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Sistemas
Agroflorestais: aspectos ambientais e sócio-econômicos
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Jorge
Ribaski , Luciano Javier Montoya2, Honorino Roque Rodigheri
Trabalho publicado em
22/11/02
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RESUMO
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A
atividade florestal brasileira representa 2,2% do produto interno bruto (PIB),
verificando-se exportações da ordem de 3,3 e 3,5 bilhões de dólares
nos anos de 1997 e 1999, respectivamente, com uma participação
equivalente a 7,0% das exportações brasileiras, superadas apenas pela
soja. Essa atividade é de significativa importância social, pois
assegura a manutenção de 700 mil empregos diretos e 2 milhões de
empregos indiretos (SBS, 1998), onde não existe sazonalidade, assim temos
um conselho emergencial para o agricultor brasileiro. Valorize os consórcios
agroflorestais para a melhoria dos solos, a qualidade de sua produção e
a proteção do meio ambiente e do clima mundial.
Com
base em informações existentes na literatura nacional e na internacional
sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs), bem como em resultados de trabalhos
da Embrapa Florestas, é apresentada uma síntese dos benefícios que as
árvores proporcionam ao ambiente e aos componentes agrícolas e pecuários.
São descritos conceitos e
princípios
que regem esses sistemas de produção, que têm como objetivo a conservação
dos recursos produtivos de forma sustentável, além da obtenção de
resultados econômicos, sociais e ambientais. As informações sobre as técnicas
de manejo florestal, objetivam motivar profissionais e produtores rurais
para a adoção desses sistemas,
mostrando
os vários benefícios que as árvores, integradas com cultivos anuais
e/ou pastagens, podem proporcionar, nas unidades produtivas. Procurou-se,
também, mostrar a contribuição destes sistemas, caracterizados por
distintos arranjos de seus componentes, interagindo no tempo e no espaço,
para a solução de problemas, como a recuperação de áreas degradadas e
a conservação dos recursos naturais.
Palavras-chave:
Recursos Florestais; Sistemas de Uso da Terra; Sustentabilidade; Serviços
Ambientais; Recursos Naturais.
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INTRODUÇÃO
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Com
o recente reconhecimento e a conscientização da importância dos valores
ambientais, econômicos e sociais das florestas, pode-se perceber, no cenário
mundial, fortes tendências para mudanças significativas na forma de uso
da terra, com a utilização de sistemas produtivos sustentáveis que
considerem, além da produtividade biológica, os aspectos sócio-econômicos
e ambientais. Diante desse fato, e dado ao caráter de múltiplo propósito
das árvores, os Sistemas Agroflorestais (SAFs) constituem- se em
alternativas sustentáveis para aumentar os níveis de produção agrícola,
animal e florestal.
Os
SAFs referem-se a uma ampla variedade de formas de uso da terra, onde árvores
e arbustos são cultivados de forma interativa com cultivos agrícolas,
pastagens e/ou animais, visando a múltiplos propósitos, constituindo-se
numa opção viável de manejo sustentado da terra. Esses sistemas são
classificados de acordo com a natureza e arranjo de seus componentes,
podendo ser assim denominados:
Silviagrícolas,
aqueles constituídos de árvores e/ou de arbustos com culturas agrícolas;
Silvipastoris, cultivos de árvores e/ou de arbustos com pastagens e/ou
animais; e Agrossilvipastoris, cultivo de árvores e/ou arbustos com
culturas agrícolas, pastagens e/ou animais (Medrado 2000).
