Trabalhos

TRANSIÇÃO DO MANEJO DE LAVOURA CAFEEIRA
DO SISTEMA CONVENCIONAL PARA O ORGÂNICO

 
Drª. Vanessa Cristina de Almeida Theodoro
E-mail: organicoffee@gmail.com
 
RESUMO
 
O contundente processo modernizador da agricultura brasileira gerou impactos ambientais e transformações sociais em magnitudes tão amplas que, por si só, justificam estudos voltados para novas tecnologias emergentes como a agricultura orgânica. Já existe um acervo de experiências práticas de transição agroecológica bem sucedidas, em particular para a cultura do cafeeiro (Coffea arabica L.), em pequenas propriedades na região sul de Minas Gerais que inspiraram essa pesquisa. Empregou-se o delineamento látice balanceado 4x4 com cinco repetições em esquema fatorial 3x2x2 mais quatro tratamentos adicionais. Foram utilizadas três fontes de matéria orgânica (farelo de mamona, esterco bovino e cama de aviário), com e sem palha de café fermentada, com e sem a adubação verde com feijão-guandu (Cajanus cajan L.) nas entrelinhas do cafeeiro e pulverizações com o biofertilizante supermagro. O manejo convencional constou da aplicação de sulfato de amônio e o cloreto de potássio e de adubação foliar convencional. O manejo orgânico adotado é eficiente no fornecimento de N, P, K, S, Ca, Mg, Mn, B, Zn, Cu e Fe ao cafeeiro em produção. O farelo de mamona promove um menor acúmulo de açúcares solúveis totais na folha, o que possivelmente concorre para um aumento da resistência da planta ao ataque do bicho mineiro (Leucoptera coffeella). Os tratamentos de manejo orgânico apresentam produtividade similar à testemunha convencional, devido à existência de reservas de nutrientes no solo. Não há diferença na biomassa microbiana, em função dos manejos orgânico e convencional, entretanto nos tratamentos de manejo orgânico é maior a diversidade biológica das populações de fungos micorrízicos arbusculares.
 

CAPÍTULO

INTRODUÇÃO GERAL

  No Brasil atual, as instituições públicas que não assumirem o desafio do desenvolvimento rural sustentável a partir de um enfoque participativo e agroecológico, que privilegia a multifuncionalidade da agricultura, a produção local e familiar, a biodiversidade e a preservação dos recursos naturais, continuarão no imobilismo conservador e perderão a oportunidade de se transformarem em instituições dinâmicas impulsionadoras de uma nova realidade. Entretanto, toda transformação institucional é fruto da transformação interna de seu pessoal e da vontade política da liderança intelectual que propiciam as mudanças necessárias.

  O contundente processo modernizador da agricultura brasileira gerou impactos ambientais e transformações sociais em magnitudes tão amplas que, por si só, justificam a análise crítica de todo o modelo de desenvolvimento do setor agrícola e estudos voltados para novas tecnologias emergentes como a agricultura orgânica. Esse mercado específico tem experimentado um crescimento vertiginoso, apresentando, no final da década de 1990, um crescimento estimado em 20% a 30% ao ano, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento (ITC/UNCTAD/OMT, 1999). No Brasil, em 2005, representou apenas 0,23% da produção agrícola de todo o país, enquanto que nos países desenvolvidos, o índice atinge 26,0% (Willer & Yussefi, 2005). Assim, fica claro que existe espaço para o crescimento desse ramo do agronegócio, podendo a área a ser convertida para a produção orgânica no Brasil, chegar a 1% ou 2% na próxima década, com o incentivo, principalmente, aos pequenos produtores.

  Nas últimas três décadas, tem-se constatado que as commodities agrícolas tradicionais, como o café (Coffea arabica L.), requerem escalas de produção para compensar a queda estrutural de preços, bem como os custos crescentes de produção, que resultam na redução das margens de lucro. Esse fato pode resultar em um desequilíbrio sócio-ambiental de largas proporções em mais de cinqüenta países em desenvolvimento que produzem café, realidade que já vem sendo constatada principalmente no Brasil, em especial na região Sul de Minas Gerais, onde aproximadamente 80% dos produtores são familiares.

  Existe um acervo de experiências práticas de transição agroecológica bem sucedidas, em particular para a cultura do cafeeiro, em pequenas propriedades na região Sul de Minas Gerais, que inspiraram essa pesquisa. O principal gargalo consiste em validá-las cientificamente, após a realização de estudos a campo que confrontem o manejo convencional versus o orgânico, de modo que forneçam a segurança necessária nessa nova tecnologia, a um número significativo de cafeicultores, nas várias regiões produtoras do país. Muitas vezes, tudo o que se necessita é que as instituições de ensino, pesquisa e extensão sirvam de facilitadoras para que se formem as redes de intercâmbio de agricultor a agricultor, para que, assim, fluam o conhecimento gerado e a troca de experiências.

  O termo transição, em sua acepção semântica, pode designar simplesmente a ação e o efeito de passar de um modo de ser ou estar a outro distinto – e que sempre há de provocar conseqüências e efeitos, previsíveis ou não, na nova situação que se estabelece. Portanto, a transição do modelo de agricultura convencional para estilos de agricultura agroecológica não pode ser entendida como um processo unilinear, mas sim de múltiplas dimensões: ambiental, social, cultural e econômica; o que reflete a própria complexidade da noção de sustentabilidade agrária, como meta a ser alcançada a médio e a longo prazo. O estado atual de destruição dos recursos naturais já está comprometendo a satisfação das necessidades de gerações futuras e torna-se urgente evitar qualquer degradação, sendo a cafeicultura orgânica uma opção para a otimização da eficiência no uso dos já escassos recursos naturais.

  É de fundamental importância que políticas públicas focalizem-se na difusão da cafeicultura orgânica, especialmente destinadas a agricultores familiares, na medida em que são mais demandantes desse apoio e apresentam maior aptidão à adoção das técnicas agroecológicas. Contudo, a mudança política não é suficiente, sendo necessária, ademais, a transformação institucional, de maneira que existam mecanismos para os agricultores de acesso ao crédito e à terra, aos mercados, à informação e capacitação, à tecnologia apropriada e a outros recursos produtivos.

  Nesse contexto, o instrumento necessário para que se possa converter e ou superar a agricultura/cafeicultura baseada nos insumos químicos sintéticos e subordinada a setores agroindustriais, é a educação, aliada ao conhecimento e, principalmente, à consciência ambiental, que marcam a nova lógica do desenvolvimento rural neste início de século.

  Esse estudo multidisciplinar é integrante de um projeto aprovado no edital Projeto de Apoio ao Desenvolvimento de Tecnologias Agropecuárias para o Brasil – PRODETAB Edital 02/001, coordenado pela EMBRAPA/Café, no qual trabalharam juntas, em diversas linhas de pesquisa, a UFLA (Departamentos de Agricultura, Solos, Entomologia e Fisiologia) a EPAMIG e a EMATER-MG, Lavras. A principal finalidade desse estudo foi verificar a viabilidade técnico-ambiental do primeiro ano de conversão de lavouras cafeeiras do sistema de produção convencional para o orgânico.

REFERENCIAL TEÓRICO

O paradigma da revolução verde (riscos ambientais, mitos e alternativas)

  A monocultura implicou na simplificação da biodiversidade, dando, como resultado final, um ecossistema artificial que requer constante intervenção humana por meio do uso de insumos agroquímicos, os quais, além de melhorar os rendimentos temporariamente, dão como resultado elevados custos ambientais e sociais não desejados (Altieri, 2002). Conscientes de tais impactos, muitos cientistas agrícolas chegaram ao consenso de que a agricultura moderna enfrenta, atualmente, uma severa crise ecológica (Pinheiro et al., 1985; Chaboussou, 1987; Primavesi, 1988; Ehlers, 1996; Nicholls & Altieri, 1997, Gliessman, 2000; Khatounian, 2001; Capra, 2002; Assis, 2005; Neves, 2005).

  Um sintoma da crise ambiental que afeta a agricultura é a perda anual de rendimentos devido a pragas em muitos cultivos (na maioria dos casos atinge 30%, em média), apesar do aumento substancial no uso de agrotóxicos (cerca de 500 milhões de kg de ingrediente ativo em todo o mundo) (Altieri, 2002). Boa parte dos agrotóxicos aplicados no campo é perdida; estima-se que cerca de 90% dos produtos aplicados não atingem o alvo, sendo dissipados para o ambiente e tendo como ponto final reservatórios de água e, principalmente, o solo. As perdas se devem, de forma geral, à aplicação inadequada, tanto em relação à tecnologia quanto ao momento de aplicação, em alguns casos, porque a aplicação foi feita para dar proteção contra uma praga ou patógeno que não estão presentes na área. Isso ocorre porque ainda são realizadas pulverizações baseadas em calendários e não na ocorrência do problema (Ghini & Bettiol, 2000). Alguns agrotóxicos apresentam, ainda, problemas de persistência no ambiente (Bottino Netto, 2001), bioacumulação (Carson, 1962) ou toxicidade para organismos aquáticos, abelhas e fauna silvestre e doméstica (Trivelato & Wesseling, 1992). O uso de agrotóxicos e fertilizantes já é a segunda causa de contaminação da água no País, só perdendo para o despejo de esgoto doméstico, o grande problema ambiental brasileiro. Uma pesquisa do IBGE mostra que, do total de 5.281 municípios que têm atividade agrícola, 1.134 (21,5%) informaram ter o solo contaminado por agrotóxicos e fertilizantes. Proibido por lei federal (no 9.974 de 31 de maio de 2002), o descarte irregular de embalagens vazias de agrotóxicos (geralmente em vazadouros a céu aberto) é apontado como principal causa de contaminação. Mas, a pesquisa também mostra que, dos 5.281 municípios com atividade agrícola, 35,8% incentivam a promoção e a prática da agricultura orgânica (Estadão, 2005).

