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A
QUALIDADE DOS ALIMENTOS ORGÂNICOS
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| Parte 1
Trabalho publicado em
08/05/03
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Moacir
Roberto Darolt
Engenheiro Agrônomo, Doutor em Meio Ambiente,
Pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR),
Ponta Grossa, C.Postal 129, CEP 84001-970,
Fone/Fax: (42) 229-2829. E-mail:
darolt@pr.gov.br
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Os
alimentos orgânicos são melhores para a nossa saúde? Embora
alguns estudos mostrem que o principal motivo dos consumidores na
aquisição de alimentos orgânicos seja a questão da saúde
pessoal e da família, a falta de estudos epidemiológicos
relacionando o consumo de produtos orgânicos com a saúde humana
faz com que, cientificamente, está questão ainda seja difícil
de ser respondida.
O
objetivo do artigo não é polemizar sobre o tema, mas mostrar que
a qualidade de um alimento precisa ser analisada sob diferentes
aspectos que possam dar indicativos da melhor escolha para os
consumidores.
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Qualidade:
Um conceito amplo
Para o Novo Dicionário Aurélio da Língua
Portuguesa, numa escala de valores, a qualidade permite
avaliar e, conseqüentemente, aprovar, aceitar ou recusar
determinado tipo de produto. Neste artigo a palavra
“qualidade” agrupa um certo número de aspectos importantes
para um entendimento global ou sistêmico do processo. Analisar e
comparar a qualidade nesta perspectiva é uma tarefa complexa, porém
permite uma maior probabilidade de acerto na escolha de um
alimento mais adequado à saúde humana.
Neste sentido, procuraremos analisar os alimentos
considerando aspectos referentes à saúde humana, à qualidade
agronômica, organoléptica, nutricional, sanitária e ambiental,
avaliando níveis de resíduos de agrotóxicos, irradiação de
produtos, entre outros.
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Saúde:
um estado de equilíbrio
Desde que abandonou a vida primitiva, o homem vem
modificando intensamente o ambiente em que vive. Nesse processo
houve alteração de hábitos alimentares pela introdução de
substâncias tóxicas, alimentos excessivamente processados,
irradiados, geneticamente alterados, além de consumo exagerado de
gorduras, açúcares e sódio (Tabela 1). Tudo com a finalidade de
melhorar a aparência, o sabor e, sobretudo, a capacidade de
conservação dos alimentos. Segundo PRETTI (2000), foram mudanças
realizadas paulatinamente, porém sem a consciência de que tais
atitudes poderiam ser nocivas à saúde.
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TABELA 1 – PADRÃO
DIETÉTICO DO HOMEM PRIMITIVO COMPARADO AO HOMEM MODERNO.
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HOMEM
PRIMITIVO
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HOMEM
MODERNO
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Alimentos integrais
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Excesso de alimentos refinados
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Alimentos ricos em fibras
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Alimentos pobres em fibras
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Alimentos ricos em nutrientes
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Alimentos empobrecidos em nutrientes
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Alimentos ricos em energia vital
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Alimentos pobres em energia vital
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Alimentos consumidos crus
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Alimentos na maioria processados pelo calor
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Menor teor de gordura saturada
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Alto teor de gordura saturada
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Ausência da adição de açúcar e sódio
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Excesso de açúcar e sódio
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Ausência de fermentos e antibióticos
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Excesso de fermentos e antibióticos
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Ausência de agrotóxicos e aditivos químicos
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Excesso de agrotóxicos e aditivos químicos
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FONTE: PRETTI (2000)
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Em verdade, a alimentação moderna tem conduzido não
apenas a um desastre na saúde humana, mas também a uma série de
problemas ambientais. Hipócrates já dizia que “as doenças
atacam as pessoas não como um raio em céu azul, mas são conseqüências
de contínuos erros contra a natureza”. Algumas formas de
Medicina Alternativa e a milenar Medicina Chinesa consideram a saúde
como um estado de equilíbrio. De acordo com PRETTI (2000) um
organismo, quando em equilíbrio, dificilmente adoece e, quando
adoece, recupera-se com mais facilidade. Se a carência é nociva,
o excesso também o é. Portanto, o princípio do equilíbrio,
fundamento básico da Medicina Ortomolecular, deve ser resgatado.