O
objetivo desses sistemas é a criação de diferentes estratos vegetais,
procurando imitar um bosque natural, onde as árvores e/ou os arbustos,
pela influência que exercem no processo de ciclagem de nutrientes e no
aproveitamento da energia solar, são considerados os elementos
estruturais básicos e a chave para a estabilidade do sistema. No Brasil,
diagnósticos regionais e resultados de pesquisas demonstram que os SAFs são
de grande aplicabilidade em áreas com atividades agrícola e pecuária. Vários
autores têm postulado que os SAFs respondem em parte a problemas de
desmatamento e degradação de diferentes ecossistemas (Montoya, 2000;
Ribaski & Montoya, 2000 e Sánchez,
2000). Por meio deles é realizado um melhor aproveitamento dos diferentes
estratos da vegetação obtendo-se com isso, melhor diversificação da
produção, do uso da terra, da mão-de-obra, da renda e da produção de
serviços ambientais. Os SAFs também apresentam-se como eficientes
reservatórios de gás carbônico (CO2) e constituem-se em fonte renovável
de energia, além de prestarem-se à recuperação de solos marginais e/ou
degradados.
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Benefícios
dos SAFs Para as Condições Ambientais
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Entre
os benefícios ambientais dos SAFs, destacam-se o melhor controle de
temperatura, da umidade relativa do ar e da umidade do solo. Esses
elementos climáticos alteram-se bastante em condições de áreas
abertas, sem árvores. Nos SAFs, a presença do componente arbóreo
contribui para regular a temperatura do ar, reduzindo sua variação ao
longo do dia e, consequentemente, tornando o ambiente mais estável, o que
traz benefícios às plantas e aos animais componentes desses sistemas.
Porfírio
da Silva et al. (1998), constataram que a presença da espécie arbórea
Grevillea robusta, em pastagens da região noroeste do Paraná, teve influência
sobre algumas variáveis microclimáticas como a temperatura e a umidade
do ar e, por conseguinte, no déficit de pressão de vapor d’água.
Segundo os autores, as quedas de temperatura impostas pela sombra das árvores
refletem em rápidas diminuições de pressão de vapor d’água, o que
traz conseqüências positivas ao desenvolvimento da pastagem, favorecendo
seu crescimento pelo aumento da sua transpiração.
O
microclima existente debaixo da copa das árvores beneficia os animais domésticos,
mantendo-os confortáveis à sombra, ao contrário da exposição à
insolação direta ou às baixas temperaturas do inverno (Montoya &
Baggio, 1992). Esse é um aspecto importante, pois os bovinos tendem a
pastejar preferencialmente nas horas mais frescas do dia e, certamente, em
não havendo o componente arbóreo como agente
regulador de temperatura, o consumo da pastagem torna-se limitado,
tanto por razões de desequilíbrio do balanço térmico quanto por restrições
do horário de pastejo.
Outra
alteração causada pela presença das árvores nos SAFs, diz respeito à
temperatura do solo que, normalmente, é menor no interior da floresta.
Isto evidencia a importância do estrato herbáceo e da serapilheira como
agentes reguladores das condições térmicas no solo da floresta. O
principal efeito do sombreamento, proporcionado pelas árvores, é sobre
as temperaturas extremas da superfície do solo, as quais diminuem
significativamente.
A
modificação do microclima, na presença do componente arbóreo,
repercute sobre o balanço hídrico do solo, contribuindo para a elevação
da umidade disponível para as plantas sob a copa das árvores (Ovalle
& Avendaño,1994). Maiores teores de umidade nos solos debaixo de
coberturas florestais, também foram observados por Bhojvaid & Timmer
(1998), o que foi atribuído à redução da radiação que chega ao solo,
que influi significativamente na taxa de evaporação de água,
concorrendo para a manutenção da sua umidade.
O
maior teor de umidade no solo favorece a atividade microbiana, resultando
em aceleração da decomposição da matéria orgânica e possibilitando o
aumento da sua mineralização. Hang et al. (1995) avaliando um sistema
silvipastoril, no semi-árido argentino, constataram que durante um ano
seco, uma única chuva induziu aumento marcante na mineralização de
nutrientes, destacando que nesse processo o nitrogênio correlacionou-se
significativamente com a umidade no solo.