  Nota-se que as plantas cultivadas, que crescem como monoculturas geneticamente homogêneas, não possuem os mecanismos ecológicos de defesa necessários para tolerar o impacto das populações epidêmicas de pragas (Altieri, 1994), tornando-se dependentes dos agroquímicos. Outro reflexo do desequilíbrio biológico dos agroecossistemas é o aparecimento de pragas e agentes de doenças, além da própria intensificação da resistência dos parasitas (Akiba et al., 1999) e plantas daninhas aos princípios químicos empregados.

  Segundo Salvatori et al. (2002), o número de parasitas habituais do solo passou de 3 para 20, desde 1972, somente na lavoura de soja. A resistência de plantas daninhas aos herbicidas foi pela primeira vez relatada no final da década de 1960, associada à aplicação intensiva de herbicidas pertencentes ao grupo químico das triazinas, tendo o número local com plantas daninhas resistentes aos herbicidas aumentado rapidamente nos últimos anos (Christoffoleti, 2003). Os registros apontam, atualmente, a existência de 304 biótipos resistentes em 270.000 locais do mundo, distribuídos entre 182 espécies (109 dicotiledôneas e 73 monocotiledôneas) (Weed Science, 2006). Na cultura do cafeeiro, em especial, o uso generalizado do glifosate induziu à seleção de espécies tolerantes  e ou resistentes como as trapoerabas (Commelina diffusa, C. benghalensis) e algumas espécies da família Rubiaceae (poaia-do-campo, Richardia brasiliensis e vassourinha, Borreria capitata) (Oliveira et al., 1979; Miguel, 1981). Globalmente, a conscientização ecológica já detectada em grande parte da população e, principalmente, entre produtores rurais, técnicos ligados às ciências agrárias e consumidores, indica uma evolução, não no sentido do banimento coletivo dos agroquímicos, mas sim uma exclusão gradual à medida que soluções alternativas venham se apresentando.

 

Agricultura orgânica (contexto, desafios e cenários)

  De acordo com a definição do Codex Alimentarius (2006): “A agricultura orgânica é um sistema de gerenciamento total da produção agrícola com vistas a promover e realçar a saúde do meio ambiente, preservar a biodiversidade, os ciclos e as atividades biológicas do solo. Nesse sentido, a agricultura orgânica enfatiza o uso de práticas de manejo em oposição ao uso de elementos estranhos ao meio rural. Isso abrange, sempre que possível, a administração de conhecimentos agronômicos, biológicos e até mesmo mecânicos. Exclui a adoção de substâncias químicas ou outros materiais sintéticos que desempenhem no solo funções estranhas às desempenhadas pelo ecossistema.”

  O número limitado de pesquisas sobre os benefícios gerados pela adoção do sistema de agricultura orgânica registra efeitos positivos para o meio ambiente (Drinkwater et al., 1998; Reganold et al., 2001). Mader et al. (2002) estudaram, durante 21 anos, o desempenho agronômico e ecológico dos sistemas biodinâmico x orgânico x convencional, na Suíça. O experimento foi instalado de 1978 até 1998 e apresentou resultados muito consistentes e elucidativos, como, por exemplo: a respeito da produtividade dos sistemas orgânicos que tende a ser 20% menor, no entanto, o consumo de energia por hectare é 50%  maior nas plantações convencionais que dependem do uso de fertilizantes e pesticidas. Sistemas biodinâmicos e orgânicos conservam mais a fertilidade do solo, apresentando maior estabilidade de agregados e alta biodiversidade da fauna do solo, além de uma maior atividade microbiana. Os autores concluíram que, mesmo produzindo menos, a agricultura orgânica é mais eficiente e menos agressiva ao meio ambiente.

  Entretanto, a falta de um entendimento holístico dos princípios da agricultura orgânica induziram Altieri & Nicholls (2003) a questionar as bases do movimento orgânico contemporâneo, criticando a produção orgânica geralmente praticada em grandes áreas, voltada, exclusivamente, para a alta produção e lucratividade, características do modelo de agricultura convencional a qual, tradicionalmente, se opunha. À medida que o terceiro mundo entra no mercado orgânico, a produção se destina, principalmente, à exportação, com pequena contribuição para a seguridade alimentar destes países mais pobres. Os produtos orgânicos estão sendo comercializados internacionalmente como mercadoria (commodities) e sua distribuição está sendo feita pelas mesmas corporações multinacionais que dominam o mercado convencional.

  É importante enfatizar que somente uma minoria de produtores orgânicos que controlam áreas grandes e com capital financeiro disponível segue o modelo de substituição de insumos. Agricultores que seguem este regime ficam atrelados a um processo que os mantêm dependentes dos fornecedores de insumos orgânicos. Além da dependência, o uso intensivo de insumos externos (orgânicos e biológicos) pode gerar, por exemplo, a resistência de insetos devido ao uso continuado de pulverização com Bt (Bacillus thuringiensis), contaminação do solo e da água com sulfato de cobre e eliminação de insetos benéficos com rotenona e outros inseticidas biológicos não seletivos. É possível que alguns dos problemas citados pudessem ter sido minimizados se o movimento orgânico não tivesse desconsiderado dois fatores importantes: limitação do tamanho da propriedade a ser certificada e desenvolvimento de padrões de certificação solidária, flexível e com padrões sociais (Altieri & Nicholls, 2003).

  Os principais entraves ao desenvolvimento da agricultura orgânica no Brasil foram detectados por Darolt (2000) e são, em ordem descrescente, a falta de crédito específico, as dificuldades para a comercialização da produção e, por último, a falta de experiência e de informações técnicas. Foram levantadas também algumas condições para que a agricultura orgânica seja bem-sucedida, como o incentivo financeiro aos produtores em conversão (experiências de prefeituras que apóiam a agricultura orgânica têm oferecido condições satisfatórias para alavancar o sistema); o diálogo com os consumidores; a informação eficiente aos produtores e consumidores (nos países como Suíça, Alemanha e EUA, onde existem institutos de pesquisa em agricultura orgânica, a evolução é nitidamente maior); o acesso e a disponibilidade de produtos orgânicos (maior gama de opções de pontos de venda, como venda direta, cooperativas, lojas de produtos naturais, redes de supermercado, etc.); o marketing e a proteção legal (criação de uma logomarca nacional para o produto orgânico, com o intuito de aumentar as vendas no nosso país); a pesquisa fundamental, aplicada e em sistemas de produção; a criação de métodos alternativos de certificação (certificação participativa) e o associativismo. Theodoro & Guimarães (2003) concluíram que a agricultura orgânica veio para ficar como uma espécie de desafio da sustentabilidade. Torna-se, assim, necessário estudar as vantagens que o sistema orgânico pode proporcionar a produtores e consumidores, como a menor dependência de insumos externos à propriedade, a redução dos custos de produção e uma menor degradação do solo. De outro lado, o fornecimento de alimentos com menor índice de toxicidade, a melhoria da saúde do consumidor e a manutenção do equilíbrio ambiental são benefícios a serem capturados pela sociedade em geral.

 

Área de produção e mercado mundial de produtos orgânicos

  De acordo com a Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), o sistema orgânico já é praticado em 110 países, sendo observada uma rápida expansão, sobretudo na Europa, EUA, Japão, Austrália e América do Sul (Willer & Yussefi, 2005).

  Na falta de estatísticas oficiais, a Foundation Ecology & Agriculture da Alemanha e o Research Institute of Organic Agriculture da Suíça, a cada ano, coletam informações em todo o mundo e, em 2004, estimaram a área orgânica mundial em 24 milhões de hectares que somados aos mais de 10,7 milhões de hectares de extrativismo certificado de produtos alimentares totalizaram uma área de 34,7 milhões de hectares em todo o mundo (Yussefi, 2004). Em 2005, a área mundial passou para 26 milhões de hectares manejados organicamente em, aproximadamente, 558.449 propriedades e para 14,5 milhões de hectares de extrativismo certificado, totalizando uma área de 40,5 milhões de hectares (aumento de 16,72%). Esses dados apontam a conversão de uma área de 5,8 milhões de hectares em todo o planeta para o manejo orgânico, durante o período de um ano (Willer & Yussefi, 2005).

  A maior parte destas áreas está localizada na Austrália (11,3 milhões de hectares), Argentina (2,8 milhões de hectares) e Itália (um pouco mais que 1,0 milhão de hectares). A Oceania tem, aproximadamente, 43% da área orgânica do mundo, seguida pela Europa (23,8%) e América Latina (23,5%). É importante destacar que os países que têm o maior percentual de área sob manejo orgânico em relação à área total destinada à agricultura computam a área de pastagem. Assim, por exemplo, em países como Austrália e Argentina, mais de 90% da área de produção orgânica correspondem a áreas de pastagem (Willer & Yussefi, 2005).

  O maior número de propriedades orgânicas encontra-se na América Latina (34,0%), Europa (29,9%) e África (21,1%). Numa análise comparativa  entre o tamanho de área manejada sob o sistema orgânico e o número de propriedades orgânicas, é possível perceber a América Latina que, com 23,5% da área sob manejo orgânico, possui o maior número de propriedades (34,0% do total); enquanto a Oceania possui a maior área (42,9% do total) e o menor número de produtores (0,4%). Os países que apresentam uma maior percentagem de área sob manejo orgânico em relação à área total de agricultura são a Áustria (maior percentual entre os países da União Européia – 26,4%), a Suíça (10,27%), a Finlândia (7,22%) e a Itália (6,86%).