Uma alimentação de qualidade não só previne, como é um
poderoso recurso terapêutico. Portanto, qualquer proposta terapêutica
deve considerar o homem, seu ambiente, seus hábitos e sua
qualidade alimentar.
A busca da qualidade alimentar está se tornando uma
das principais preocupações dos consumidores conscientes.
Atualmente, as motivações para o consumo de alimentos orgânicos
variam em função do país, da cultura e dos produtos que se
analisa. Todavia, observando países como Alemanha e Inglaterra (WOODWARD
& MEIER-PLOEGER, 1999), Austrália (PEARSON,1999), Estados
Unidos (HENDERSON, 1999), França (SYLVANDER, 1998), Dinamarca e
Noruega (DUBGAARD & HOLST, 1994; SOGN et. al., 2002),
Polônia (ZAKOWSKA-BIEMANS, 2002) e Costa Rica (AGUIRRE &
TUMLTY, 2002) percebe-se que existe uma tendência de o consumidor
orgânico privilegiar, em primeiro lugar, aspectos relacionados à
saúde e sua ligação
com os alimentos, em seguida ao meio ambiente e, por último, à questão do sabor e
frescor dos
alimentos orgânicos.
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No Brasil, a principal motivação para compra de
alimentos orgânicos também está ligada à preocupação com a
saúde. Uma pesquisa encomendada pelo SEBRAE-PR e realizada pelo
DATACENSO (2002) nos estados do Sul e Sudeste do Brasil mostrou
que os principais motivos que levaram a consumir os alimentos orgânicos
foram: em 1o lugar e 2o lugar, faz bem a
saúde/saudável; em 3o lugar, sem agrotóxicos,
em 4o lugar, mais sabor; e em 5o
lugar, natural e qualidade do produto. Segundo a mesma
pesquisa, hoje, quem consome os alimentos orgânicos são adultos
e idosos pertencentes às classes sociais A e B.
É importante destacar que o desafio de levar o
alimento orgânico para as outras camadas da população não está
relacionado apenas aos aspectos técnicos (produção em
quantidade, qualidade, regularidade e diversidade) e econômicos
(preços competitivos aos produtos convencionais), mas também aos
aspectos políticos e sociais.
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QUALIDADE AGRONÔMICA
O modelo convencional de agricultura já mostrou ser
insustentável para o meio ambiente, para os agricultores e
consumidores. Problemas de erosão, baixa produtividade das terras
e culturas, doenças como vaca-louca, febre aftosa e contaminação
por dioxina fizeram com que a opinião pública prestasse mais
atenção para onde caminha nossa alimentação.
Vários estudos têm mostrado que os agricultores orgânicos
que seguem um enfoque agroecológico conseguem resultados satisfatórios
em vários aspectos ligados à sustentabilidade (DAROLT, 2002). O
selo de qualidade orgânico é um indicativo de que os alimentos
foram produzidos e processados de acordo com as normas orgânicas,
o que significa um adicional em termos de qualidade agronômica
quando comparado ao alimento convencional.
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QUALIDADE ORGANOLÉPTICA
Vários fatores podem influenciar no sabor e aroma de
um produto agrícola como, por exemplo, a variedade utilizada, o
tipo de solo e clima, o ano climático e o modo de produção (orgânico
ou convencional). No tocante à qualidade alimentar foram
encontrados poucos estudos de longo prazo que mantiveram
controladas as variáveis supracitadas. WEIBEL et. al.
(1998) em estudo com bom controle de variáveis externas realizado
na Suíça, compararam maçãs da cultivar “Golden Delicious”
e avaliaram parâmetros de qualidade física e química. Os
resultados mostraram que para a maioria das variáveis analisadas
houve similaridade entre os sistemas orgânico e convencional,
sobretudo em relação à qualidade visual do produto. Entretanto,
os autores destacam que as frutas orgânicas apresentaram
significativamente valores mais favoráveis para alguns aspectos:
31,9% mais fósforo nas frutas frescas; 14,1% mais firmes (tempo
de armazenamento 12% superior); 8,5% mais fibras; 18,6% mais
compostos fenólicos (maior proteção natural ao organismo);
15,4% superior num teste de qualidade que avalia sabor e aroma,
firmeza da polpa e casca; quantidade de suco e conteúdo de açúcar.