Com
relação aos ventos, sabe-se que, tanto as culturas agrícolas, quanto as
pastagens podem ter seu crescimento comprometido devido a danos físicos
causados pela agitação mecânica. Submetidas a ventos fortes, as folhas
batem-se umas nas outras, dobram-se e, com freqüência, são rotacionadas
sobre o eixo longitudinal de suas hastes. Esses movimentos, em geral,
produzem quebras permanentes, murchamento, dessecação, cloroses e
necroses nas pontas das folhas. A atenuação da velocidade do vento,
obtida pela presença organizada de árvores como quebra-ventos, pode
resultar em incremento do rendimento das culturas agrícolas e das
pastagens devido a: economia de água - resultante da menor evaporação
do solo e das plantas; menor oscilação das temperaturas diurnas e
noturnas, o que evita choques térmicos; redução dos riscos de danos físicos
na folhas; e otimização do suprimento de CO2.
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Benefícios
dos SAFs na Fertilidade do Solo
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As
espécies arbóreas melhoram os solos por numerosos processos,
principalmente quando são usadas em SAFs, onde as espécies são
cultivadas na mesma área. As árvores influenciam na quantidade e na
disponibilidade de nutrientes dentro da zona de atuação do sistema
radicular das culturas associadas, através do acréscimo de nitrogênio
pela fixação biológica de N2, da recuperação de nutrientes abaixo do
sistema radicular das culturas agrícolas e/ou pastagens, da redução das
perdas de nutrientes por processos como lixiviação e erosão e do
aumento da disponibilidade de nutrientes pela sua maior liberação na matéria
orgânica do solo. As raízes profundas das árvores podem interceptar os
nutrientes que foram lixiviados das camadas superficiais e se acumularam
no subsolo, geralmente fora do alcance dos sistema radicular das culturas
agrícolas e/ou pastagens, e retorná-los à superfície na forma de
serapilheira. Pesquisas na parte ocidental do Quênia, na África,
mostraram que árvores de crescimento rápido como Calliandra calothyrsus,
Sesbania sesban e Eucalyptus grandis, com alta exigência em nitrogênio,
retiraram nitrato do subsolo, que estava acumulado sob o sistema radicular
de culturas agrícolas anuais (Buresh & Tian, 1997).
Também
na África, árvores dispersas, particularmente em regiões semi- áridas,
são reconhecidas e difundidas como ilhas de solos melhorados (Rhoades,
1997). A espécie Faidherbia albida é conhecida pelo seu “efeito albida”,
que se refere ao maior crescimento/rendimento das culturas ou plantas herbáceas
debaixo da copa das árvores quando comparado ao crescimento/rendimento
dessas plantas em campo aberto (Buresh & Tian, 1997).
Numerosos
estudos mostram que a quantidade de matéria orgânica (M.O.) é mais alta
na camada superficial dos solos debaixo de árvores do que em áreas
abertas (Buresh & Tian, 1997; Kang, 1997; Rao et al., 1997; Bhojvaid
& Timmer, 1998 e Ribaski, 2000). Por exemplo, num sistema
agroflorestal com Leucaena leucocephala, Kang (1997) faz referência à
obtenção de 12,3 g/kg de carbono (C) debaixo das copas das árvores e
9,4 g/kg entre as fileiras, em comparação com 5,9 g/kg de C nas parcelas
sem árvores.
As
árvores também podem contribuir para o processo de restabelecimento da
fauna do solo, fator importante para a decomposição de resíduos
de plantas. A decomposição de M.O. é amplamente controlada pela biota
do solo, particularmente a macrofauna (Tian et al., 1992). Esses
microrganismos são importantes para disponibilizar os nutrientes nos
sistemas de baixo “input”, onde as culturas, em grande parte, dependem
de nutrientes liberados de materiais orgânicos ao invés de fertilizantes
inorgânicos.
Na
Índia, estudos realizados para determinar os efeitos das árvores (Prosopis
juliflora) de 5, 7 e 30 anos de idade, sobre as propriedades físicas, químicas
e biológicas do solo, mostraram que o crescimento das árvores alterou o
microclima e a umidade do solo, e aumentou a concentração de M.O. e os
teores dos nutrientes potássio (K), cálcio (Ca) e magnésio (Mg) trocáveis,
melhorando a fertilidade do solo (Bhojvaid & Timmer, 1998).