  No Brasil, a consolidação dos dados sobre agricultura orgânica carece de precisão, sendo a maioria das estimativas baseadas nas informações das certificadoras. Segundo uma destas estimativas, realizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a área com manejo orgânico no país, em 2002, era de 275,60 mil hectares, com a existência de 7.063 produtores certificados ou em processo de certificação que movimentam US$ 300 milhões ao ano. Esse estudo aponta a existência de 419 produtores de café legitimamente orgânicos (5,93%), envolvendo uma área plantada de 13.005,00 ha (4,82% do total) (Ormond et al., 2002). A maior parte (80%) da produção orgânica brasileira encontra-se nos estados do sul e sudeste. Em torno de 85% da produção orgânica brasileira é exportada, sobretudo para a Europa, Estados Unidos e Japão. Os restantes 15% são distribuídos no mercado interno (Darolt, 2002). Dados recentes apontam um crescimento vertiginoso da área com manejo orgânico no Brasil, passando, em 2005, para 803,18 mil hectares (a quinta maior área certificada do mundo), com 14.003 propriedades certificadas (Willer & Yussefi, 2005).

 

A transição para a cafeicultura orgânica

  Transição ou conversão são termos usualmente utilizados para denominar o processo de mudança do sistema de produção convencional para  orgânico, os quais, além de questões técnicas e educativas que a mudança tecnológica per si pressupõe, envolvem também questões normativas e de mercado, na medida em que está intimamente ligada ao processo de certificação (Feiden et al., 2002). O processo de certificação da produção de café orgânico, isto é, o processo de legitimação da produção, foi descrito em detalhes por Theodoro (2002) e Theodoro (2003).

  Segundo as normas brasileiras (BRASIL, 1999), para que o produto receba a denominação de orgânico, ele deverá ser proveniente de um sistema em que tenham sido aplicados os princípios estabelecidos pelas normas orgânicas, por um período mínimo para a produção vegetal de culturas anuais, com olerícolas e cereais, de doze meses sob manejo orgânico. No caso de culturas perenes, a propriedade deverá cumprir um período de conversão de dezoito meses em manejo orgânico. Para atender à legislação do mercado internacional, o prazo é mais dilatado, sendo 24 meses para culturas anuais e um período de conversão de 36 meses para culturas perenes. Entretanto, Darolt (2002) adverte que os períodos de conversão citados poderão ser ampliados pela certificadora em função do uso anterior e da situação ecológica da propriedade.

  Para Khatounian (1999), o período de conversão não deve ser entendido apenas como uma quarentena para a eliminação de resíduos de agrotóxicos, mas como um período necessário para a reorganização, a sedimentação e a maturação dos novos conhecimentos. É um reaprendizado da agronomia como ecologia aplicada à produção agrícola, que exige a reorganização dos fatos agronômicos sob um marco conceitual diferente (Khatounian, 2001).

  Vivan (1998) questionou a mudança de paradigma da agricultura convencional para a agroecologia, ressaltando não trata-se mais de apenas substituir o insumo externo por um menos danoso ao ecossistema e à saúde humana, ou de criar um eficiente organismo rural padrão. Trata-se de assumir alguns pontos fundamentais para a geração de tecnologias, como:

a) compreensão dos componentes da sucessão natural de espécies em cada ecossistema e de como este processo utiliza de modo ótimo os recursos no tempo e no espaço;

b) compreensão dos mecanismos de evolução interativa entre as comunidades vivas e o meio físico, criando as condições básicas para o desenvolvimento da vida (otimização de radiação, umidade e nutrientes);

c)conhecimento dos ciclos e padrões que refletem essas interações e como neles integrar as ações e interesses humanos, buscando otimizar nossa intervenção nos ambientes, e

d) fazer deste processo a matriz de um desenvolvimento tecnológico adaptado à escala humana, o que implica no reconhecimento da importância das particularidades de culturas e etnias e sua bagagem de interação com os ecossistemas.

  Com as recentes tendências ecológicas na agricultura, tanto o manejo agroflorestal quanto o manejo orgânico do cafeeiro constituem-se em tecnologias importantes para a recuperação dos solos degradados, que, durante muitos anos, foram submetidos ao manejo intensivo desta cultura (Alfaro- Villatoro et al., 2004). Por isso, é premente a necessidade de estudos sobre sistemas agroflorestais (SAF) com o cafeeiro, visando atender à demanda de cafeicultores convencionais que estão migrando para o sistema de produção de café orgânico, cujo mercado é altamente exigente em relação à qualidade de bebida (Theodoro et al., 2002; Malta et al., 2003) e diversificação das culturas (Moguel & Toledo, 1999; Soto-Pinto et al., 2000; Peters et al., 2003; Van der Vossen, 2005).

  No sul do México, em um estudo realizado por Moguel & Toledo (1999), em plantações de café, foram reconhecidos cinco tipos de sistemas de produção de café, distinguidos em concordância com o nível de manejo, a composição vegetativa e a estrutura dos extratos (SMBS, 2006). Os sistemas são:

a) sistema rústico: o café é plantado substituindo plantas que crescem no extrato baixo das florestas temperadas ou tropicais. Esse sistema corresponde a uma agricultura de subsistência e é adotado por grupos indígenas com práticas mínimas de manejo, sem uso de fertilizantes e agroquímicos e, como conseqüência apresenta baixo rendimento;

b) policultura tradicional: realizamse práticas agronômicas para manejo de café e manipulação da floresta, mediante a eliminação de árvores nativas e introdução de outras espécies. Estes sistemas são conhecidos como “coffee garden”;

c) policultura comercial: observa-se a exploração comercial de algumas das espécies utilizadas no sombreamento, como produtos alimentícios, madeiras, frutíferas, medicinais e ornamentais. Nestes sistemas, a floresta original pode ter sido removida completamente e predominam espécies para sombra com ou sem utilidade comercial, especialmente leguminosas combinadas com espécies para extração de madeira, látex, espécies frutíferas, como bananeiras, cítricos etc.;

d) monocultura consorciada com sombra: este sistema é caracterizado por uma plantação bem manejada agronomicamente, no qual o café é plantado em um espaçamento definido, sob um único extrato de sombra, com uma ou duas espécies arbóreas introduzidas especialmente para este propósito, e e) monocultura sem sombra: não apresenta nenhuma cobertura arbórea, os cafeeiros crescem expostos ao sol pleno. Representam um sistema totalmente agrícola, com alto ingresso de fertilizantes e pesticidas, uso de maquinaria e trabalho especializado. Embora produza os maiores rendimentos, este sistema está associado aos impactos negativos da agricultura intensiva, causando diminuição à diversidade biológica e, em longo prazo, provocando a depauperação do solo.

  Para avaliar a viabilidade financeira de investir na certificação ecológica de plantações de café já estabelecidas, Gobbi (2000) efetuou uma análise de custo-benefício sobre quatro diferentes sistemas agroflorestais e uma plantação de café cultivado a pleno sol. Em todos os casos, o autor encontrou uma relação custo-benefício aceitável, com menor risco para a policultura tradicional, uma  vez que este sistema privilegia a introdução das árvores nas lavouras cafeeiras. Além disso, os benefícios da certificação são obtidos a partir do segundo ano.

  Em agroecossistemas da América Central de café arábica, o café orgânico sombreado produz de 20% a 30% a menos que o café convencional sombreado e, em relação ao café convencional não sombreado, apresenta uma produção 40% menor. O ágio recebido pelo café orgânico é insuficiente para compensar a queda de produção e seu custo de produção é ligeiramente mais alto devido aos custos da certificação e inspeções de acordo com a International Federation of Organic Agriculture Movements (IFOAM). A renda líquida de fazendas de café orgânico é de 25% a 50% menor do que em fazendas convencionais, entretanto, ainda são muito lucrativas quando os preços do café estão altos (Van der Vossen, 2005).

  Um novo critério de certificação é caracterizado pelo “Comércio Justo” (Fair Trade), estabelecendo normas especiais para um comércio sustentável, principalmente em pequenas propriedades organizadas. As normas mais importantes são:

a) uma parte fixa do preço final é utilizada para programas sociais dentro da comunidade ou cooperativa de trabalhadores;

b) as relações de comércio são estabelecidas visando sua manutenção em longo prazo e

c) parte da receita é destinada diretamente aos produtores, de forma a torná-los mais independentes, sem necessitar da ajuda de créditos oferecidos por bancos que cobram, em geral, altas taxas de juros (Carvalho, 2002).

  Uma análise da produção de café orgânico foi realizada por Van der Vossen (2005), elucidando vários pontos críticos de todo o processo de produção e da filosofia da agricultura orgânica. O autor questiona esse sistema como sendo bastante complexo, apresentando um processo de certificação caro, ficando evidente que os produtores que praticam as rígidas regras da produção de café orgânico podem até compartilhar das mesmas preocupações ambientais de consumidores conscientes, mas sua grande maioria é motivada primeiramente  pelos benefícios econômicos advindos do ágil recebido. Não obstante, existe uma injustiça considerável entre as extremas normas para se produzir “orgânicos”, exigidas pelo consumidor urbano do mundo industrializado e a modesta recompensa recebida pelo grande esforço dos produtores de café orgânico. Assis & Romeiro (2004) analisaram os fatores econômicos e políticos que condicionam a evolução dos sistemas orgânicos de produção de café no Brasil, por meio de estudo de caso com agricultores ligados à Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil (ACOB), em Machado, MG. A estratégia de conversão a ser adotada está condicionada à realização de uma análise dos pontos fortes e fracos da propriedade, bem como da definição de aptidões, da experiência do agricultor, do tipo de mão-de-obra utilizada e do mercado.

  Nesse sentido, dois parâmetros são fundamentais: a forma de organização social da produção e o padrão tecnológico da unidade de produção no início do processo de conversão, os quais irão determinar, além da estratégia a ser adotada, a velocidade com que se processará a conversão e a inserção no mercado.

  É importante salientar que a produtividade após o período de conversão de todas as lavouras de agricultores empresariais e familiares apresentou valores compatíveis e até superiores às lavouras sob manejo convencional. Em relação ao ágio obtido no mercado de produtos orgânicos, esse apresenta uma variação entre 20% e 70% (média de 33%) e verifica-se que somente os empresários capitalistas conseguem obter ágio superior a 40%, situando-se os agricultores familiares na faixa de 20% a 40%. Isso reflete a dificuldade que a produção familiar de café orgânico encontra para se inserir nesse mercado altamente seletivo (Assis & Romeiro,2004).

