado, dos recursos da cooperação
internacional e, por outro, dos programas governamentais, havendo raríssimos
mecanismos de auto-sustentação em prática. Mesmo sujeito a esses
condicionantes, o setor tem desempenhado um importante papel na geração
do conhecimento a esses condicionantes, o setor tem desempenhado um
importante papel na geração do conhecimento agroecológico no semi-árido
e tem sido o maior responsável por sua difusão junto aos agricultores
familiares.
A
dimensão econômica tem-se configurado num dos principais pontos críticos
do processo de transição agroecológico no semi-árido. Submetidos à
condição de miséria, pobreza ou descapitalização, cujas causas já
foram expostas, os agricultores familiares e as organizações atuantes
no semi-árido enfrentam o grande desafio de conciliar os investimentos
necessários à recuperação dos recursos naturais e o manejo agroecológico
de sus sistemas de produção, com a geração de produtos para o
autoconsumo e de uma renda mínima, capaz de viabilizar o consumo dos
demais itens que compõem a cesta familiar de produtos e serviços - o
que vem sendo feito de forma bastante coerente e conseqüente por
agricultores familiares, suas organizações representativas e pelas
entidades de apoio. O ponto de partida é o trabalho em torno do tema
segurança alimentar, que se dá por meio das casas de sementes, da
diversificação dos roçados e quintais, das cisternas de placa, das
pequenas barragens subterrâneas, das cacimbões, dos
barreiros-trincheiro, das hortas, dos pomares, da apicultura e da criação
de pequenos animais.
No
semi-árido a prioridade econômica da maioria dos agricultores
familiares é a regularidade da produção de alimentos nas condições
de alta irregularidade do regime de chuvas. Isso pode ser obtido com
pequenos investimento financeiros orientados fundamentalmente para a
capacitação e o acompanhamento sistemático de todos os que formam o núcleo
familiar e para as pequenas obras de infra-estrutura produtiva e
reprodutiva, voltadas para a melhoria da qualidade de vida da família.
Essa estratégia básica, incluindo as melhores formas de financiamento,
está técnica e metodologicamnete muito bem elaborada, testada e
implementada em diversas situações agrossocioambientais do semi-árido
e pode ser considerado o maior patrimônio do conjunto das organizações
envolvidas nesses trabalhos.
Essa
forte perspectiva de autoconsumo presente em parcelas significativas da
agricultura familiar não está dissociada de uma perspectiva mercantil,
que vai desde a venda parcial da própria força de trabalho, realizada
pelos segmentos mais empobrecidos, até a inserção no mercado
internacional, a exemplos de alguns grupos de produtores de frutas
frescas e castanha-de-caju. Considerando as diversas formas de inserção
no mercado, viabilizadoras da renda monetária bruta dos agricultores
familiares, pode-se observar que o conjunto diversificado de produtos
trabalhados nos processos de transição agroecológica traz mais
oportunidades de comercialização, e certos produtos passam a ser uma
“atividade de renda” em função dos volumes de produção alcançados.
analisando um pouco mais detalhadamente esse aspecto econômico, podem
se observa dinâmicas distintas. Uma primeira diz respeito à revitalização
de atividades tradicionais de mercado, como o algodão, o sisal, a
castanha-de-caju, a cera de carnaúba, o artesanato e o próprio café.
Outras podem ser consideradas atividades tradicionais em processo de
mercantilização ampliada, como é o caso do mel, dos ovinos e caprinos
e de frutas regionais, cajá, cajarana, umbu, goiaba, graviola e ata,
por exemplo. Uma terceira dinâmica está mais relacionada a produtos de
introdução mais recente, como as hortaliças e algumas frutas, entre
elas o melão , o abacaxi, a acerola e a uva. Por fim, existem produtos
em fase de introdução na região, a exemplo do nim e do carmim de
cochonilha, que formam mercados especiais.
Em
todas essas atividades existem agricultores e entidades de apoio
trabalhando em processos de transição para a agroecologia, a maioria
com bons resultados produtivos e até com certificação orgânica.