Por outro lado, os autores não constataram diferenças
significativas entre maçãs orgânicas e convencionais para os
teores de vitaminas.
De forma geral, os estudos comparativos que focam a
qualidade organoléptica estão ainda em estágio inicial e
mostram resultados variáveis, o que não nos permite afirmar -
neste momento – que existam diferenças estatisticamente
significativas entre o sabor e aroma de produtos orgânicos e
convencionais.
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QUALIDADE NUTRICIONAL
A maioria dos estudos sobre a qualidade nutricional de
alimentos orgânicos e convencionais faz comparativos de teores de
nutrientes e outros elementos entre os dois sistemas, entretanto são
praticamente inexistentes os estudos de cunho epidemiológico que
fazem uma associação com a saúde humana.
A comparação é difícil de ser realizada quando
pensamos no ser humano, pois os hábitos de consumo e estilos de
vida de consumidores orgânicos e convencionais também são
diferenciados. Provavelmente, consumidores orgânicos que
apresentam hábitos de vida mais saudáveis (DAROLT, 2002;
CERVEIRA & CASTRO, 1999) – de forma geral – teriam uma saúde
mais equilibrada. Numa
visão sistêmica ou mais ampliada desta questão, poderíamos
dizer que os benefícios dos alimentos orgânicos podem não estar
diretamente associados à questão nutricional em si, mas a mudança
de hábitos alimentares e estilo de vida desse tipo de consumidor,
que é sabidamente mais informado.
Segundo WILLIAMS (2002) um número
limitado de estudos, com bom controle de variáveis, comparou as
composições de nutrientes produzidos organicamente e
convencionalmente e um número ainda menor pesquisou produtos de
origem animal. Na tabela 2 foram compilados
quantitativamente os principais estudos comparativos em termos
nutricionais. O que se observa, de forma geral, é uma tendência
na redução do teor de nitratos e aumento no teor de vitamina C
em alimentos produzidos organicamente. Para os demais nutrientes,
os estudos ainda não são conclusivos. No caso da produção
animal, apesar de poucos estudos, o que parece se confirmar é o
fato de que uma alimentação orgânica traz benefícios para saúde
animal refletindo-se, sobretudo, na área reprodutiva. Esta
constatação também foi observada por KOUBA (2002), que revisando alguns trabalhos, basicamente da Europa,
observou ainda que os produtos animais de origem orgânica
apresentam menor quantidade de resíduos de agrotóxicos,
medicamentos e antibióticos.
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NUTRIENTE
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AUMENTO
EM ORGÂNICOS
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IGUAL
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DECRÉSCIMO
EM ORGÂNICOS
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Proteína (qualidade)
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3
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0
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0
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Nitratos
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5
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10
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25
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Vitamina C
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21
|
12
|
3
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β -caroteno
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5
|
5
|
3
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Vitamina B
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2
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12
|
2
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Cálcio (ca)
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21
|
20
|
6
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Magnésio (Mg)
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17
|
24
|
4
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Ferro (Fe)
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15
|
14
|
6
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Zinco (Zn)
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4
|
9
|
3
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FONTE: WILLIAMS (2002)
- NOTA: Os valores são
referentes ao número de estudos encontrados na literatura que mostram
que houve um aumento, decréscimo ou valor semelhante para os nutrientes
pesquisados, quando comparados ao sistema convencional.
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Outro estudo de BOURN & PRESCOTT (2002) confirma
que, com a possível exceção do conteúdo de nitrato e do teor
de matéria seca mais elevado, não há nenhuma evidência forte
que alimentos orgânicos e convencionais diferem
significativamente em concentrações para a maioria dos
nutrientes pesquisados.
Em trabalho preparado para a Soil Association,
instituição de pesquisa da Inglaterra, a nutricionista inglesa
Shane Heaton, revisou cerca de 400 trabalhos científicos e
observou – de forma geral – efeitos positivos da alimentação
orgânica para a saúde humana. Todavia, segundo ADAM (2001), este
estudo não permitiu uma unanimidade científica sobre a questão,
pois alguns nutricionistas ainda permanecem céticos, pelo grande
número de variáveis que poderiam influenciar na análise.