Nas
áreas cultivadas do planeta, depois da água, o nitrogênio (N) é o
nutriente mais limitante do crescimento e da produção das plantas.
Normalmente são adicionados aos solos fertilizantes nitrogenados visando
a melhoria da produtividade dos cultivos. Entretanto, nos países do
terceiro mundo, essa prática de manejo, eficaz e proveitosa, está
limitada a poucos cultivos, pois raramente o pequeno produtor utiliza esse
insumo agrícola de alto custo nas culturas de subsistência.
Algumas
árvores usadas em SAFs, principalmente as leguminosas, têm potencial
para fornecer nitrogênio em quantidades suficientes para aumentar a produção
das culturas associadas. A Sesbânia sesban é capaz de substituir a
aplicação de fertilizantes nitrogenados para se obter rendimentos de
milho de aproximadamente 4 t/ha (Sanchez & Palm 1996).
Na
associação do cultivo de feijão e milho com bracatinga (Mimosa
scabrella), Carpanezzi & Carpanezzi (1992) constataram que a espécie
florestal fornece ao solo quantidades consideráveis de N, K, Ca, Mg e fósforo
(P). Admitindo-se que 75% do nitrogênio total, oriundo da biomassa decídua,
seja assimilável em relação ao nitrogênio fornecido pela adubação
mineral, a bracatinga seria capaz de complementar a aplicação do
fertilizante químico na ordem de 49 kg/ha.
Os
“inputs” orgânicos também têm importante vantagem sobre os
fertilizantes inorgânicos, com relação ao efeito residual e à
sustentabilidade. Grande parte do nitrogênio que existe na cobertura
morta e que não é aproveitado pelas culturas, fica incorporado de forma
ativa ou pouco ativa dentro da matéria orgânica do solo, enquanto que
parte considerável do nitrogênio proveniente dos fertilizantes químicos,
não aproveitado pelas culturas, fica sujeito a perdas por lixiviação e
por desnitrificação.
Nos
SAFs, a sombra produzida pelas árvores é um dos fatores responsáveis
pelo aumento da disponibilidade de nitrogênio no solo, pois evidências
mostram que a taxa de mineralização é estimulada pelo sombreamento. De
acordo com Wilson (1990), a melhoria do ambiente do solo sob a copa das árvores,
possibilita atividade microbiana mais efetiva na decomposição da matéria
orgânica, o que resulta numa maior liberação do nitrogênio
mineralizado. Esta influência é particularmente importante na
agricultura onde o nível de nitrogênio do solo constitui em limitação
ao desenvolvimento das culturas agrícolas ou pastagens.
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Benefícios
dos SAFs Sobre os Cultivos Associados
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A
presença do componente arbóreo nos SAFs pode influir de maneira
diferente no desenvolvimento do estrato vegetal herbáceo, pois suas raízes
competem com as raízes das plantas herbáceas e a sua copa intercepta a
luz necessária para a fotossíntese. Assim, o crescimento das culturas em
associação com espécies arbóreas pode ser prejudicado ou favorecido,
dependendo de fatores como o grau de sombreamento proporcionado pelas árvores,
a competição entre as plantas, com relação à água e nutrientes no
solo, e a tolerância das espécies à sombra.
A
tolerância ao sombreamento, condição essencial em associações entre
culturas agrícolas e pastagens com árvores, pode variar sensivelmente
entre espécies. Por exemplo, muitas gramíneas crescem melhor debaixo da
sombra da copa das árvores e produzem maior quantidade de forragem, além
de possuírem melhor qualidade nutritiva (menor conteúdo de fibra e maior
conteúdo de proteína bruta) quando comparadas às que crescem a pleno
sol.