Entretanto alguns produtos a exemplo do algodão e do mel, apresentam
significativos estrangulamentos comerciais, resultado de dificuldades de
venda em pequena escala ou do escolamento da produção mais elevada e
de preços não compensadores. Em outras situações o mercado é franco
comprador dos produtos orgânicos, mas a transição agroecológica está
restrita a um pequeno número de agricultores, com taxa de expansão
muito lenta; é o caso do castanha-de-caju. Observam-se também casos de
integração de produtores de hortaliças orgânicas a redes de
supermercados. Por outro lado, agricultores produzindo “novos produtos
de mercado”, como a semente de nim e carmim de cochonilha, têm
aproveitado esse diferencial tecnológico para faturar renda expressiva
com pouco trabalho. A venda de cestas, padronizadas e a venda direta
para consumidores cadastrados ou para a vizinhança, bem como as
feiras de produtos da agricultura familiar e/ou de produtos agroecológicos,
são estratégias comerciais em processo de expansão nas grandes e
pequenas cidades do semi-árido, mostrando a importância dos mercados
locais, principalmente para os produtos alimentícios e medicinais. Em
muitos casos, o diferencial de renda é decorrente do máximo
aproveitamento de todos os produtos de origem vegetal e animal, por meio
da agroindustrialização descentralizada. Em algumas situações,
estruturas mais centralizadas, combinadas ou não com estruturas
descentralizadas, têm propiciado o melhor paroveitamento da produção
e a comercialização mais vantajosa, especialmente quando se trata de
exportação.
Em
síntese, podemos concluir que, do ponto de vista econômico, sob a lógica
de combinação de autoconsumo e mercantilização, característica da
maioria dos tipos de agricultura familiar do semi-árido, a transição
agroecológica tem conseguido demonstrar sua viabilidade, principalmente
no campo da segurança alimentar, registrando também avanços nos
aspectos comerciais, proporcionando incrementos na renda monetária das
unidades produtivas. Observam-se entretanto muitas deficiências e
insuficiências nos
aspectos de organização da produção e da comercialziação. Isso
sugere que os investimentos das organizações dos agricultores e das
entidades de apoio nesse campo são fundamentais em termos do
viabilidade econômica da transição agroecológica em escala mais
ampla no semi-árido.
No
início da discussão sobre a transição agroecológica no semi-árido,
a disputa no campo ideológico era marcada pela tentativa de
desqualificação dos agricultores e profissionais envolvidos no
trabalho, mediante sua classificação como utópicos, românticos,
atrasados ou malucos. A crescente crise dos padrões tradicional e
convencional, e os resultados positivos alcançados pela agroecologia no
semi-árido, no contexto da ampliação da consciência ambiental
do conjunto da população, vêm propiciando inversão de valores
expressa na valorização e na demanda crescente de produtos naturais.
Essa mudança de tendência ocorre de forma mais generalizada e
consistente nas populações urbanas de maior renda e escolaridade e em
meia às pessoas participantes de organizações sociais de diversos
tipos. Entretanto, esse reconhecimento da importância do meio ambiente
e dos produtos naturais ainda não está diretamente relacionado com o
papel potencial da agricultura familiar do semi-árido na sociedade.
Devido à condição de miséria e pobreza da maioria da população
rural do semi-árido, ainda predomina na população urbana a visão
estigmatizada desse segmento social. Também é comum a autovisão
negativa por parte dos agricultores familiares, principalmente em meio
à população mais jovem. Desse modo, os esforços recentes de valorização
da agricultura familiar empreendidos pelas organizações de representação
e entidades de apoio são fundamentais. Os resultados iniciais, ainda
numericamente pouco expressivos, são de grande importância para a
construção da cidadania no campo.
Nesse
contexto, o trabalho mais relevante tem sido empreendido pelas mulheres
trabalhadoras rurais. A construção de suas identidades a partir da
reflexão das relações de gênero na unidade familiar, em suas
organizações e na sociedade tem avançado de maneira ampla e
consistente, reconhecendo-se, entretanto o longo caminho a se percorrer.
A ação mais recente, mas ainda menos estruturada, está sendo
desenvolvida junto à juventude rural. Nesse caso tem-se o duplo desafio
de sensibilizar seus membros para a valorização de sua condição de
jovem agricultor(a) e, ao mesmo tempo, criar as condições de trabalho
e renda capazes de garantir sua permanência no campo. Observa-se também
um incipiente trabalho relacionado às questões étnicas no conjunto da
agricultura familiar do semi-árido. A auto-identificação de
comunidades indígenas e negras, o resgate de suas identidades, o
reconhecimento de seus direitos pela sociedade e pelo Estado são passos
importantes na valorização da diversidade da população que vive e
trabalha no semi-árido brasileiro.
A
análise dos avanços e dos pontos de estrangulamento da dimensão político-organizativa
na construção da transição agroecológica passa inicialmente pela
identificação dos principais atores interessados em um novo modelo de
desenvolvimento rural, para o Brasil e para o semi-árido em particular.
