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Quais
os gargalos do desenvolvimento da cadeia orgânica no Brasil?
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Os gargalos
existem e são bem diferentes de uma região para a
outra.Falarei evidentemente da situação do Nordeste que tem um
imenso potencial e que eu conheço bem.
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Hoje o IBD tem
somente 14 projetos certificados entre o Pará e a Bahia. É
muito pouco, e isto se deve a muitas causas. A primeira é a
pequena quantidade de consultores disponíveis, e
consequentemente os altos custos das visitas, por causa
principalmente das despesas de transportes. A segunda é a fraca
divulgação da agricultura orgânica, que afeta tanto os
produtores potenciais como o mercado que é quase inexistente no
Nordeste. A terceira é, sem dúvida, a dificuldade de conseguir
os financiamentos dos bancos oficiais. Ainda não há linhas
específicas definidas e a burocracia é enorme.
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No
sul do Brasil o crescimento é maior graças a atuação do
Banco do Brasil, muito positiva e construtiva, além de alguns bancos estaduais. Nota-se que a demanda existe para muitos
produtos, principalmente hortigranjeiros, e que a distribuição
é bastante bem organizada.
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E
quanto à comercialização dos orgânicos no Brasil, qual o seu
ponto de vista?
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O
que falta também é uma real rede de comercialização nacional
dos produtos orgânicos que garantiria um bom escoamento da
produção e pagando uns preços justos aos produtores.
Infelizmente sabemos que a comercialização dos produtos
orgânicos não é sempre feita desta maneira e que existem
associações e atravessadores que exploram os produtores. A
implantação de centros de transformação ou de
comercialização que trabalham praticando preços que refletem o
mercado e dentro de uma boa transparência, favorecerá o
crescimento da produção. |
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| A
produção orgânica em escala é um fato e a exportação é o
resultado... |
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Graças
ao nosso packing-house conseguimos mostrar que a exportação não
é uma fantasia ou um sonho, mas uma realidade e temos vários
produtores que se preparam para entrar em conversão ou implantar
novas áreas orgânicas no sertão paraibano.
Da mesma forma quando montei BioCrush na Bolívia, produzir soja
orgânica em Santa Cruz era o simples efeito de um idealismo
formidável, mas de uma rentabilidade dúbia por causa da
dificuldade da comercialização do produto. A partir da
instalação deste crushing plant, certificado pelo IBD, onde os
produtores foram associados, vendendo óleo de soja e exportando
farelo de soja para alimentação animal na Europa, estamos
arregimentando novos produtores ano após ano |
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Packing-house da Fazenda Tamanduá |
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Agora
uma coisa que me preocupa é que estamos produzindo para o mercado
de exportação, e não para a saúde dos nossos conterrâneos... |
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A
produção orgânica cresce aos saltos. A racionalização da
produção parece inevitável. O que alguns chamam de
"industrialização" da cultura orgânica já começou?
Este caminho é inevitável? |
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Sim
a industrialização começou, nos USA principalmente, e isto é
muito preocupante. Ainda não chegou no Brasil, mas esta chegando
e estamos correndo o risco de perder neste processo parte dos
nossos ideais, da nossa ética e a nossa "virgindade".
Como a agricultura convencional, a orgânica vai se transformar
paulatinamente numa agricultura intensiva, agressiva. Por causa de
uma oferta maior, os seus preços, atualmente compensatórios,
vão despencar e a competição será cada vez mais forte. Os
salários pagos vão cair, a renda do agricultor diminuir, e
talvez chegaremos a ver a aparição de um proletariado agrícola
orgânico. Um pesadelo... Precisamos ser atentos a esta
evolução, para resolver a questão social. Talvez somente
sobreviverá uma certificação do tipo Max Havelaar, que, apoiada
por consumidores conscientes e de bom poder aquisitivo, permitirá
de manter preços e salários mais altos, protegendo a nossa
agricultura e o nosso idealismo. |
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| Saindo
do geral ( Produção Orgânica Brasileira) para o particular,
qual a produção atual da Fazenda Tamanduá? |
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Com
27 hectares plantados, a Fazenda Tamanduá produz atualmente 250
toneladas de mangas orgânicas certificadas pelo IBD, das
variedades Tommy Atkins principalmente e Keitt no fim do ano.