No
cerrado brasileiro, Carvalho et al. (1997) observaram que a produção de
matéria seca de seis gramíneas forrageiras estabelecidas em sub-bosque
de angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa) foi afetada de modo
diferente pelas condições ambientais prevalecentes, advindas da competição
com a espécie arbórea. Na Costa Rica, Bustamante et al. (1998), ao
avaliar oito espécies de gramíneas em monocultura e associadas à
Erythrina poeppigiana, também constataram que a tolerância das gramíneas
forrageiras à sombra foi bastante variável. Entretanto, a maioria delas
foi beneficiada pela presença da leguminosa arbórea, produzindo mais
biomassa por hectare que quando cultivada pura. Acredita-se que os SAFs
promovam ciclagem de nutrientes mais eficiente do que aquela que ocorre
nas lavouras e pastagens tradicionais sem árvores. Essa hipótese é
baseada parcialmente em estudos realizados em ecossistemas de florestas
naturais e na suposição de que as árvores nos SAFs transferirão de
forma semelhante os nutrientes para as culturas associadas. De acordo com
Botero & Russo (1998), a ciclagem de nutrientes minerais, em termos de
sustentabilidade, é maior nos sistemas silvipastoris que nas pastagens
tradicionais sem árvores. No Vale do Cauca, na Colômbia, as análises
dos teores de nutrientes nas fezes de vacas lactantes, que pastejavam
num sistema silvipastoril com Pithecellobium dulce associado às
forrageiras Brachiaria decumbens e Centrosema ocutifolium, foram
comparadas com os teores dos mesmos elementos encontrados nas fezes dos
animais que pastejavam B. decumbens pura. Os resultados mostraram
superioridade no sistema silvipastoril, em termos de concentração dos
elementos na matéria seca, para todos os nutrientes analisados nas fezes.
O
aumento da concentração de nitrogênio em plantas cultivadas sob
intensidade luminosa reduzida, de forma artificial ou na presença de um
componente arbóreo, ocorre com bastante freqüência (Wilson, 1990;
Carvalho et al., 1997; Ramírez, 1997 e Ribaski, 2000) e pode ser
considerado como um dos fatores responsáveis pela melhoria da qualidade
da pastagem, o que favore a produção animal. Alpízar (1985), na Costa
Rica, ao realizar avaliações de reservas orgânicas e minerais de uma
pastagem de Cynodon plectostachyus
em condições de monocultivo e associadas à E. poeppigiana e Cordia
alliodora, concluiu que os pastos sombreados pelas árvores apresentaram
melhor qualidade nutritiva, uma vez que os percentuais de nitrogênio
encontrados na forragem debaixo de E. poeppigiana e C. alliodora foram
considerados adequados para suprir as necessidades nutritivas de bovinos;
o mesmo não ocorreu com os teores de nitrogênio presentes na pastagem
sem árvores.
Na
exploração de plantas forrageiras, um dos aspectos mais importantes a
ser considerado é o valor nutritivo, o qual é definido em função da
composição química e da digestibilidade da forragem produzida. A
associação de pastagens com árvores pode trazer benefícios em termos
de disponibilidade e de valor nutritivo da forragem, tendo em vista a
característica apresentada por diversas espécies arbóreas em adicionar
nutrientes ao ecossistema, principalmente em se tratando de leguminosas
arbóreas fixadoras de nitrogênio (Alpízar, 1985). Ramírez (1997)
concluiu que a inclusão das leguminosas arbóreas Prosopis juliflora e L.
leucocephala em pastagens de C. plectostachyus teve um efeito positivo
sobre a composição química do solo, com respeito ao N, C, P, Ca, Mg e
K, devido a maior aporte de matéria orgânica no solo e,
consequentemente, maior ciclagem de nutrientes. Esses fatores aumentaram a
produção e a qualidade nutritiva de forragem da gramínea, além de
possibilitar maior disponibilidade de material forrageiro total consumível
no sistema. Diversas espécies de gramíneas, ao se desenvolverem debaixo
da copa das árvores, apresentam maior concentração de proteína bruta
(PB), quando comparadas àquelas que crescem em plena exposição solar (Botero
& Russo, 1998; Hernández et al., 1998 e Ribaski, 2000).