No que concerne às substâncias que poderiam ter uma
função de proteção à saúde, como é o caso dos compostos fenólicos,
segundo DUCASSE-COURNAC et. al. (2001) e
REN et. al. (2001), a maioria dos estudos realizados mostra um
teor mais elevado em alimentos orgânicos. Todavia, os próprios
autores confirmam que é preciso mais pesquisa para validar esta
afirmação.
Em verdade, os parâmetros para determinação da
qualidade nutricional são multifatoriais, por isso condições de
solo, clima, variabilidade genética mesmo dentro de uma mesma
variedade, poderiam mostrar diferenças significativas entre o
modo de produção convencional e o orgânico.
Percebe-se que os estudos concernentes aos teores de
elementos nutritivos (vitaminas, minerais, etc.) ainda são pouco
conclusivos. Enquanto alguns mostram superioridade dos orgânicos,
outros mostram que não existe diferença. Por outro lado, temos
que destacar que, praticamente, não foram encontrados estudos que
mostram que o alimento convencional é superior ao orgânico.
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QUALIDADE SANITÁRIA
No que concerne a qualidade sanitária é importante
destacar pelo menos três pontos entre os dois sistemas: a
contaminação microbiana e parasitária; o teor de nitratos e os
resíduos de agrotóxicos.
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Contaminação Microbiana e Parasitária
Talvez um dos pontos mais questionado pelos críticos
da agricultura orgânica seja a contaminação causada pelo uso
intensivo de dejetos de animais no sistema orgânico.
Primeiramente, devemos lembrar que o uso de esterco também é
comum em sistemas convencionais. É fato que os dejetos de animais
mal tratados podem ser uma fonte de contaminação dos produtos e
do solo, tanto no sistema orgânico como no convencional.
Portanto, a utilização desses insumos naturais e as técnicas
para reduzir o risco de contaminação devem ser efetivamente
colocadas em prática nos dois sistemas.
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A maioria das pesquisas nesta área tem sido
desenvolvida para mostrar o tempo de sobrevivência de agentes
patogênicos nos dejetos animais, o modo de disseminação no
campo, assim como os tratamentos utilizados para diminuir ou
eliminar completamente esses agentes. Segundo KOUBA (2002) certos
agentes patogênicos, como o vírus da hepatite A, tem uma resistência
térmica mais alta que outros microorganismos. Assim, conforme
recomendam as técnicas de agricultura orgânica, um processo de
compostagem bem feito é imprescindível para diminuir o risco de
contaminação.
Para BOURN e PRESCOTT (2002), que revisaram vários
trabalhos sobre esta temática, não há nenhuma evidência que
alimentos orgânicos possam ser mais suscetíveis a contaminação
microbiológica que alimentos convencionais.
KOUBA (2002) revisando trabalhos que fizeram
comparativos entre produtos animais orgânicos e convencionais,
mostrou que mesmo aparecendo um número maior de parasitas
em condições de sistema orgânico, esses não são transmitidos
ao homem. O mesmo autor constatou que a possibilidade de
aparecimento da bactéria E. coli, que pode causar
contaminação humana por meio da carne contaminada, é mais baixa
em sistemas orgânicos, pois os animais se alimentam basicamente
de forragem. A explicação se dá pelo fato de que na alimentação
a base de grãos, característico de sistemas convencionais
intensivos, o risco de infecção dos animais seria maior. O mesmo
autor constatou ainda que no caso do leite também não houve
diferenças de contaminação microbiana entre sistema orgânico e
convencional.
As micotoxinas são toxinas produzidas por
certos bolores que podem se desenvolver em alimentos. A primeira
vista, pelo fato de ser interditado o uso de fungicidas sintéticos
no sistema orgânico, poderia haver uma maior possibilidade de
contaminação. Todavia, de acordo com KOUBA (2002), os estudos
realizados até o momento não permitem afirmar que em agricultura
orgânica esta contaminação seja maior. É importante sublinhar
que nos dois sistemas (orgânico e convencional) o uso de boas práticas
culturais e de estocagem dos alimentos permite reduzir o risco de
contaminação com micotoxinas.