Nesse sentido, considera-se a seguinte base organizativa: movimento
sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, movimento dos sem
terra, movimento associativo e cooperativo, ONGs, instituições
vinculadas às igrejas e partidos políticos progressistas. Parte-se
também da idéia de que a transformação da consciência social
agroecológica em força política depende do nível de organização do
“bloco agroecológico” no interior desse conjunto. De início vale
observar que possivelmente nessa dimensão residem as maiores
fragilidades, para a transição agroecológica no semi-árido. Esta síntese
está relacionada com a análise de cada segmento, conforme se segue.
Do
ponto de vista quantitativo e territorial, o Movimento Sindical dos
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais - MSTTR é sem dúvida a estrutura
organizativa mais forte no semi-árido. Entretanto, sua estratégia
central, a construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável - PADRS, de âmbito nacional, implementada pelas ações de
massa, como o Grito da Terra Brasil e a Marcha das Margaridas e por ações
mais permanentes por meio do PDLS, não tem a agroecologia como
refer6encia teórica para sua construção. Diversos sindicatos e
algumas regionais, pólos sindicais e federações, contudo, já
incorporaram, em graus variados, a agroecologia e a conviv6encia com o
semi-árido como elementos centrais na construção do PADRS. Ainda no
campo sindical, vale ressaltar que a entrada da Central Única dos
Trabalhadores - CUT, por intermédio da Agência de Desenvolvimento
Solidário - ADS, no debate e na construção de um novo modelo de
desenvolvimento, mesmo sem vinculação direta com a agroecologia, é um
elemento favorável para o trabalho desse tema no semi-árido.
Outro
importante atos nacional atuante no semi-árido é o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST. Até pouco tempo atrás, essa
organização não poderia ser relacionada no campo da agroecologia, mas
parece estar havendo um redirecionamento em função de questões mais
gerais. No semi-árido, a tentativa inicial de modernização tecnológica
quimico-mecânica dos assentamentos mediante projetos de financiamento,
aliada à organização coletivista da produção, mostrou-se bastante
inadequada. Não foi possível obter informações confiáveis sobre até
que ponto a agroecologia e a convivência no semi-árido têm sido
trabalhadas pelo MST para reverter essas dificuldades. De modo geral,
poucos assentamentos localizados no semi-árido, vinculados ao MST e/ou
ao MSTTR, têm conseguido avançar nas dimensões produtivas, ambiental
e comercial, o que gerou a formulação de uma ação específica do
governo federal, o Projeto Dom Helder Câmara, que aponta a agroecologia
como base técnica para o semi-árido.
A
transição agroecológica nessa região vai exigir uma organização de
base muito ampla, representada pelas associações comunitárias e de
produtores. Também não foi possível trabalhar com informações
seguras nesse campo, mas é corrente a análise apontando a vinculação
e a dependência da maioria
dessas organizações aos programas governamentais, desde sua criação.
Por outro lado, são muitas as organizações desse tipo que dão
suporte ao trabalho com agroecologia junto às famílias dos
agricultores familiares, e sem dúvida elas t6em desempenhado papel
fundamental na expansão da agroecologia no semi-árido. Um dos pontos
de estrangulamento desse trabalho é a relativa dispersão e desarticulação
entre essas formas organizativas e o MSTTR. Além do movimento
associativista, deve-se também considerar o cooperativista, que no
geral, tem histórico bastante negativista, ainda que exista uma dinâmica
de renovação, com criação de novas e pequenas cooperativas de
agricultores familiares, incluindo algumas de crédito. A interiorização
da agroecologia nessas estruturas organizativas pode ser observada,
sendo necessário avançar nesse campo, até para viabilizar o crédito
para a transição agroecológica. Analisando-se o papel das ONGs e da
estrutura das igrejas em termos políticos-organizativos, pode-se
observar a importância da articulação entre esses dois atores na
constituição da ASA e na implementação do P1MC, o que pode resultar
numa forte organização mais permanente, abrangendo todo o semi-árido.
Em relação aos partidos políticos progressistas, tem-se ainda um
distanciamento em relação ao que está sendo construído, embora
exista certa valorização dessa experiência. Em alguns temas, como a
transposição de bacias, há sinais de posicionamentos diferenciados
entre os partidos e as demais organizações atuantes na questão dos
recursos hídricos.
A
transformação das diversas experiências agroecológicas em políticas
públicas para a agricultura familiar tem sido uma batalha constante de
todas as organizações da sociedade civil atuantes no semi-árido. Do
ponto de vista mais geral, as ações relacionadas com captação,
armazenamento e uso da água, em especial a cisterna de placas, têm
sensibilizado os gestores públicos em todos os níveis administrativos,
resultando em parcerias efetivas para a elaboração e implementação
de programas com recursos públicos.