O
processo de amadurecimento fisiológico da pastagem implica em redução
de sua qualidade, principalmente pela diminuição dos teores de PB e
aumento da concentração de fibras. A baixa concentração de proteína
na dieta resulta em baixa digestibilidade de suas fibras. Dessa forma, as
árvores, ao promoverem o sombreamento das pastagens, reduzem os extremos
microclimáticos, proporcionando elevação do conteúdo protéico e
favorecendo a digestibilidade da forragem obtida. Entretanto, na
literatura existem resultados bastante conflitantes com relação à influência
da intensidade luminosa sobre a digestibilidade. De acordo com Samarakoon
et al. (1990), o efeito do sombreamento na digestibilidade “in vitro”
pode ser positivo, negativo ou nulo, dependendo do balanço das alterações
nos demais componentes dos tecidos vegetais. Assim sendo, não é possível
generalizar nem prever a extensão em que a digestibilidade de uma
determinada espécie será alterada quando cultivada à sombra.
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Os
SAFs na Recuperação de Áreas Degradadas
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O
tema recuperação de áreas degradadas tem sido objeto de numerosos
estudos, constituindo-se numa linha de pesquisa prioritária, em razão
do grau avançado de perturbação que atinge, tanto grandes áreas de
proteção ambiental como do setor agrícola e industrial, com o uso de
tecnologia moderna. Pesquisas sobre a recuperação de áreas
degradadas, inicialmente davam ênfase a trabalhos de revegetação,
baseados na intervenção no ambiente (substrato, vegetação, fauna,
etc.), corrigindo ou acrescentando o cenário anterior à degradação.
Visavam ao estabelecimento de um “tape verde” (efeito paisagismo)
com espécies agressivas e de rápido crescimento. Atualmente, outra
estratégia na recuperação é baseada no principio da sucessão ecológica
que consiste na implantação de espécies pioneiras, iniciais e tardias
até chegar ao clímax; é a mudança temporal da composição em espécies
e da estrutura de comunidades em uma área. É o processo que ocorre
mediante a substituição de espécies em relação as suas adaptações
ao substrato, à irradiação luminosa e à competitividade, culminando
em sistemas mais estruturados, diversos e complexos que os iniciais (Poggiani,
1990; Maschio et al., 1992; Curcio et al., 1998). O uso dos SAFs na
recuperação de áreas degradadas vem sendo objeto de numerosos
estudos(Budowski,1981; Nair, 1987). Hoje os SAFs não apenas encerram a
idéia de recuperação de áreas degradadas (restauração ecológica),
mas carregam uma abordagem holistica, envolvendo aspectos sociais, econômicos
e ambientais.
O
potencial dos SAFs para a recuperação, conservação e aumento da
fertilidade do solo está baseado na acumulação de dados técnico-
científicos que mostram que as árvores e outros tipos de vegetação,
quando associadas com outros componentes, cultivos agrícolas ou
pastagens, exercem influência positiva sobre a base do recurso da qual
o sistema depende (Budowski, 1981, Wiersum, 1986; Szott et al., 1991,
Ribaski, 2000).
Desse
modo, as práticas agroflorestais podem ser aplicadas de diversas formas
na recuperação de solos degradados. Baggio (1992) e Carpanezzi (1998)
mencionam que a chave para o sucesso de um SAF está na escolha da espécie
arbórea, dos componentes do sistema e do regime de manejo. A seguir são
apresentadas algumas formas de degradação dos solos e os principais
benefícios das práticas agroflorestais na recuperação de áreas
degradadas:
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áreas desmatadas e degradadas pela derruba e queima de árvores,
que favorecem a emissão de gases como o CO2, a exposição do solo
diretamente à chuva, o que provocando erosão e assoreamento dos rios,
desequilíbrios na flora e fauna, com conseqüente empobrecimento biológico.
Essas áreas podem ser melhoradas e/ou recuperadas pela
aplicação de práticas agroflorestais como o sistema taungya,
cultivos seqüenciais, pousio melhorado, árvores multiestrato, espécies
de uso múltiplo, entre outros.