 

Bases científicas do manejo orgânico em solos tropicais

  A base científica para as várias correntes de pensamento que caracterizam a “agricultura alternativa” em contraposição à agricultura convencional baseada nos princípios da “revolução verde”, tem sido buscada por meio da agroecologia, ciência em construção, que apresenta uma série de princípios e metodologias para estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas (Altieri, 1987). A agroecologia surge como conseqüência de uma busca de suporte teórico para as diferentes correntes de agricultura não industrial e, como resposta aos críticos destes movimentos, que os colocavam como uma tentativa retrógrada de volta ao passado na agricultura (Assis, 2005).

  Essa ciência resgata os conhecimentos tradicionais desprezados pela agricultura industrial, procurando utilizar o que há de mais avançado em ciência e tecnologia para criar agro ecossistemas sustentáveis e de alta produtividade,que apresentem características mais semelhantes quanto sejam possíveis às dos ecossistemas naturais (Gliessman, 2000).

 

Teoria da trofobiose

  A compreensão da natureza somente é possível num enfoque holístico observando ciclos, trabalhando com sistemas e respeitando as inter-relações e proporções. Tudo é interdependente. Com o enfoque temático-analítico que vem predominando na agricultura, perdeu-se a visão geral do sistema e, assim, aumentaram os problemas relacionados com a proteção das plantas, devido ao manejo inadequado dos solos, da natureza e do próprio controle desses problemas (Ghini & Bettiol, 2000). O surgimento de doenças iatrogênicas (as que ocorrem por causa do uso de agrotóxicos) é um exemplo de problemas que podem ocorrer devido à visão reducionista do sistema. Vários aspectos do surgimento de pragas e doenças em decorrência do uso de agrotóxicos são discutidos por Chaboussou (1987). Por exemplo, após a utilização de diversos insecitidas, como DDT, Carbaryl e numerosos fosforados, ocorrem proliferações de populações de ácaros vermelhos (Panonychus ulmi Koch) e ácaros amarelos (Eotetranychus carpini vitis, Dosse) (Chaboussou, 1969); pulgões (Smirnova, 1965; Michel, 1966) e cochonilhas após a utilização de fosforados ou clorados (Kozlova & Kurdyukov, 1964). O uso de um clorado em tratamento de solo (Luckmann, 1960) e de um fosforado (Savesco & Iacol, 1958) também induziram aumentos na população de lepidópteros.

  Esses fenômenos foram constatados envolvendo ácaros, pulgões e cochonilhas porque estes insetos mantêm-se sobre a planta durante toda a duração de seu ciclo evolutivo e, conseqüentemente, sua multiplicação não poderia passar despercebida. O mesmo não ocorre com certas ordens de insetos, como os lepidópteros, por exemplo, submetidos à metamorfoses que exigem o abandono do vegetal (Chaboussou, 1987). Alves et al. (2001) citaram que a maior parte dos insetos e dos ácaros fitófagos depende de substâncias solúveis existentes na seiva das plantas ou no suco celular, tais como aminoácidos livres e açúcares redutores, pois estes não são capazes de desdobrar proteínas em aminoácidos. Foi a partir da relação entre o estado nutricional da planta e sua resistência às doenças que Dufrenoy (1936) postulou que toda circunstância desfavorável ao crescimento celular tende a provocar um acúmulo de compostos solúveis não utilizados, como açúcares e aminoácidos, diminuindo a resistência da planta ao ataque de pragas e doenças.

  A partir disso, Francis Chaboussou formulou, em 1967, a teoria da trofobiose (a origem do termo provém do grego: “trofo” (alimento) e “biose” (existência de vida), ao afirmar que “a planta, ou mais precisamente o órgão vegetal, será atacado somente quando seu estado bioquímico, determinado pela natureza e pelo teor de substâncias nutritivas solúveis, corresponder às exigências tróficas da praga ou do patógeno em questão” (Chaboussou, 1969; 1972; 1980; 1985).

  Assim, toda planta estará vulnerável ao ataque de insetos, ácaros, fungos e doenças de modo geral, no momento em que em seu sistema metabólico estiverem presentes excessos de aminoácidos livres e açúcares redutores (proteólise). Toda ação ou interferência no metabolismo da planta de origem genética, fisiológica, climática e de manejo cultural, que estimulem a proteossíntese, geram resistência entomológica e fitopatológica no organismo vegetal. Em condições climáticas ótimas e de suprimento de nutrientes, estabelece-se uma condição de equilíbrio metabólico na planta que acaba induzindo a um equilíbrio biológico no ambiente. Seca prolongada, frio intenso, vento, desequilíbrio nutricional (deficiência ou excesso de nutrientes), compactação do solo e, principalmente, uso de agrotóxicos provocam estresse metabólico no organismo vegetal. Isso gera um desequilíbrio proteolítico, resultando em um excesso de aminoácidos e vulnerabilizando as plantas às pragas e doenças (D’andrea, 2001). Assim, a explicação para o aumento de pragas ou para os desequilíbrios biológicos nos agroecossistemas pode estar associada ao estado dominante de proteólise nos tecidos das plantas (Alves et al., 2001).

  Diante dessa constatação, verifica-se a grande importância de realização de estudos mais aprofundados sobre os efeitos da nutrição vegetal na suscetibilidade/resistência das plantas às pragas e doenças, pois ainda são incipientes as evidências científicas que confirmem a veracidade da teoria da trofobiose, principalmente em manejos tropicais. É conhecido que a fertilização de plantas apresenta efeitos positivos e negativos na incidência de pragas e doenças (Bortolli & Maia, 1994), enquanto Chaboussou (1987) e Primavesi (1988) ressaltaram a importância do equilíbrio nutricional para evitar doenças e pragas. As plantas produzidas em ambientes com excesso de agroquímicos apresentam-se desequilibradas nutricionalmente e vulneráveis ao ataque de doenças e pragas (Altieri & Nicholls, 1999).

  Archer et al. (1982) comprovaram que o aumento dos níveis de N em sorgo proporciona aumento na incidência de pulgões. Tem sido observado, em culturas como o arroz e a aveia, que, com o aumento da concentração de N solúvel na seiva das plantas, ocorre aumento do ataque de Sogatella furcifera e Sitobion avenae (Marschner, 1995). A redução do teor de K nas folhas de arroz e citros aumenta o ataque de S. furcifera (Marschner, 1995) e das cochonilhas Lepidosaphes beckii e Saissetia oleae (Chaboussou, 1987), provavelmente em função da elevação da concentração de aminoácidos livres (Marschner, 1995).

  A população de Orthezia praelonga em pomar de tangerina cv. Ponkan apresentou maior incidência nos tratamentos que receberam adubação nitrogenada e potássica (30,91%), enquanto que, em plantas que receberam somente adubação nitrogenada, verificou-se um grau de infestação de 13,50%. Isso demonstra uma maior tendência dos insetos por plantas quando os adubos são aplicados simultaneamente (Pinto et al., 1998; Azeredo et al., 2004). Bortolli & Maia (1994) relataram que embora a maioria dos trabalhos aponte para o efeito positivo do N no desenvolvimento de pragas, há resultados que indicam o contrário (Leite et al., 1999), bem como o efeito não significativo (Gonçalves et al., 2003).

  Em relação à cultura do cafeeiro existe uma grande lacuna a respeito da trofobiose e trabalhos são praticamente inexistentes. É consenso entre a comunidade científica que a incidência da cercosporiose, cujo agente causal é o fungo Cercospora coffeicola Berk & Cook, apresenta alta correlação com o estado nutricional das plantas e fatores climáticos. Além das condições climáticas, como umidade relativa alta, temperaturas amenas, excesso de insolação e déficit hídrico, qualquer condição que leve a planta a um estado nutricional deficiente ou desequilibrado favorece a doença (Carvalho & Chaulfoun, 2000). A ocorrência da doença e a suscetibilidade/resistência do cafeeiro cultivado nas várias regiões produtoras do Brasil podem ser explicadas pela teoria da trofobiose em trabalhos futuros, que visem elucidar a influência da nutrição mineral com fontes altamente solúveis e o uso de agrotóxicos x manejo orgânico do solo preconizado pela agricultura orgânica x condições climáticas na proteossíntese e proteólise do sistema metabólico dos cafeeiros.

  Na agricultura orgânica, os processos empregados no controle das pragas e doenças baseiam-se no equilíbrio nutricional (trofobiose), pelo melhor equilíbrio energético e metabólico do vegetal (Pinheiro & Barreto, 1996).

  O emprego de produtos que contenham microrganismos e seus metabólitos vem sendo amplamente difundido. Além de poder funcionar como indutores de resistência, podem atuar como promotores de crescimento (equilíbrio nutricional) e como protetores da planta, a exemplo dos entomopatógenos e fermentados microbianos (biofertilizantes líquidos). Este último pode atuar como repelente ou fagodeterrente (inibidores de alimentação) ou afetando o desenvolvimento e a reprodução das pragas. No entanto, faltam comprovações científicas a respeito dos efeitos do uso de biofertilizantes em diferentes cultivos, apesar de ser uma prática largamente difundida e utilizada na agricultura familiar e, principalmente, em lavouras cafeeiras (Alves et al., 2001).

  Os biofertilizantes são compostos bioativos, resíduo final da fermentação de compostos orgânicos, que contêm células vivas ou latentes de microrganismos (bactérias, leveduras, algas e fungos filamentosos) e por seus metabólitos, além de quelatos organo-minerais. Também podem ser definidos como sendo compostos biodinâmicos e biologicamente ativos, produzidos em biodigestores por meio de fermentação aeróbica e ou anaeróbica da matéria orgânica. Esses compostos são ricos em enzimas, antibióticos, vitaminas, toxinas, fenóis, ésteres e ácidos, inclusive de ação fitohormonal. Não existe fórmula padrão para a produção de biofertilizantes. No Brasil, a fórmula mais conhecida é o supermagro, que está sendo utilizado em culturas como as de maçã, pêssego, uva, tomate, batata, hortaliças em geral e no cafeeiro (Alves et al., 2001).

