Na segunda parte desta entrevista, Pierre Landolt  fala  sobre os gargalos do desenvolvimento da cadeia orgânica no Brasil, a "industrialização" da cultura orgânica, a produção da Fazenda Tamanduá.

Quais os gargalos do desenvolvimento da cadeia orgânica no Brasil?

Os gargalos existem e são bem diferentes de uma região para a outra.Falarei evidentemente da situação do Nordeste que tem um imenso potencial e que eu conheço bem.

Hoje o IBD tem somente 14 projetos certificados entre o Pará e a Bahia. É muito pouco, e isto se deve a muitas causas. A primeira é a pequena quantidade de consultores disponíveis, e consequentemente os altos custos das visitas, por causa principalmente das despesas de transportes. A segunda é a fraca divulgação da agricultura orgânica, que afeta tanto os produtores potenciais como o mercado que é quase inexistente no Nordeste. A terceira é, sem dúvida, a dificuldade de conseguir os financiamentos dos bancos oficiais. Ainda não há linhas específicas definidas e a burocracia é enorme.

No sul do Brasil o crescimento é maior graças a atuação do Banco do Brasil, muito positiva e construtiva, além de alguns bancos estaduais. Nota-se que a demanda existe para muitos produtos, principalmente hortigranjeiros, e que a distribuição é bastante bem organizada.

E quanto à comercialização dos orgânicos no Brasil, qual o seu ponto de vista?

O que falta também é uma real rede de comercialização nacional dos produtos orgânicos que garantiria um bom escoamento da produção e pagando uns preços justos aos produtores. Infelizmente sabemos que a comercialização dos produtos orgânicos não é sempre feita desta maneira e que existem associações e atravessadores que exploram os produtores. A implantação de centros de transformação ou de comercialização que trabalham praticando preços que refletem o mercado e dentro de uma boa transparência, favorecerá o crescimento da produção.

A produção orgânica em escala é um fato e a exportação é o resultado...

Graças ao nosso packing-house conseguimos mostrar que a exportação não é uma fantasia ou um sonho, mas uma realidade e temos vários produtores que se preparam para entrar em conversão ou implantar novas áreas orgânicas no sertão paraibano.
Da mesma forma quando montei BioCrush na Bolívia, produzir soja orgânica em Santa Cruz era o simples efeito de um idealismo formidável, mas de uma rentabilidade dúbia por causa da dificuldade da comercialização do produto. A partir da instalação deste crushing plant, certificado pelo IBD, onde os produtores foram associados, vendendo óleo de soja e exportando farelo de soja para alimentação animal na Europa, estamos arregimentando novos produtores ano após ano

Packing-house da Fazenda Tamanduá

Agora uma coisa que me preocupa é que estamos produzindo para o mercado de exportação, e não para a saúde dos nossos conterrâneos...

A produção orgânica cresce aos saltos. A racionalização da produção parece inevitável. O que alguns chamam de "industrialização" da cultura orgânica já começou? Este caminho é inevitável?

Sim a industrialização começou, nos USA principalmente, e isto é muito preocupante. Ainda não chegou no Brasil, mas esta chegando e estamos correndo o risco de perder neste processo parte dos nossos ideais, da nossa ética e a nossa "virgindade". Como a agricultura convencional, a orgânica vai se transformar paulatinamente numa agricultura intensiva, agressiva. Por causa de uma oferta maior, os seus preços, atualmente compensatórios, vão despencar e a competição será cada vez mais forte. Os salários pagos vão cair, a renda do agricultor diminuir, e talvez chegaremos a ver a aparição de um proletariado agrícola orgânico. Um pesadelo... Precisamos ser atentos a esta evolução, para resolver a questão social. Talvez somente sobreviverá uma certificação do tipo Max Havelaar, que, apoiada por consumidores conscientes e de bom poder aquisitivo, permitirá de manter preços e salários mais altos, protegendo a nossa agricultura e o nosso idealismo.

Saindo do geral ( Produção Orgânica Brasileira) para o particular, qual a produção atual da Fazenda Tamanduá?

