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Harmonização
e Equivalência no Comércio Mundial de
Produtos Orgânicos
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FAO,
IFOAM e UNCTAD juntam forças para estabelecer diálogo entre as
instituições como forma de facilitar o comércio internacional desses
produtos.
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09/04/2003
Maria Cristina Prata Neves
Chefe Geral, Embrapa Agrobiologia
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Com o
aumento da importância do mercado de produtos orgânicos tem havido por
parte dos governos uma preocupação em regulamentar seus mercado para a
comercialização desses produtos. Muitas vezes a regulamentação
atende à demanda dos próprios produtores que solicitam proteção
institucional contra práticas fraudulentas.
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Os países
membros da União Européia foram os primeiros a publicar um conjunto de
diretrizes. Em 1991, foi publicada a Council
Regulation (EEC) 2092/91 que, desde então, vem sofrendo inúmeras
emendas. Inicialmente, cobria apenas a produção vegetal, mas, desde o
ano 2000, inclui normas para a produção animal. A regulamentação
européia fornece padrões de produção e medidas de inspeção que
devem ser implementados para assegurar a integridade do produto. Lista
os insumos que podem ser usados e identifica as práticas de produção
que são recomendáveis ou proibidas.
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A
regulamentação da agricultura orgânica pela UE causou grande impacto no
mercado mundial de orgânicos, pois a Europa é grande importadora. Muitos
produtores de países exportadores, como por exemplo, o Brasil, tiveram
que se adequar a essa regulamentação de modo a garantir sua participação
nesse mercado. Alguns países perceberam a oportunidade que teriam ao
regulamentar seus mercados de produtos orgânicos e assim se beneficiar de
facilidades na exportação de produtos para a UE. Assim aconteceu na
Argentina que regulamentou a agricultura orgânica desde 1994 e foi incluída
pela UE na lista dos 6 países de fora da UE aprovados para importação.
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O Japão
é um importante importador de produtos orgânicos e regulamentou seu
mercado em 2000. Foi grande, portanto, o impacto nos países com os
quais comercializa.
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Os EUA
iniciaram a regulamentação do mercado de produtos orgânicos com a
publicação do Organic Food
Production Act em 1990. Essa lei, entretanto, necessitava de inúmeras
regulamentações adicionais, que, ao longo dos anos, foram sendo
estabelecidas através do National
Organic Standards Board. Em 1998, uma proposta estabelecendo padrões
foi submetida a consulta pública. Essa proposta, contudo, foi repudiada
por produtores orgânicos e associações de consumidores, especialmente
por liberar o uso de transgênicos, de radiação ionizante e o
aproveitamento de lodo de esgoto. Mais de 300.000 comentários (cartas e
e-mails) foram recebidos, sendo a proposta totalmente refeita. Somente em
2002 o processo foi completado.
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O
Canadá publicou sua regulamentação ainda no ano de 1999 e outros países,
como Austrália e Tailândia, estão desenvolvendo normas regulamentares
nacionais.
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A
agricultura orgânica é fruto de um movimento onde várias correntes
estabeleceram formas diferentes de manejo do sistema solo/planta e das
criações de animais. Na década de setenta foi sentida a necessidade de
um fórum que se ocupasse da tarefa de harmonizar conceitos, estabelecer
padrões básicos, resguardando a diversidade do movimento. Assim surgiu
em 1972 a Federação
Internacional do Movimento da Agricultura Orgânica (International
Federation of the Organic Agriculture Movement, IFOAM) uma organização não
governamental que hoje abriga 770 organizações, incluindo
certificadoras, processadores, distribuidores e pesquisadores de 107 países.
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Os padrões
estabelecidos pela IFOAM e publicados no Basic
Standards for Organic Production and Processing são privados, tendo
em vista que a IFOAM é uma ONG. Porém, devido à sua aceitação
internacional pelo movimento orgânico, os padrões da IFOAM servem de
base para o trabalho de certificação de inúmeras entidades
certificadoras em todo o mundo. Tem servido também como referência para
o estabelecimento das regulamentações nacionais, porém cada governo
estabelece diretrizes próprias, em alguns casos bastante diferentes como
é o caso, por exemplo, dos períodos de conversão.
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Para os
produtores, principalmente os pequenos produtores dos países em
desenvolvimento os efeitos das regulamentações dos grandes mercados
importadores não podiam ser mais danosos. Há produtores com mais de uma
certificação de modo a garantir acesso a mercados com exigências
distintas. A certificação onera principalmente o produtor e com a ampliação
de oferta e uma possível diminuição do preço final, o produtor verá
ainda mais restrita sua margem de lucro. As certificadoras nacionais também
precisam se manter credenciadas junto aos órgãos fiscalizadores dos
diferentes países. Tudo isso resulta em maiores custos operacionais.