Rochagem

  O solo é o produto da ação integrada do clima e da biosfera, ao longo do tempo, influenciada por sua posição topográfica sobre uma rocha matriz. Esta rocha matriz é a fornecedora dos constituintes minerais que perfazem 46% da fase sólida do solo. A textura e a estrutura da rocha influenciam na velocidade do processo de formação do solo, enquanto que as composições mineralógica e química determinam a disponibilidade de nutrientes inorgânicos nos solos. Entretanto, como os nutrientes só podem ser assimilados pelas plantas quando estão na forma solúvel, o intemperismo é uma etapa fundamental nessa transferência. Diante do exposto, o conhecimento da mineralogia e da geoquímica das rochas facilita o entendimento sobre os processos naturais que determinam a ocorrência de solos férteis e pobres, além de ser uma ferramenta importante na escolha adequada das rochas a serem trituradas para aplicação no solo, visando à recomposição da sua fertilidade (Santos & Miedema, 2003).

  A rochagem tem como princípio básico a restituição ao solo de uma fração de minerais intemperizáveis que possa atuar como se fosse a fração silte de um solo jovem (reserva de nutrientes). Entretanto, o pleno aproveitamento destes minerais somente será possível com alta atividade biológica. Assim, em clima tropical e subtropical, a aplicação de farinha de rocha está atrelada ao manejo orgânico do solo e terá como parceiros a compostagem, a adubação verde, o mato roçado ou a cobertura morta. Nesse sentido, merece destaque o manejo do mato pela constante roçada de pomares e cafezais (Osterroht, 2003).

Atividade microbiana

  Nos sistemas agrícolas, a biota do solo é fortemente influenciada pelas práticas empregadas, como rotação de culturas, adubação, irrigação e sistemas de preparo do terreno e de proteção de plantas. Esta mesma biota, por outro lado, governa processos, como decomposição, mineralização e humificação da matéria orgânica, mobilização e imobilização de nutrientes, fixação biológica de nitrogênio atmosférico, agregação e estruturação e conseqüente conservação do solo, e a regulação de pragas e doenças (Assis, 2005).

  O manejo do solo com práticas que não agridam a biota e favoreçam a ciclagem de nutrientes é fundamental para a obtenção de plantas saudáveis, tais como: redução da mecanização do solo (plantio direto ou cultivo mínimo), uso preferencial de adubos verdes, plantas de cobertura, estercos e compostos (Primavesi, 1988; Altieri, 1991; Monegat, 1991; Patriquin et al., 1993, Altieri, 1994; Vandermeer, 1995; Matson et al., 1997; Yepsen Jr. 1997; Altieri & Nicholls, 1999). As demais práticas de manejo de agroecossistemas em sistema convencional, tais como a aplicação de agrotóxicos, e a mecanização excessiva do solo com máquinas, têm efeito direto e indireto no empobrecimento da microbiota do solo responsável pela ciclagem de nutrientes (Matson et al., 1997; Altieri & Nicholls, 1999). Os organismos formam a chamada matéria orgânica viva do solo.

  Quanto maior a biomassa de um solo, maior o seu potencial de estoque de nutrientes por meio do acúmulo destes nas células microbianas. Os nutrientes são liberados conforme degradação das células, devido à morte ou à predação por outros organismos (Coutinho et al., 2003).

  A biomassa microbiana, que apresenta um importante papel na ciclagem de nutrientes e agregação do solo, foi similar em solos manejados organicamente e convencionalmente. Fatores determinantes do resultado da biomassa microbiana são o tipo e a quantidade de material orgânico que regularmente  entra no ecossistema. Aparentemente, a baixa entrada de matéria orgânica na agricultura convencional é suplementada pelas grandes quantidades de exsudatos das raízes e resíduos de colheita (raízes e palhas) incorporados ao solo, provenientes de uma maior produtividade (Shannon et al., 2002).

  Bettiol et al. (2002), em sistemas de cultivo orgânico e convencional para as culturas do tomateiro (Lycopersicum esculentum) e do milho (Zea mays), registraram uma maior atividade microbiana avaliada pela evolução de CO2, mantendo-se superior no sistema orgânico, tendo, em determinadas avaliações, sido o dobro da evolução verificada no sistema convencional. No cafeeiro, foram registrados resultados significativos para biomassa microbiana em relação aos dois tipos de manejo, somente em relação à época chuvosa, que apresentou maiores valores (Theodoro et al., 2003c).

  Os fungos micorrízicos arbusculares (FMA) formam associações mutualísticas com a maioria das plantas e, sendo simbiontes obrigatórios, ocorrem de maneira generalizada nos ecossistemas. Eles aumentam a absorção de nutrientes pouco móveis no solo, como o fósforo por exemplo (Marschner & Dell, 1994), e a tolerância das plantas a doenças radiculares (Munyanziza et al., 1997), melhoram a estrutura do solo e aumentam a diversidade e a produtividade vegetal (Heijden et al., 1998).

  A simbiose micorrízica torna-se muito importante para o cafeeiro, pois este apresenta elevada dependência dos fungos micorrízicos arbusculares na fase de mudas em viveiros. Existem indícios de que, por meio do manejo adotado em lavouras já instaladas, é possível aumentar a diversidade de espécies e o potencial de inóculo natural do solo, diminuindo os efeitos negativos do monocultivo contínuo sobre a diversidade de espécies (Theodoro et al., 2003a).

  O manejo apropriado desta simbiose pode reduzir a utilização de fertilizantes e agrotóxicos, sendo sugeridas por Moreira & Siqueira (2002) algumas práticas de manejo, como:

a) fazer rotação de culturas e consórcios que  incluam espécies de plantas multiplicadoras de propágulos;

b) reduzir as aplicações de adubos solúveis ao mínimo necessário;

c) priorizar fontes nãosolúveis de fósforo (a micorrização é inibida por fosfato na solução no solo) e

d) reduzir ao mínimo a aplicação de agrotóxicos, principalmente os fungicidas.

Tecnologias de produção orgânica aplicadas à cafeicultura

Adubação orgânica

  Um novo conceito de fertilidade proposto por Khatounian (2001) chama a atenção para a sucessão da rocha nua até a floresta, e estabelece fertilidade como “a capacidade de um ecossistema gerar vida de forma sustentável, medida usualmente em termos de produção de biomassa”. Assim a fertilidade deixa de ser um atributo apenas do solo, passando para a esfera do ecossistema. O foco se amplia da camada superficial do solo para todo o perfil no qual as plantas se desenvolvem, indo desde as raízes mais profundas até o topo das plantas.

  Enquanto fertilidade natural é obra da natureza, acumulada pelo ecossistema original, a fertilidade dos agroecossistemas é uma criação humana, melhorada ou desgastada pelas mãos do agricultor (Khatounian, 2001).

  Uma concepção errônea e simplista dos princípios de uma agricultura verdadeiramente ecológica é o enfoque único na eliminação do uso de agrotóxicos e da adubação mineral altamente solúvel. A agricultura ecológica e orgânica desenvolve um caminho para incrementar a produtividade do sistema “solo-planta-animal”, por meio da compreensão profunda das relações do mesmo. Enquanto, na agricultura convencional, se entende a adubação como reposição de nutrientes, na agricultura orgânica é o fortalecimento da organização vital do organismo solo-planta (Scheller, 2003), respeitando as leis da fertilidade (lei da restituição, lei do máximo e do mínimo e lei dos rendimentos não proporcionais). Nesse sistema, sulfato de potássio e fosfato de  rocha não são empregados para a reposição de nutrientes, mas sim para estimular processos biológicos (Scheller, 2003).

  Nos últimos anos, tem aumentado o número de pesquisas que visam buscar critérios para avaliação da fertilidade e diagnose nutricional das plantas em sistemas orgânicos de produção de café (Ricci et al., 2002; Theodoro et al,. 2003b, 2003c; Partelli et al., 2005).

  Em trabalhos realizados em sistemas orgânicos, certos estercos têm sido utilizados como fonte de nutrientes para as plantas, principalmente o bovino e a cama de aviário. Entretanto, estudos demonstraram a necessidade de utilização de grandes quantidades desses materiais (Almeida, 1991; Oliveira, 2001), o que limita sua aplicação em virtude do reduzido número de criações conduzidas de acordo com os preceitos da agricultura orgânica. Araújo (2004), trabalhando em casa de vegetação obteve resultados para o melhor desenvolvimento do cafeeiro em formação, quando foi utilizado composto orgânico com a dosagem de 6,4 a 7,0 kg cova-1 associado ao biofertilizante “supermagro” nas concentrações de 14,45% a 16,83%. Guimarães et al. (1999) recomendam a adubação de covas de cafeeiros com 3,0 a 5,0 kg (ou 7,0 a 15,0 L cova-1) de esterco de curral, 1,0 a 2,0 kg (ou 1,5 a 3,0 L cova-1) de esterco de galinha, 0,5 a 1,0 kg (1,0 a 2,0 L cova-1) de torta de mamona ou 1,0 a 2,0 kg (5,0 a 10,0 L cova-1) de palha de café.

  O manejo do café orgânico registrou maior alteração nas características químicas do solo em relação ao convencional, apresentando incrementos no pH e nos valores de Ca, Mg, K, P, Zn, B, CTC do solo, SB, V% e diminuição do Al trocável (Theodoro et al., 2003b). Não é conhecida nenhuma evidência de que os processos fundamentais de ciclagem de nutrientes em manejo orgânico do solo sejam significativamente diferentes dos mesmos em solos manejados convencionalmente (Stockdale et al., 2002).

