A cadeia produtiva para os produtos orgânicos

Geralmente os estudos de cadeias produtivas ou dos sistemas agroindustriais focalizam um único produto em uma determinada delimitação geográfica, e descrevem os agentes que fazem parte deste sistema (consumidor, atacado, varejo, agroindústria, produção primária e fornecedores dos insumos).

Com relação a utilização dos conceitos de cadeia produtiva para descrição dos diversos aspectos relacionados ao modo alternativo de produzir alimentos, denominado de agricultura sustentável, deve-se fazer-se alguns comentários sobre a aplicabilidade dessas metodologias da forma como sempre foram concebidas teoricamente.

O conceito de cadeia possui, definições bastante amplas, possuindo como característica principal a sua linearidade e sucessão de etapas, e o enfoque em determinados produtos finais ou matérias primas base. Com relação a estes aspectos faremos algumas considerações quanto as características da cadeia produtiva da agricultura orgânica.

A agricultura orgânica (ou as agriculturas alternativas) surgiram muito antes[1] do aumento da preocupação com os impactos ambientais por parte da opinião pública e atualmente fazem parte e contribuem para o que chamamos de desenvolvimento sustentável, possuindo em seu conceito[2] as diversas dimensões da sustentabilidade.

A partir disso, pode-se se realizar algumas inferências sobre as características da cadeia produtiva da agricultura orgânica:  

não utilizam insumos externos à propriedade, ou no máximo poucas quantidades de insumos orgânicos oriundos de sistemas orgânicos ou convencionais;  
as propriedades ecológicas funcionam como um organismo sistêmico, possuindo interações bastante diferenciadas da agricultura convencional. As complexas relações em um sistema agrícola alternativo são oriundos de práticas de diversificação de cultivos (policultivos), sendo estas um dos princípios básicos da agricultura ecológica;  
utilizam-se de práticas agrícolas de incremento e manutenção da fertilidade e atividade biológica do solo, bem como para a preservação da qualidade das águas e do ecossistemas em que produção está inserida;  
organização e comercialização conjunta de produtos orgânicos diretamente em feiras-livres e outras formatos varejistas, como o objetivo de proporcionar a integração entre produtores e consumidores finais, preferencialmente em mercados regionais.  


Estas características impactam diretamente sobre a delimitação de uma cadeia produtiva. Os insumos são produzidos internamente dentro da propriedade, conciliando-se com a utilização de práticas de otimização dos recursos biológicos, tais como a reciclagem de nutrientes, rotação e consórcios de culturas. Dessa forma não tem-se, pelo menos da mesma forma que no sistema convencional, um setor localizado a montada da cadeia, fora da propriedade, com indústrias fornecedoras de insumos orgânicos.

E finalmente as formas de comercialização e de inserção dos produtos no mercado fora da propriedade, possui um caráter de integração para frente o que torna as cadeias de alimentos orgânicos com características bastante específicas.

Fonte: Batalha, M. O. & Lago Da Silva, A. Gestão de Cadeias Produtivas: Novos Aportes Teóricos e Empíricos, 1999.



[1] As agriculturas alternativas pioneiras (orgânica, natural, biológica e biodinâmica) surgiram nas décadas de 20 e 30 em diversos países, muito antes dos conceitos de sustentabilidade.

[2] "É considerado  como sistema orgânico de produção agropecuária e industrial, todo aquele em que se adotam tecnologias que otimizem o uso de recursos naturais e sócio-econômicos, respeitando a integridade cultural e tendo por objetivo a auto-sustentação no tempo e no espaço, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energias não renováveis e a eliminação do emprego de agrotóxicos e outros insumos artificiais tóxicos, OGM/transgênicos, ou radiações ionizantes em qualquer fase do processo de produção, armazenamento e de consumo. Deve privilegiar a preservação da saúde ambiental e humana, assegurando a transparência em todos estágios da produção e da transformação, visando: a) a oferta de produtos saudáveis e de elevado valor nutricional, isentos de qualquer tipo de contaminantes que ponham em risco a saúde do consumidor, do agricultor e do meio ambiente; b) a preservação e a ampliação da biodiversidade dos ecossistemas, natural ou transformado, em que se insere o sistema produtivo; c) a conservação da condições químicas, físicas e biológicas do solo, da água e do ar; d) o fomento da integração efetiva entre agricultor e consumidor final de produtos orgânicos, e o incentivo à regionalização da produção desses produtos orgânicos para mercados locais.” Instrução Normativa, 07 de 17/05/1999 - MAA

 


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