A expansão da agroecologia como uma filosofia de vida

O aprofundamento técnico em agroecologia pode ser buscado tanto na teoria, pois já existe uma vasta bibliografia sobre o assunto, quanto nas experiências práticas de produção, consultorias técnicas e cursos. Em menor escala, diversas organizações não governamentais já trabalham com agroecologia e com vários anos de experiência, tratando-a muito mais como uma filosofia de vida do que simplesmente uma proposta técnica.

A função destas ONGs foi a de provar que a produção agropecuária pode ser agroecológica. Estão adiantados algumas décadas em relação a atuação governamental. Os dois setores que mais crescem na economia mundial atualmente são o de informática e o de alimentos orgânicos. Este cresce a uma taxa de 20 a 30% ao ano no mundo e 40% ao ano no Brasil.

A expansão da agroecologia é, portanto, uma megatendência e que revela novos paradigmas de manejo do solo e da produção. Sua consolidação é questão de tempo somente, o qual poderá ser maior ou menor, depende do grau de engajamento dos atores do processo de desenvolvimento agropecuário.

O movimento agroecológico no mundo já é bastante expressivo e desenvolve-se de forma organizada e não caótica, integrando produtores, comerciantes e consumidores num jogo aberto, de regras claras, onde não há perdedores ou explorados. Transparência é a palavra de ordem. Isto estimula a organização local e inclusive modifica as relações humanas, substituindo a competitividade pela complementariedade, confiança e colaboração mútua, melhorando o senso de eqüidade e conseqüentemente de justiça.

Atualmente a legislação que impede a livre produção e comercialização de sementes é um empecilho ao desenvolvimento da agroecologia. Justifica-se que é necessário garantir a pureza genética e sanitária das sementes. Estas preocupações são válidas para um sistema agrícola convencional, mas não tanto para um agroecológico que se fundamenta em base genética ampla, biodiversidade e equilíbrio ambiental.

A heterogeneidade genética do ponto de vista agroecológico é extremamente valiosa. As sementes oriundas de cultivos agroecológicos não atendem aos padrões estabelecidos para os uniformes campos de produção de sementes convencionais. Não se trata de descartar o trabalho de décadas de organização do setor sementeiro; trata-se apenas de adequá-lo também a novos processos de produção, com a vantagem da incorporação de anos de experiência do setor no controle de qualidade, excluindo-se aí os tratamentos de sementes com agrotóxicos e os transgênicos.

As mudanças deverão alcançar todo o "agrobusiness" a médio e longo prazos. Neste contexto será necessário repensar a utilidade das tecnologias agropecuárias atualmente validadas para os atuais modelos de produção bem como redirecionar o ensino, a pesquisa, a extensão e a mídia, já que a nova ordem mundial preconiza um baixo impacto ambiental.

A base tecnológica para uma agricultura sustentável passa pela agroecologia. Se este é o caminho para uma melhor qualidade de vida, então para se atingir uma escala maior e para que alimentos saudáveis sejam um direito de todos e não privilégio de poucos (atualmente a procura por produtos orgânicos é muito maior que a oferta, resultando em preços mais elevados), bem como para reverter a degradação ambiental, a adoção da agroecologia deve ser ampliada ao máximo e, portanto, empregada como política governamental.

Fonte: Miguel A. Altieri; Agroecologia Bases científicas para uma agricultura sustentable, 1999.

 


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