  A cidade de Finca Irlanda localizada no sul do México, no estado de Chiapas, é considerada uma das primeiras regiões do mundo a produzir café orgânico certificado, desde 1960, em 270,00 ha de lavouras cafeeiras moderamente sombreadas, apresentando 3.300 plantas ha-1. A lavoura produz, anualmente, uma média de 1.500 t de café cereja, que, após processadas rendem aproximadamente 250 t (0,93 t ha-1 ou 15,5 sacas de 60 kg ha-1) de café beneficiado. O composto é preparado a partir de uma mistura de resíduos do fruto do café (40%), resíduos de podas (10%), esterco bovino (20%), galhos de cana-de-açúcar (10%), casco e chifre de animais e farinha de peixe (5%), calcário dolomítico (5%), rocha fosfatada (5%) e algumas argilas. Anualmente é produzida uma quantidade de 1.000 t de composto para aplicação nas lavouras cafeeiras, na quantidade de 3,7 t ha-1 ou 1,1 kg planta-1. Essas 3,7 t ha-1 de composto podem fornecer, aproximadamente, de 60 a 75 kg de N, 8 a 10 kg de P e 75 a 85 kg de K ha-1 ano-1. As lavouras cafeeiras orgânicas sombreadas apresentam uma produção média de 0,93 t de café beneficiado ha-1 ano-1 (15,5 sacas de 60 kg) que requer uma entrada de 78 kg de N, 2 kg de P e 75 kg de K, visando manter o balanço nutricional requerido para sustentar um patamar médio de produção. Em Finca Irlanda, são encontrados níveis médios de nutrientes devido à utilização, no processo de compostagem, de 50% de resíduos do próprio cafeeiro (casca, pergaminho, palha e podas) produzidos dentro do organismo agrícola e a outra metade é oriunda de fontes externas de matéria orgânica (Van der Vossen, 2005). Kamala Bai et al. (2000) relataram os resultados de aplicações anuais de, aproximadamente, 5,0 t ha-1 de composto, na qualidade do solo e na produção de 43,00 ha de café arábica sombreado, produzido organicamente no sul da Índia.

  O composto foi preparado com resíduo de biogás (feito com esterco bovino e casca de café), esterco de carneiro e de galinha e fosfato de rocha. A calagem para corrigir o pH do solo é feita a cada 4 a 5 anos. A média de produção em nove  anos (de 1989 a 1998) foi de 1,18 t ha-1 de café beneficiado (19,67 sacas de 60 kg), em comparação a 1,32 t ha-1 (22 sacas de 60 kg) antes da conversão para a produção orgânica em 1989. A contribuição desse composto foi de 104 kg de N, 5 kg de P e 101 kg de K, no fornecimento de nutrientes. O solo estava em ótimas condições, apresentando um pH de 6,1; um teor de matéria orgânica de 5,9% na camada superficial (0-20 cm) e os outros nutrientes estavam em níveis adequados de acordo com as exigências do cafeeiro.

  Nos resultados obtidos por Moreira (2003) na busca de parâmetros que permitam a caracterização dos sistemas de café orgânico sombreado e a pleno sol, mostraram uma tendência de superioridade do sistema sombreado, principalmente quanto às maiores concentrações de K encontradas nos grãos, folhas e solo, que podem ter propiciado uma melhor qualidade do café deste sistema.

Adubação verde

  A adubação verde para a agricultura orgânica ou cobertura verde do solo abrange a utilização de plantas, não só as leguminosas, como também as gramíneas que formam a vegetação espontânea do agroecossistema, espécies florestais caducifólias naturais e ou introduzidas e outras espécies que funcionem em sistemas de rotação, sucessão ou consorciação com as culturas, para a formação de biomassa vegetal deixada na superfície do solo, visando à melhoria das características químicas, físicas e biológicas do mesmo.

  Apenas a ciclagem de nutrientes, na qual se inclui a fixação biológica de nitrogênio tem valor anual estimado em 17 trilhões de dólares (Constanza et al., 1997). O uso de adubos verdes, além de enriquecer o solo pela ciclagem de nutrientes por meio da fixação biológica, melhora a estrutura, incorpora matéria orgânica, reduz a erosão, aumenta a capacidade de retenção de água e diminui a incidência de invasoras. Adicionalmente, a adubação verde contribui para a  proteção das culturas, por estimular populações de espécies antagonistas aos fitoparasitas, além de poder servir como alimento para abelhas e como forragem para os animais de criação (Neves, 2005).

  Dentre outros benefícios, pode-se citar também a formação de ácidos orgânicos que aumentam a solubilização de minerais e intermediam o bombeamento de nutrientes de camadas mais profundas do solo, disponibilizando-os para espécies de plantas com sistema radicular superficial (González, 1980). A adubação verde vem se constituindo um excelente aporte de nitrogênio, matéria orgânica e de outros nutrientes ao sistema, além de proporcionar ao produtor orgânico uma menor dependência no uso de estercos e compostos.

  No cafeeiro, o nitrogênio (N) é considerado adequado quando o teor nas folhas estiver entre 2,6% a 3,0% (Guimarães et al., 1999). Para atingir tais teores, o cafeeiro exige aplicações de doses de N que variam de 175 a 400 kg ha-1 ano-1, para produzir entre 20 e 60 sacas ha-1. Considerando-se que a concentração de N nas fontes orgânicas disponíveis é baixa, as doses exigidas tornam-se elevadas, onerando os custos com transporte e mão-de-obra para sua aplicação. Por esta razão, o N pode ser considerado o nutriente mais limitante na cafeicultura orgânica (Ricci et al., 2002).

  Apesar dessa aparente limitação do manejo orgânico do solo no fornecimento de N a agroecossistemas de café orgânico, Theodoro et al. (2003c) realizaram um levantamento do estado nutricional de agroecossistemas certificados de café orgânico no estado de Minas Gerais e relataram a eficiência desse sistema no fornecimento de N às plantas, via compostos orgânicos, adubação verde, roçada de plantas espontâneas e cobertura vegetal permanente do solo.

  A capacidade de penetração no solo das raízes de leguminosas em profundidades não atingidas pelas culturas em geral tem sido verificada, sendo  que as raízes chegam, em média, a uma profundidade de 20 a 30 cm. Em experimento de campo conduzido em solo Podzólico (horizonte B textural com elevada densidade), o feijão-guandu foi a leguminosa com a maior capacidade de penetração de raízes (2,0 m) (Alvarenga, 1993). Ricci et al. (2002) avaliaram o efeito da adubação verde no estado nutricional e produtividade do café orgânico, utilizando o feijão-guandu (Cajanus cajan L.) plantado nas entrelinhas do cafeeiro (“Catuaí Amarelo” H- 2077-2-5-86), sob espaçamentos diferentes (2,0 x 1,0 m consorciado uma linha de guandú; 2,8 x 1,0 m consorciado com duas linhas de guandu e 3,6 x 1,0 m consorciado com 3 linhas de guandu) e não consorciado (2,8 x 1,0 m). O guandu permaneceu na área experimental durante 26 meses, tendo, após a colheita do café, sido cortado e deixado sobre o solo. A maior produtividade foi observada no tratamento mais adensado, apresentando 10,59 sacas de café (saca de 60 kg de café beneficiado) e no tratamento a pleno sol (2,8 x 1,0 m), com 12,01 sacas.

  A adubação verde com guandu aumentou significativamente o teor de N na parte aérea dos cafeeiros, proporcionando teores acima do nível crítico estabelecido para o cafeeiro.

 

Manejo ecológico de pragas (MEP)

  O manejo ecológico de pragas (MEP) tem como finalidade o manejo de agroecossistemas de forma compatível com a natureza, incorporando as informações ecológicas básicas ao manejo integrado de pragas (MIP). Na verdade, o MIP tem sido usado sem que se tenha conhecimento pleno das interações ecológicas envolvidas no agroecossistema e, assim, utiliza-se de medidas terapêuticas de controle, sem saber, realmente, quais são os motivos que levaram determinados insetos a atingir o status de praga e como agem os agentes limitantes do crescimento populacional desses insetos (Venzon et al., 2001).

  Os mesmos autores citaram, como estratégia de MEP, a manutenção da  vegetação natural adjacentes às lavouras cafeeiras, ou, quando possível, dentro deles. A conservação de mata nativa próxima a áreas de cultivo contribui para a conservação e o aumento de vespas predadoras que nidificam nesta vegetação (Reis et al., 1984; Gravena, 1992; Reis et al., 2002). Outras estratégias para culturas perenes são a manutenção e o aumento da camada de folhas mortas que cobre o solo, visando ao fornecimento de locais para os inimigos naturais abrigarem-se durante a entressafra ou quando as condições ambientais são adversas (Venzon et al., 2001). Uma tática no manejo do bicho-mineiro (Leucoptera coffeella) pode ser o fornecimento de alimentação suplementar aos inimigos naturais (Ecole, 2003).

  A manipulação da diversidade de plantas pode ocorrer tanto dentro da área de plantio como em toda a extensão da propriedade, por meio do manejo de plantas daninhas, de faixas de vegetação, de cobertura verde (forrageiras e leguminosas), do consórcio de culturas, da mistura de variedades, de quebraventos e sistemas agroflorestais (Amaral et al., 2003).

  O aumento da diversidade de plantas associadas ao cafeeiro orgânico provocou aumento na taxa de predação de minas do bicho-mineiro do cafeeiro por vespas predadoras. No entanto, em sistema de café orgânico parcialmente sombreado, com a introdução de banana na linha de plantio, foi observado um decréscimo na predação de minas, possivelmente devido à maior dificuldade das vespas em localizar a praga (Amaral, 2003).