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áreas erodidas pela água de chuvas, acarretando perdas de solo,
reduzindo sua capacidade para armazenar nutrientes e água, provocando
alto índice de escorrimento de solo e compactação do solo. Essas áreas
degradadas podem ser recuperadas pela utilização de práticas
agroflorestais como barreiras vivas, formação lenta de terraços para
uso agrícola, estabilização de voçorocas, cultivos em renques, árvores
em contorno e árvores sobre curvas de nível, entre outras.
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áreas de baixa fertilidade e mal drenadas que, geralmente,
provocam perdas de matéria orgânica e de nutrientes, principalmente de
nitratos, e impedimentos físicos ao desenvolvimento de raízes, com
crescimento reduzido de árvores e de deficiência de nutrientes nos
cultivos anuais. Podem ser recuperadas com práticas agroflorestais como
cultivos em renques, cultivos em faixas, folhagem florestal como fonte de
adubo, árvores em torno de cultivos agrícolas e de pastagens, entre
outros.
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áreas secas (áridas) com solos com camadas duras, apresentando
dificuldade de armazenar água e nutrientes; altas temperaturas afetando a
evapotranspiração e o lençol freático. Podem ser recuperadas com a
utilização de práticas agroflorestais como barreiras vivas,
quebra-ventos, cercas vivas, árvores em torno de cultivos e pastagens,
entre outros.
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áreas de encostas (declividade acentuada); geralmente são áreas
desprovidas de florestas, com alto índice de erosão e com dificuldade na
formação de uma cobertura permanente do solo. Podem ser
recuperadas pela utilização de práticas agroflorestais como
fileira de árvores sobre terraços, cultivo em faixas e barreiras vivas.
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áreas de pousio e/ou áreas marginais, de pouco valor ecológico e
econômico. Podem ser recuperadas por práticas agroflorestais como pousio
melhorado e árvores em multiestratos.
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áreas de pastagens degradadas com cobertura vegetal deficiente,
expondo o solo aos efeitos prejudiciais da erosão hídrica e eólica.
Podem ser recuperadas por práticas agroflorestais como arborização de
pastagens e bancos forrageiros, entre outros.
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Sistemas
Agroflorestais e os Impactos Sócio-econômicos
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A
atividade florestal brasileira representa 2,2% do produto interno bruto
(PIB), verificando-se exportações da ordem de 3,3 e 3,5 bilhões de dólares
nos anos de 1997 e 1999, respectivamente, com uma participação
equivalente a 7,0% das exportações brasileiras, superadas apenas pela
soja. Essa atividade é de significativa importância social, pois
assegura a manutenção de 700 mil empregos diretos e 2 milhões de
empregos indiretos (SBS, 1998), onde não existe sazonalidade na utilização
de mão-de-obra, pois as demandas caracterizadas pelas diferentes
atividades inerentes ao setor florestal são contínuas ao longo do
tempo. De acordo com dados da SBS (1998), a demanda anual de madeira no
Brasil é estimada em 350 milhões de metros cúbicos, sendo que a produção
de florestas plantadas, principalmente, com espécies dos gêneros
Eucalyptus e Pinus, não atinge a metade dessa necessidade. Há,
portanto, um déficit significativo de madeira que vem sendo suprido
através do corte de florestas naturais. Além da utilização da
madeira para fins diversos, destaca-se também a crescente demanda por
produtos não madeiráveis, como resinas, látex, produtos alimentícios,
taninos, matéria prima para a industria farmacêutica e plantas
medicinais.
Essa
mesma tendência se observa também em nível mundial, onde cresce
sensivelmente a demanda por produtos de base florestal. Assim, a introdução
de árvores nas propriedades rurais, através das diferentes modalidades
agroflorestais, representa importante papel na sustentabilidade dos
diferentes ecossistemas brasileiros.
Práticas
florestais convencionais ainda não são atrativas para médios e
pequenos produtores por problemas de fluxo de caixa e longos períodos
de investimento. Contudo, esse comportamento vem mudando pela utilização
de SAFs, que permite a diversificação de produtos florestais e agrícolas
na mesma unidade de área, e geração de renda e de empregos. Os benefícios
de produção, sócio-econômicos e ambientais manifestam-se a médio e
longo prazo. Rodigheri (1997) e Montoya (1999) demonstraram que, quando
cultivos agrícolas são introduzidos simultaneamente e/ou seqüencialmente
nas entrelinhas de espécies florestais, além do aproveitamento da
aplicação de fertilizantes nas espécies, tais cultivos contribuem
para a amortização do custo de implantação florestal, logo nos
primeiros anos.