As
propostas de transformação dos sistemas produtivos têm apresentado
mais dificuldades, mas algumas delas, como a apicultura, as casas de
sementes, o manejo da caatinga e a criação de ovinos e caprinos e de
aves, o algodão orgânico, o processamento da produção, etc., também
têm sido incorporadas por um pequeno número de prefeituras e programas
de financiamento, a exemplo do Programa de Financiamento à Conservação
e Controle do Meio Ambiente do Banco do Nordeste - FNE Verde. Propostas
mais ousadas, como a agroflorestação, ainda estão restritas às dinâmicas
da própria sociedade civil. Os serviços de assistência técnica para
a transição agroecológica e de apoio à comercialização também têm
sido objeto de poucas iniciativas em termos de políticas públicas. Se
no geral os avanços foram poucos, alguns bons resultados nas ações
específicas v6em sendo alcançados, o que permite construir um banco de
idéias e projetos para a expansão das políticas públicas baseadas na
agroecologia.
Apontar
tendências, a partir de um conjunto de experiências pontuais
parcialmente conectadas, é certamente uma temeridade, mas a importância
e a pertinência do debate justificam os riscos dessa empreitada com
sabor de futurologia. O desafio consiste em fazer uma prospecção sobre
para qual padrão de organização técnica, fundiária e socioeconômica
tende esse conjunto de experiências em desenvolvimento no semi-árido.
Considerando
as imensas desigualdades existentes na atualidade, de modo geral, a tendência
para o semi-árido é a de coexistência, por um largo tempo, de quatro
padrões tecnológicos: o tradicional, o químico-mecânico, o biotecnológico/transgênico
e o agroecológico.
A
falta de perspectiva de futuro para quem adota o padrão tradicional e
as dificuldades de estabelecimento do padrão químico-mecânico na
complexa realidade socioambiental do semi-árido sinalizam que esses
dois padrões tendem ao declínio progressivo, estando a velocidade e a
orientação dessa mudanças relacionadas com a capacidade de ação do
“bloco agroecológico”. Considerando os processos desencadeados por
esse bloco, expressos nos resultados positivos das referências agroecológicas
já estabelecidas e no crescente envolvimento das organizações
sindicais, associativas e cooperativas e das entidades de apoio com a
difusão dessas experiências, pode-se conjecturar que o padrão
agroecológico, articulado a uma mecanização mais criteriosa, será a
base tecnológica de um significativo contingente da agricultura
familiar e possivelmente de parcela da própria agricultura patronal.
Quanto
ao padrão fundiário que está sendo construído, considerando os avanços
e percalços da reforma agrária no semi-árido até o momento, podem-se
antever as seguintes tendências: diminuição do número de unidades
familiares entre um e quatro módulos fiscais de cada região e expansão
do número de propriedades abaixo de um módulo fiscal, pois a subdivisão
por herança é um processo de difícil estancamento nas próximas décadas.
Mesclados a essa pequenas unidades familiares, os assentamentos de maior
porte, originários da desapropriação das grandes fazendas pelo
governo federal, devem ter seu número aumentado, principalmente nas áreas
sertanejas mais secas. Além disso, pode-se antever um significativo
incremento de assentamentos de menor porte, viabilizados por programas
estaduais de reforma agrária e de crédito fundiário. Eles permitirão
o acesso à terra aos atuais sem terra, moradores em regiões, que dispõem
de poucas áreas passíveis de desapropriação. Vale lembrar que muitos
deles são integrantes das várias associações comunitárias
existentes, fruto do crescente processo de organização social da
população rural, com todas as dificuldades e distorções observadas.
Registre-se também que parte da população urbana dos numerosos
pequenos municípios espalhados pelo semi-árido, ainda vinculado às
atividades agrícolas, será beneficiária desse processo e também
deverá estar inserida na estrutura fundiária de forma mais segura,
superando a precariedade atual em termos de posse e uso da terra. Em síntese,
a tendência geral de democratização do acesso à terra deve
consolidar-se, podendo o ritmo e a velocidade do processo acelerarem-se,
em função do perfil dos próximos governantes.
Analisando
os aspectos socioeconômicos que estão sendo gestados pelas experiências
do bloco da agricultura sustentável, podem-se perceber dois caminhos.
Um deles está apostando na difusão desse padrão tecnológico para
todas as formas de organização socioeconômicas, sem distinção entre
agricultura patronal e agricultura familiar. O outro caminho,
referenciado no desenvolvimento rural solidário e sustentável, aponta
para a articulação entre agricultura familiar, agroecologia e
socioeconomia solidária como base para a convivência no semi-árido.
Seguindo os passos do poeta, é nesse segundo caminho, construído no próprio
caminhar, que residem as esperanças de construção de um novo padrão
de organização social e técnica da agricultura do semi-árido.
Caminhemos.
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