  Alguns estudos sobre métodos de controle e produtos de uso permitido para MEP na cafeicultura orgânica vêm sendo conduzidos, como a utilização de armadilhas para a captura de fêmeas adultas da broca-do-café, que empregam álcool etílico para atrair os insetos, cuja eficiência pode ser melhorada com a adição de óleo de café (Villacorta et al., 2001). O fungo Metharizium anisopliae é também um promissor agente de controle da broca-do-café. Segundo Leucuona et al. (1986), este fungo causou a mortalidade de 60% da praga, quando aplicado diretamente sobre os insetos ou indiretamente, nos grãos e nas folhas na concentração de 1,5 x 108 conídios mL-1. Estudos sobre a multiplicação massal e a eficiência do controle biológico da broca-do-café, utilizando o fungo Beauveria bassiana, vêm sendo desenvolvidos, mas já são encontrados no mercado produtos comerciais com cepas do fungo (Amaral et al., 2003).

  Dipieri et al. (2003) verificaram redução significativa da quantidade de frutos broqueados quando estes foram tratados com emulsão de óleo de nim (Azadirachta indica) e com extratos aquosos da semente e das folhas de nim, em relação aos frutos tratados com água. Em sistemas orgânicos, tem-se como método preventivo o controle cultural por meio da realização de uma colheita bem feita dos frutos, que se constitui em um dos métodos mais eficientes para o controle da broca-do-café (Reis et al., 2002).

  Em experimentos realizados na EPAMIG/CTZM, verificou-se o efeito positivo do óleo de nim (Azadirachta indica) na redução no número de minas de Leucoptera coffeella formadas, no tamanho das minas, no número de pupas formadas e na emergência de adultos (Rosado et al., 2003). Em plantas de cafeeiro tratadas com extrato de nim, foi observada redução na postura e na sobrevivência de ovos de L. coffeella (Martinez et al., 2001).

  Outros extratos de plantas também têm apresentado resultados promissores no controle de pragas do cafeeiro, como os extratos de folhas de chagas (ou sete-chagas), Tropaeolium majus e o de mentrasto (Ageratum conyzoides) (Amaral et al., 2003) apresentaram efeito inseticida sobre o bicho-mineiro, L. coffeella e a broca-docafé, H. hampei.

RESUMO DAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AKIBA, F.; CARMO, M.G.F. do; RIBEIRO, R. de L.D. As doenças infecciosas das lavouras dentro de uma visão agroecológica. Ação Ambiental, Viçosa, v.5, p.30-33,1999.

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CAPÍTULO 2

DESEMPENHO DO MANEJO ORGÂNICO NOS ATRIBUTOS QUÍMICOS E MICROBIOLÓGICOS DO SOLO, NA NUTRIÇÃO E NA PRODUTIVIDADE DO CAFEEIRO

RESUMO

  O experimento foi instalado em uma lavoura cafeeira anteriormente cultivada de forma convencional há seis anos, a qual foi submetida ao processo de transição para o sistema orgânico. Durante o primeiro ano de transição agroecológica avaliaram-se os efeitos dos manejos orgânico e convencional sobre os teores de macro e micronutrientes dos cafeeiros (C. arabica L.), nos atributos químicos (0-20 cm) e microbiológicos do solo e na produtividade. Empregou-se o delineamento látice balanceado 4x4 com cinco repetições em esquema fatorial 3x2x2 mais quatro tratamentos adicionais. Foram utilizadas três fontes de matéria orgânica (farelo de mamona, esterco bovino e cama de aviário), com e sem palha de café fermentada, com e sem a adubação verde com feijão-guandu (Cajanus cajan L.) nas entrelinhas do cafeeiro e pulverizações com o biofertilizante supermagro. O manejo convencional constou da aplicação de sulfato de amônio e o cloreto de potássio e de adubação foliar convencional.

  O manejo orgânico adotado é eficiente no fornecimento de N, P, K, S, Ca, Mg, Mn, B, Zn, Cu e Fe ao cafeeiro em produção. As melhores fontes de N para o cafeeiro são o farelo de mamona e a cama de aviário, enquanto que o esterco bovino apresenta maior eficiência no fornecimento de P. Os tratamentos de manejo orgânico apresentam produtividade similar à da testemunha convencional, devido à existência de reservas de nutrientes no solo. Não há diferença na biomassa microbiana, em função dos manejos orgânico e convencional, entretanto nos tratamentos de manejo orgânico é maior a diversidade biológica das populações de fungos micorrízicos arbusculares.

 

INTRODUÇÃO

  O crescente interesse pela conversão dos sistemas de café convencional para agroecossistemas orgânicos nos modelos de agricultura familiar e empresarial surge como uma motivação de compradores e consumidores preocupados com a degradação ambiental causada pela agricultura industrial, e, como incentivo à valorização social do trabalhador rural. Assim, para os produtores tradicionais, constitui-se numa alternativa para diversificar e tornar mais sustentável a produção de café, mediante a disponibilização de tecnologias validadas pela ciência.

  Dois pontos extremamente favoráveis para a conversão de sistemas de produção de café convencional para a cafeicultura orgânica, especialmente voltada para pequenos produtores, são a mão-de-obra familiar e as possibilidades de organização das comunidades na forma de associações e cooperativas. A prática dos princípios da agroecologia em pequenas propriedades demanda menor quantidade de insumos orgânicos, cuja maior parte pode ser gerada dentro do organismo agrícola. Além disso, a agricultura familiar apresenta aptidão para se conseguir um café de alta qualidade a partir de um processamento pós-colheita adequado, agregando valor por meio da certificação orgânica e do comércio justo (fair trade).

  Como toda mudança de paradigma, a conversão de lavouras cafeeiras convencionais está sendo realizada gradativamente, ao longo das últimas décadas no Brasil e no mundo. Ainda existem muitos pontos a serem elucidados, como a concepção, por parte de alguns produtores e cientistas, de que o manejo orgânico do solo não consegue suprir as necessidades nutricionais dos cafeeiros, afetando drasticamente a produtividade. Assim, fica implícita a idéia de que, por meio de estudos envolvendo a atividade microbiana do solo, trofobiose e  biodiversidade vegetal por meio, por exemplo, da adoção da adubação verde nas entrelinhas dos agroecossistemas cafeeiros, estes podem ser manipulados para se alcançar uma produtividade sustentável, com menos insumos externos e impactos negativos ambientais e sociais.

  Diante disso, foram avaliados após o primeiro ano de transição agroecológica da lavoura cafeeira, os efeitos do manejo orgânico na qualidade do solo, por meio da avaliação da fertilidade na camada superficial, da quantificação da biomassa microbiana e da identificação de fungos micorrízicos arbusculares presentes no sistema radicular dos cafeeiros.

  O estado nutricional dos cafeeiros foi relacionado à produtividade da lavoura, com o objetivo de analisar a eficiência no fornecimento de nutrientes dos tratamentos de manejo orgânico em comparação à testemunha convencional.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Descrição da área de estudo

  O trabalho foi desenvolvido no município de Lavras, MG, cujo clima é Cwa, na classificação de Köppen, com médias anuais para precipitação de 1.530 mm e temperatura de 19,4º C (Brasil, 1992).
  A área de estudo localizada na Fazenda Baunilha, constituiu-se de um talhão de café implantado num Latossolo Vermelho distroférrico, ocupado com cafeeiros com idade de 6 anos, espaçamento 4,0 x 0,7 m (4.167 plantas ha-1) e
cultivar Catuaí Amarelo (IAC H2077-2-5-86) em uma área de 2,02 ha. A área das parcelas orgânicas foi de 1,61 ha (80 parcelas) e a testemunha (20 parcelas convencionais em uma área de 0,41 ha) estava localizada dentro do mesmo talhão, apresentando a mesma cultivar e espaçamento, isolada por uma barreira vegetal de 20,0 m (constituída por 5 linhas de cafeeiros). Cada parcela continha 84 plantas, sendo 16 plantas úteis e 68 plantas de bordadura.
  A lavoura convencional recebeu adubações químicas com formulados NPK desde a sua implantação, de acordo com análises de solo e foliar, interpretadas segundo Guimarães et al. (1999). A palha de café proveniente da propriedade era aplicada todo ano e o controle de plantas espontâneas era realizado pelo método integrado (roçada mecânica e aplicação de herbicida sistêmico). A propriedade apresenta histórico de utilização de agrotóxicos para o controle de pragas e doenças em anos de alta ocorrência.

Descrição dos tratamentos

  Este estudo avaliou o uso de insumos permitidos e ou tolerados pelas normas da agricultura orgânica (Brasil, 1999), durante o primeiro ano de conversão da lavoura convencional para o sistema orgânico.

  O experimento foi instalado em agosto de 2004 e se encontra no segundo ano agrícola de condução. Neste trabalho foram utilizados os dados do primeiro ano de conversão (de agosto de 2004 a dezembro de 2005). O delineamento usado foi o látice balanceado 4x4, com cinco repetições. Dos dezesseis tratamentos (Tabela 1), doze caracterizam um fatorial 3x2x2, que corresponde a três fontes de matéria orgânica (esterco bovino, cama de aviário e farelo de mamona) aplicadas superficialmente na projeção da copa do cafeeiro, com ou sem compostagem laminar feita com a aplicação de palha de café (2,0 L planta-1) sobre as fontes de matéria orgânica e com ou sem adubo verde (Cajanus cajan L.) nas entrelinhas (Figura 1). Os quatro tratamentos adicionais avaliaram o uso do esterco bovino + moinha de carvão + sulfato duplo de potássio e magnésio; a rochagem utilizando a farinha de rocha Itafértil na dose de 2,08 t ha-1 (500 g planta-1) + farelo de mamona + palha de café; o uso da palha de café fermentada (20,0 L planta-1) e do adubo verde feijão-guandu (Cajanus cajan L.) plantado nas entrelinhas do cafeeiro como únicas fontes de adubação. Todos os tratamentos de manejo orgânico receberam, como fonte de adubação foliar, o biofertilizante supermagro e, nas parcelas convencionais, foi aplicada adubação foliar convencional com Niphokam (Quimifol) (10% N; 8,0% P2O5 solúvel em CNA + água; 8,0% K2O; 0,5% Mg, 1,0% Ca; 2,0% S, 1,0% Zn; 0,5% B; 0,1% Fe; 0,1% Mo; 0,2% Cu e 0,5% Mn ) na dose de 1,0L 400L-1 calda-1 ha-1.