Montoya
& Baggio (1992) constataram que, quando introduz-se o componente arbóreo
em áreas de pecuária, o custo de implantação das árvores
inicialmente pode reduzir a renda da propriedade. Entretanto, essa redução
pode ser, em parte, compensada pela receita obtida pelo ganho de peso do
gado, ou pelo aumento da produção de leite beneficiado pelo
sombreamento.
Percebe-se,
também, que as propriedades rurais não estão aproveitando seu
potencial de transformação da matéria-prima florestal e agroflorestal
em bens mais elaborados, deixando de agregar valor dentro da cadeia
produtiva florestal e agroflorestal. Como exemplo de matéria-prima
florestal, o produtor vende uma árvore em pé (toras de pinus)
ao preço reduzido de 2,4 dólares o metro cúbico. Se o produtor ao invés
de vender as toras em pé beneficiar a madeira, serrando-a e secando-a,
aumentará seu valor agregado, pois a madeira serrada de pinus vale 87 dólares
o metro cúbico, ou seja um valor 36 vezes mais alto.
Da
mesma forma, os produtos agroflorestais têm valor agregado, a partir do
processamento da produção. Contudo, essa agregação de valor só vai
acontecer na medida em que o produtor se especializar numa boa condução,
com desbastes e podas planejadas, no processo do beneficiamento da
madeira e de outros produtos agroflorestais. Isso pode ser feito através
da organização de pequenas e médias serrarias, marcenarias, ou pela
participação em um empreendimento de maior porte, através de associações
de produtores. Assim, além de ser uma alternativa para o aproveitamento
de áreas marginalizadas ou de menor valor da propriedade, a atividade
agroflorestal torna-se uma forma de diversificação da renda e uma nova
alternativa para o uso da mão-de- obra, pela flexibilidade do calendário
das operações culturais. No contexto regional, a importância econômica
e social é inquestionável na medida em que a cadeia agroflorestal pode
vir a ser uma forma de dinamizar a região em um novo eixo de
desenvolvimento com maior participação de produtores rurais, de empresários
do setor urbano e da população economicamente ativa, que não encontra
ocupação dentro da própria região.
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CONSIDERAÇÕES
FINAIS
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A
utilização de áreas com vegetação florestal para agricultura ou
pecuária tem resultado quase sempre em um acentuado processo de erosão
hídrica ou eólica e, conseqüentemente, na degradação do solo,
contaminação e assoreamento dos aqüíferos, na redução da flora e
fauna, em alterações de microclimas e de ciclos biogeoquímicos
(ciclo do carbono, da água, do nitrogênio), além de implicar na
supressão de áreas produtoras de alimento. A utilização de SAFs é
uma opção viável que concorre para melhor utilização do solo, para
reverter os processos de degradação dos recursos produtivos, para
aumentar a disponibilidade de madeira, de alimentos e de “serviços
ambientais” (conservação dos solos, controle dos ventos, redução
na contaminação da água e do ar, recuperação de áreas degradadas,
entre outros). Adicionalmente a esses aspectos, a introdução do
componente florestal no sistema, constitui-se em alternativa de aumento
de emprego e da renda rural.
Apesar
do reconhecimento dos benefícios dos SAFs, o seu conhecimento e uso
ainda são limitados. Isto representa uma oportunidade para o
desenvolvimento de maiores ações de pesquisa, para a valorização dos
benefícios ambientais e de maiores incentivos econômicos que venham a
estimular sua implantação. Estes mecanismos são necessários para
assegurar a sustentabilidade dos sistemas agroflorestais, a equidade
social e a proteção ambiental.
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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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de pastos y arboles de sombra. In: BEER, J.W.;
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