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Teor de Nitrato
O aumento rápido
do teor de nitrato nas plantas é a conseqüência mais conhecida
do crescente aporte de adubos químicos nitrogenados, utilizados
na agricultura convencional, para aumentar rapidamente a
produtividade de hortaliças de folhas como a alface, couve, agrião,
chicória etc. Porém, o uso excessivo deste fertilizante
associado à irrigação freqüente, faz com que ocorra acúmulo
de nitrato (NO3-) e nitrito (NO2-)
nos tecidos de plantas. Outros elementos que contribuem para o acúmulo
de nitrato estão relacionados ao ambiente, fatores genéticos e
ao manejo utilizado. Sabe-se, por exemplo, que o nitrato acumula
mais em baixa luminosidade (dias nublados e curtos, no período de
inverno, em locais sombreados e pela manhã). Os fatores genéticos
são responsáveis pelas variações entre espécies e cultivares
expostas à mesma condição de cultivo. Por último, o sistema de
manejo (orgânico, convencional e hidropônico) pode causar alterações
nos teores de nitrato na planta.
O nitrato ingerido passa à
corrente sanguínea podendo, então, reduzir-se a nitritos. Estes
sim são venenosos, muito mais que os nitratos. Tornam-se mais
perigosos quando combinados com aminas, formando as nitrosaminas,
substâncias potencialmente carcinogênicas.
Tal reação pode realizar-se especialmente em meio ácido
do suco gástrico, ou seja, no estômago. Desta
forma, o monitoramento destas substâncias é essencial para
garantir a qualidade dos alimentos consumidos pela população.
Os resultados de uma pesquisa conduzida por
pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná/IAPAR (MIYAZAWA et.
al., 2001) - comparando o sistema orgânico (uso de compostos orgânicos
e estercos de bovino, como fonte de N), convencional (Uso de Uréia,
NO3- , NH4+, cama de
aviário como fonte de N) e
hidropônico (estando o N na forma de NO3- e
NH4+, fornecido em solução nutritiva) -
mostraram que o teor de nitrato nas folhas de alface variaram
entre 250 a 11.600 mg/kg, sendo que as folhas com menor concentração
de nitrato foram aquelas cultivadas em sistema de produção orgânico.
Os resultados, apresentados
na figura 1, mostram que cerca de metade das amostras de
alface cultivadas em sistema orgânico apresentou concentração
de nitrato menor que 1.000 mg/kg e apenas 25% das amostras
apresentaram teor superior a 3.000 mg/kg. Por outro lado, as
plantas cultivadas em sistema hidropônico apresentaram um
teor de nitrato mais elevado, sendo que 70% das amostras tinham
entre 6.000 e 12.000 mg/kg e apenas 3% das amostras tinham teor
inferior a 3.000 mg/kg. Quanto ao teor de nitrato nas alfaces
cultivadas em sistema convencional observou-se um nível intermediário
entre cultivo orgânico e hidropônico. Os autores concluíram que a
ordem do teor de nitrato nas folhas de alface varia da seguinte
forma: orgânico < convencional < hidropônico.
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FIGURA 1-
FREQÜÊNCIA DE CONCENTRAÇÃO DE NITRATO (N-NO3 -
) NAS FOLHAS DE ALFACE SEGUNDO DIFERENTES MÉTODOS DE
CULTIVO. VALORES EM
103 mg/kg, BASE SECA.
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(1994) do Instituto Pasteur de Lille, na
França, fez uma síntese de vários trabalhos e os resultados
apontam para reduções de nitratos de 69 a 93% para vários
legumes cultivados organicamente. Resultados semelhantes foram
obtidos em outros países como Áustria, Holanda, Suíça e
Alemanha, para cultivos de espinafre, cenoura e alfaces.
Apesar de alguns cientistas defenderem que os teores
de nitrato em plantas cultivadas no sistema convencional e hidropônico,
ainda permanecem dentro do limite permitido pela Organização
Mundial de Saúde (OMS), é preciso orientação mais adequada aos
produtores sobre o manejo do nitrogênio, sobretudo, em sistemas
hidropônicos, além de informação aos consumidores de como os
alimentos são produzidos em cada sistema, permitindo uma escolha
de produtos mais saudáveis.
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