  O cálculo da quantidade de adubos orgânicos foi feito de acordo com Furtini Neto et al. (2001), conhecendo-se o teor de nutrientes no fertilizante orgânico sólido com base na matéria seca e o índice de conversão da forma orgânica para a forma mineral (50%). Foi calculada a quantidade de fertilizante orgânico sólido a ser aplicada para atender à demanda de 170 kg ha-1 de N (de acordo com IBD, 2006) para culturas perenes, respeitando-se o número máximo de animais permitidos na fazenda por hectare, referente à deposição de

 

TABELA 1. Detalhamento dos tratamentos que caracterizam o manejo orgânico e convencional do cafeeiro. UFLA, Lavras, MG, 2006.

 

   Tratamentos de manejo orgânico                                                               Descrição

1. Esterco bovino (EB) + palha de café (PC)

(EB) 8,5 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta
2. Cama de aviário (CA) + palha de café (PC) (CA) 4,2 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1

3. Farelo de mamona (FM) + palha de café (PC)

(FM) 2,0 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1

4. Esterco bovino

(EB) 8,5 kg planta-1
5. Cama de aviário (CA) 4,2 kg planta-1

6. Farelo de mamona

(FM) 2,0 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1
7. EB + PC + adubação verde (AV)

(EB) 8,5 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1 e (AV) feijão-guandu (Cajanus cajan L.)

8. CA + PC + AV

(CA) 4,2 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1 e (AV) feijão-guandu (Cajanus cajan L.)

9. FM + PC + AV

(FM) 2,0 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1 e (AV) feijão-guandu (Cajanus cajan L.)

10. EB + AV

(EB) 8,5 kg planta-1; (AV) feijão-guandu

(Cajanus cajan L.)

11. CA + AV

(CA) 4,2 kg planta-1; (AV) feijão-guandu

(Cajanus cajan L.)

12. FM + AV

(FM) 2,0 kg planta-1; (AV) feijão-guandu

(Cajanus cajan L.)

13. EB + PC + moinha de carvão (MC) + sulfato duplo de K e Mg (SKMg)

(EB) 8,5 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1; (MC) 500 g planta-1; (SKMg) 110 g planta-1

14. FM + PC + farinha de rocha (FR)

(FM) 2,0 kg planta-1; (PC) 2,0 L planta-1 e(FR) 500 g planta

15. PC

(PC) 20 L planta-1

16. AV (AV) feijão-guandu (Cajanus cajan L.)

(AV) feijão-guandu (Cajanus cajan L.) Adubação foliar biofertilizante supermagro a 5% (3 aplicações a partir de dezembro de 2004)

Controle de plantas daninhas

roçada mecânica, enxada

Testemunha Convencional

Descrição

A dubação química em quatro parcelamentos (de novembro de 2004 a fevereiro de 2005) 300 kg N – sulfato de amônio (20% N) e 150 kg K2O – cloreto de potássio (58% K2O)

Adubação foliar

Controle de plantas daninhas

300 kg N – sulfato de amônio (20% N) e150 kg K2O – cloreto de potássio (58% K2O) Niphokam (Quimifol) (3 aplicações a partir de dezembro de 2004)

roçada mecânica, Glyphosat

 

 
FIGURA 1. Croqui representativo do delineamento látice balanceado 4x4 com cinco repetições, composto por dezesseis tratamentos que caracterizam o fatorial 3x2x2 mais quatro tratamentos adicionais, testados na área experimental localizada na Fazenda Baunilha. Lavras, MG.

dejetos, de acordo com a área total útil da propriedade. O esterco bovino foi comprado de pequenos produtores rurais e a cama de aviário de um aviário localizado no município de Lavras, MG. Somente o farelo de mamona foi adquirido de uma empresa de São Paulo. A moinha de carvão foi conseguida na UFLA, junto ao Departamento de Ciências Florestais e a palha de café utilizada foi proveniente do Setor de Cafeicultura da UFLA e da área experimental. Os complementos minerais utilizados, como, por exemplo, para fornecimento de K (sulfato duplo de K e Mg) e a farinha de rocha, foram submetidos ao processo de compostagem laminar e os macro e os micronutrientes (biofertilizante supermagro) passaram pelo processo de fermentação até atingir a sua estabilização biológica sob anaerobiose. Como a quantidade de N fornecida pelo uso de adubos orgânicos provenientes de fora da propriedade não deve ser maior que a aplicada com o uso dos adubos orgânicos produzidos dentro da propriedade, foi testado o adubo verde (C. cajan L.) nas entrelinhas do cafeeiro.

  De acordo com a fórmula abaixo (Furtini Neto et al., 2001), as quantidades utilizadas dos adubos orgânicos foram: 8,5 kg de esterco bovino planta-1 totalizando 34,9 t ha-1 (35% umidade; C = 1,5% N; A = 170 kg ha-1 de N); 2,0 kg de farelo de mamona planta-1 totalizando 8,5 t ha-1 (20% umidade; C = 5%; A = 170 kg ha-1 de N) e 4,2 kg planta-1 de cama de aviário, totalizando 17,4 t ha-1 (30% umidade; C =2,8%; A = 170 kg ha-1 de N).

 

 

Em que:

 X = quantidade do fertilizante orgânico sólido aplicado ou a aplicar (kg ha-1)

 A = quantidade do nutriente aplicado ou a aplicar (kg ha-1)

 B = teor de matéria seca do fertilizante (%) C = teor do nutriente na matéria seca (%)

 D = índice de conversão para o N (50%)

  A palha de café fermentada foi aplicada superficialmente na projeção da copa do cafeeiro na dose de 2,0 L planta-1 (Guimarães et al., 1999) nos tratamentos 1, 2, 3, 7, 8, 9, 13 e 14 e em todas as parcelas convencionais, após a aplicação dos adubos orgânicos (esterco bovino, cama de aviário e farelo de mamona). Esse processo é chamado compostagem laminar, pois seu objetivo é a formação de uma lâmina constituída de um adubo orgânico colocado superficialmente sobre o solo (local de adubação) e, posteriormente, aplica-se um resíduo vegetal sobre ele, para que o processo de compostagem ocorra em condições de campo. Pode-se definir compostagem laminar como a compostagem feita diretamente no local de plantio, onde incorporam-se adubos orgânicos juntamente com resíduos vegetais e ou material verde existente no local (adubos verdes ou plantas espontâneas). A grande vantagem desse processo é que não é necessária a montagem das medas, que são obrigatórias na compostagem tradicional.

  Os teores de macro e micronutrientes dos diferentes insumos utilizados na adubação orgânica estão listados na Tabela 2.

  O sulfato de potássio e magnésio (SUL-PO-MAG: 22% K2O, 18% MgO ou 11% Mg e 22% S), que era anteriormente comercializado no Brasil como Kmag, é o mineral langbeinita, produto natural que não passa por processos químicos de preparo e nem de extração (Borges & Souza, 2005) certificado pelo IBD. Esse produto foi testado como um aporte adicional de K para o pequeno produtor, com o objetivo de avaliar seu desempenho na produtividade da lavoura e nas propriedades químicas e microbiológicas do solo. Como o teor de K do solo antes da implantação do experimento era médio (133,6 mg dm-3), de acordo com Guimarães et al. (1999) foi utilizada a dose de 100 kg.ha-1 de K2O (110 g planta-1). A moinha de carvão foi utilizada na dose empírica de 2,0 t ha-1 (500 g planta-1).

 
TABELA 2. Teores de nutrientes dos diferentes insumos utilizados. UFLA, Lavras, MG, 2006.

 

A formulação do biofertilizante utilizada foi a do supermagro adaptado à cafeicultura orgânica, de acordo com Pedini (2000), com uma diluição de 5%.

  Foram realizadas três pulverizações tratorizadas mensais (dezembro de 2004 a fevereiro de 2005). O referido biofertilizante foi preparado em uma caixa d’água de 1000 litros na quantidade de 600 litros. Foram utilizados para cada 200 litros os seguintes ingredientes: 40 kg de esterco verde e 1,0 kg de micronutrientes (sais café adicionados seis vezes a cada cinco dias) fornecidos pela Quimifol na forma farelada de nutrientes quelatizados contendo 10,0% Zn; 3,0% B; 5,0% Mg; 0,1% Mo e 7,0% S; 50 gramas de sulfato de Cu; 1,0 L de leite; 1,0 L de melaço; 2 potinhos de Yakult (produto comercial à base de leite fermentado composto por leite desnatado fermentado por Lactobacillus, utilizado com o objetivo de incrementar a atividade microbiana); 0,5 kg de calcário e 400 g de farinha de osso. Esses materiais foram fermentados anaerobicamente durante 30 dias, até atingir a sua estabilização biológica, sendo aplicados posteriormente nas parcelas orgânicas.
  A adubação verde foi feita em janeiro de 2005 e, de acordo com análise de solo coletado nas entrelinhas dos cafeeiros (vinte pontos no talhão inteiro perfizeram a análise composta) antes da instalação do experimento, o pH apresentou acidez média (5,9), não havendo indicação de calagem.

   O plantio do adubo verde feijão-guandu (C. cajan L.) nas parcelas orgânicas (tratamentos 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 16) foi feito com matracas nas entrelinhas dos cafeeiros em quatro linhas com espaçamento de 50,0 cm e na densidade de dez sementes por metro linear (utilizando-se 50% do espaço livre do café, de acordo com o espaçamento) segundo Chaves & Calegari (2001). O guandú permaneceu na