Com 27 hectares plantados, a Fazenda Tamanduá produz atualmente 250 toneladas de mangas orgânicas certificadas pelo IBD, das variedades Tommy Atkins principalmente e Keitt no fim do ano. Graças ao nosso packing house instalado na própria área, estamos acondicionando mangas em caixas e pallets aqui mesmo para serem exportadas para o mercado europeu via Natal, no Rio Grande do Norte. A fiscalização é efetuada in loco pelo representante do Delegado do Ministério da Agricultura na Paraíba. Os frutos de descarte são desidratados na Fazenda, numa indústria registrada e acompanhada pelo Ministério da Saúde. Por enquanto são vendidos exclusivamente em São Paulo.
A outra produção são os queijos orgânicos, de três tipos, dois europeus, maturados, o Saint Paulin e o Reblochon, e um nordestino o Queijo de Coalho. São perto 35 toneladas anuais.

O queijo de coalho, tem mais saída na nossa região, onde a procura é muito alta. A queijo, além de ter a certificação do IBD é fiscalizado pelo SIF do Ministério da Agricultura, fato que o acho ainda único no Brasil.

E como tem sido a demanda pelos queijos da Fazenda Tamanduá?

A demanda dos queijos europeus orgânicos continua ainda relativamente baixa, por causa da quase inexistência de um mercado de laticínios orgânicos. Ainda não faz parte da cultura nacional, e quem consome queijos "sofisticados" acha melhor comprar queijos importados do que oriundo de leite orgânico. O lançamento do Queijo de Coalho, recentemente aprovado pelo Ministério da Agricultura, foi um sucesso, mais por causa da sua embalagem, higiene e qualidade que por causa do apelo orgânico. A demanda tem sido realmente maior do que a nossa produção !

Queijos da Fazenda Tamanduá

Quais suas expectativas para a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica, da qual o sr. faz parte?

Como já disse, somos pioneiros da pecuária leiteira orgânica no Brasil, sendo os únicos a ter conseguido o registro no Serviço de Inspeção Federal. Estamos, aliás, mantendo um ótimo relacionamento e dialogo com todos os responsáveis deste órgão público.

Quando recentemente Homero Figliolini, amigo de longa data, fundou a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica, ele me procurou para assumir a vice-presidência. Sensível ao convite eu tive que recusar porque as minhas atividades na presidência de AxialPar em São Paulo, e familiares na Europa, bem como a minha longínqua residência não iriam permitir uma atuação suficiente.
Acabei sendo nomeado e eleito membro do Conselho Deliberativo, onde pretendo exercer um papel sério. O mercado para este tipo de atividade é imenso. Na Europa, o mercado dos laticínios esta explodindo e a procura para carne orgânica esta começando. Tenho até amigos suíços que estão procurando este tipo de produto com alto valor agregado. Agora para um criador como eu, lascado no sertão, com as minhas vacas produzindo exclusivamente por causa do plantio sistemático de gramíneas e leguminosas resistentes a seca, para o melhoramento artificial das áreas de pastagem, ensilando e fenando para enfrentar os meses secos, irrigando com água parca um capim de corte, esta história de boi verde criado no pasto natural, nas imensidão do Pantanal mato grossense, parece sonho (ou covardia !).

Gado pardo-suiço da Fazenda Tamanduá

Voltando ao sério, o grande desafio para os criadores da pecuária de corte orgânica vai ser de conseguir por parte dos frigoríficos o repasse de um preço que reflita a realidade do mercado. Eu não acho que os 10 a 12% de preço extra pagos hoje seja suficiente para manter um sistema de rastreamento perfeito dos animais.O bom é de não ter medo dos desafios, e isto, garanto que não tenho !

E como é conciliar o produtor orgânico e o investidor do AxialPar?

Ao contrario dos investidores tradicionais, eu também sou produtor, o que me permite vivenciar os dois lados. Esta experiência nas duas atividades me dá uma maior sensibilidade e uma visão mais ampla, que garante aos investidos um carinho e atenção reforçada. Mais isso é uma outra história…

Clique aqui para saber mais sobre a  Fazenda Tamanduá
www.fazendatamandua.com.br

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