Graças ao nosso packing house instalado na própria área,
estamos acondicionando mangas em caixas e pallets aqui mesmo para
serem exportadas para o mercado europeu via Natal, no Rio Grande
do Norte. A fiscalização é efetuada in loco pelo representante
do Delegado do Ministério da Agricultura na Paraíba. Os frutos
de descarte são desidratados na Fazenda, numa indústria
registrada e acompanhada pelo Ministério da Saúde. Por enquanto
são vendidos exclusivamente em São Paulo.
A
outra produção são os queijos orgânicos, de três tipos, dois
europeus, maturados, o Saint Paulin e o Reblochon, e um nordestino
o Queijo de Coalho. São perto 35 toneladas anuais. |
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O
queijo de coalho, tem mais saída na nossa região, onde a procura
é muito alta. A queijo, além de ter a certificação do IBD é
fiscalizado pelo SIF do Ministério da Agricultura, fato que o
acho ainda único no Brasil. |
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| E
como tem sido a demanda pelos queijos da Fazenda Tamanduá? |
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A
demanda dos queijos europeus orgânicos continua ainda
relativamente baixa, por causa da quase inexistência de um
mercado de laticínios orgânicos. Ainda não faz parte da cultura
nacional, e quem consome queijos "sofisticados" acha
melhor comprar queijos importados do que oriundo de leite
orgânico. O lançamento do Queijo de Coalho, recentemente
aprovado pelo Ministério da Agricultura, foi um sucesso, mais por
causa da sua embalagem, higiene e qualidade que por causa do apelo
orgânico. A demanda tem sido realmente maior do que a nossa
produção ! |
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Queijos
da Fazenda Tamanduá |
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| Quais
suas expectativas para a Associação Brasileira de Pecuária
Orgânica, da qual o sr. faz parte? |
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Como
já disse, somos pioneiros da pecuária leiteira orgânica no
Brasil, sendo os únicos a ter conseguido o registro no Serviço
de Inspeção Federal. Estamos, aliás, mantendo um ótimo
relacionamento e dialogo com todos os responsáveis deste órgão
público. |
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Quando recentemente Homero Figliolini, amigo de longa
data, fundou a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica, ele
me procurou para assumir a vice-presidência. Sensível ao convite
eu tive que recusar porque as minhas atividades na presidência de
AxialPar em São Paulo, e familiares na Europa, bem como a minha
longínqua residência não iriam permitir uma atuação
suficiente.
Acabei
sendo nomeado e eleito membro do Conselho Deliberativo, onde
pretendo exercer um papel sério. O mercado para este tipo de
atividade é imenso. Na Europa, o mercado dos laticínios esta
explodindo e a procura para carne orgânica esta começando. Tenho
até amigos suíços que estão procurando este tipo de produto
com alto valor agregado. Agora para um criador como eu, lascado no
sertão, com as minhas vacas produzindo exclusivamente por causa
do plantio sistemático de gramíneas e leguminosas resistentes a
seca, para o melhoramento artificial das áreas de pastagem,
ensilando e fenando para enfrentar os meses secos, irrigando com
água parca um capim de corte, esta história de boi verde criado
no pasto natural, nas imensidão do Pantanal mato grossense,
parece sonho (ou covardia !). |
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Gado
pardo-suiço da Fazenda Tamanduá |
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Voltando
ao sério, o grande desafio para os criadores da pecuária de
corte orgânica vai ser de conseguir por parte dos frigoríficos o
repasse de um preço que reflita a realidade do mercado. Eu não
acho que os 10 a 12% de preço extra pagos hoje seja suficiente
para manter um sistema de rastreamento perfeito dos animais.O bom
é de não ter medo dos desafios, e isto, garanto que não tenho ! |
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E
como é conciliar o produtor orgânico e o investidor do AxialPar? |
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Ao
contrario dos investidores tradicionais, eu também sou produtor,
o que me permite vivenciar os dois lados. Esta experiência nas
duas atividades me dá uma maior
sensibilidade e uma visão mais ampla, que garante aos investidos
um carinho e atenção reforçada. Mais isso é uma outra história… |
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