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O
que se observa é que a regulamentação, na maioria dos países
importadores, está apontando para a necessidade urgente do poder público
estabelecer equivalências, buscando reciprocidade nas relações
comerciais.
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A IFOAM,
a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimento e Agricultura) e a
UNCTAD (Organização das Nações Unidas para Comércio e
Desenvolvimento) preocupadas com o impacto da crescente regulamentação
dos mercados sobre a comercialização dos produtos orgânicos decidiram
juntas organizar o que está sendo chamado de Força-Tarefa sobre
Harmonização e Equivalência na Agricultura Orgânica, lançada em
18/02/2003 e que servirá
como uma plataforma permanente para o diálogo entre as instituições públicas
e privadas (intergovernamentais, governamentais e sociedade civil)
envolvidas no comércio ou em atividades de regulamentação da
agricultura orgânica como forma de facilitar o comércio internacional
desses produtos.
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Na
primeira reunião que aconteceu logo após a BIOFACH 2003 (Feira
Internacional de Negócios de Produtos Orgânicos) em Nuremberg, Alemanha,
foram estabelecidos os termos de referência. Especificamente a Força-Tarefa
irá:
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1.
Rever os padrões, as regulamentações e os sistemas de determinação
de conformidade existentes e determinar
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os
impactos sobre o mercado internacional dos produtos orgânicos,
-
os
modelos e mecanismos de equivalência e reconhecimento mútuo,
-
a
extensão da harmonização internacional.
2.
Formular propostas para consideração dos governos, da Comissão
do Codex Alimentarius, de órgãos relevantes da FAO, UNCTAD e IFOAM e de
outras organizações apropriadas relativas a
-
oportunidades
para a harmonização dos padrões, regulamentações e sistemas de
determinação de conformidade,
-
mecanismos
para estabelecimento de equivalência de padrões, regulamentações e
sistemas de determinação de conformidade,
-
mecanismos
para obtenção de reconhecimento mútuo entre sistemas público e
privado,
-
mecanismos
para facilitar o acesso aos mercados de produtos orgânicos, em
particular pelos países em desenvolvimento.
Nessas
propostas serão sempre considerados o impacto sobre o sistema de produção,
a relevância para os consumidores e a necessidade de transparência.
3. Aconselhar os órgãos decisórios e fornecer informação sobre os
temas acima.
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Uma
série de documentos para discussão do grupo será preparada bem como uma
pesquisa será conduzida para avaliar a sensibilidade dos consumidores em
relação a diferenças nos padrões de produção orgânica. Um dos
produtos será uma avaliação das diferenças entre as regulamentações
existentes.
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A primeira
reunião do grupo contou com 23 participantes, de 15 países. Há
representantes da OMC (Organização Mundial do Comércio), UNCTAD, FAO,
IFOAM, de certificadoras da Suíça, Argentina, Alemanha, e Tailândia, de
associação de comercializadores e de consumidores, bem como
profissionais ligados a órgãos governamentais da Índia, Costa Rica,
Canadá e China. O Brasil estava representado por 3 profissionais (Maria
Cristina Prata Neves pesquisadora da Embrapa Agrobiologia, Maria Fernanda
Fonseca pesquisadora da Pesagro-Rio e Sérgio Pedini professor da Escola
Superior de Agricultura e Ciência de Machado e secretário executivo da
Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil).
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A próxima
reunião do grupo já está agendada para novembro.
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Enquanto
isso no Brasil, percebe-se uma movimentação do setor em torno do Projeto
de Lei da Câmara 14/2002 que dispõe sobre a agricultura orgânica. O
Grupo de Agricultura Orgânica (GAO) reunindo representantes da ANC, Rede
ECOVIDA, AAO, IBD, SAPUCAÍ, Planeta Orgânico, Pesagro-Rio, CEPOrg-SP/DFA-MAPA,
Embrapa Agrobiologia, sob o patrocínio do CNPq, MDA e Chão Vivo, irá
discutir nos próximos dias 14 a 16/04 na CATIE em Campinas, a proposta
que agora se encontra em estudo pela Comissão de Assuntos Sociais da Câmara
antes de passar para votação final. O Senador Aelton José de Freitas (PL-MG)
relator do PLC14/02 participará do primeiro dia da reunião que se espera
seja muito produtiva.
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