Entrevista com Rui Manuel Tadeu, Engenheiro Agrônomo, 
ex presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica e
proprietário da Produtos Terra Sã – DouroFigo, Ltda.

Visita à região de Trás-os-Montes, Alijo, Portugal onde fica a empresa Terra Sã Ltda., propriedade do Sr. Rui Manuel Tadeu.

Engenheiro Agrônomo, Rui Tadeu  foi  presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica. Atualmente produtor, consultor e proprietário da Produtos Terra Sã – DouroFigo,Ltda, empresa produtora de azeite de oliva biológico, além de queijo de ovelha e outros derivados do leite.

PO- O Sr. foi presidente da Agrobio e trabalhou muito na questão da certificação; conte-nos um pouco sobre o processo da certificação aqui em Portugal .

RT - Acho que não se deve por todos os ovos no mesmo cesto, quer dizer que se uma pessoa produz, como ela própria iria certificar? Era juiz em causa própria. Não quer dizer que as pessoas não estejam de boa fé, mas entendo que se deve separar as águas. Foi mais adequado haver independência ... Os produtores podem criar as questões internas finais, porque já há uma assistência institucional em todas as empresas; todos os ramos deste setor que elegem uma comissão tem obrigação de defender os produtores. Mas, deve haver uma empresa reconhecida, com know-how, com capacidade técnica reconhecida formalmente, quer pela região, quer pelo país.

É a melhor forma para garantir ao consumidor e penso que se deve visar, em primeiro lugar , que o consumidor esteja satisfeito. Os consumidores satisfeitos voltam a comprar aquele produto. Se ficarem insatisfeitos, não compra.Temos também a questão do desconhecimento do que é um produto da agricultura biológica ou do conhecimento não muito eficiente. Temos um plano de preços: não é somente a diferença de preços para cima que inibe o consumidor de chegar às prateleiras. Ele não está informado e vê um produto convencional e pensa "mas aquilo é azeite também, aquilo é cereja, aquilo é manga" ou lá o que quiser. Existe uma grande falta de informação do consumidor, temos que tomar uma atitude por uma questão de cultura junto do consumidor.

PO – No Brasil alguns representantes do movimento da agricultura orgânica (ou biológica como se fala na Europa) crêem que o processo de certificação que está sendo implantado onera demais o produtor. O que você acha sobre isto? O custo de certificação para vocês é alto?

R.T - Eu não conheço o que está a passar no Brasil em termos de tabelas e sei que vocês também funcionam de uma maneira diferente, com menos apoio que nós aqui temos ,para quem pratica a agricultura biológica. Não sei se no Brasil existe apoio específico de estatais para fazer este tipo de agricultura. Não sei se há.

PO - O Banco do Brasil, que é o maior banco no país, tem um programa específico que se chama BB Orgânico, oferecendo financiamento.

RT - Nós aqui, pelo fato de praticar a agricultura biológica, temos uma medida que chamam de "medidas agroambientais" e temos uma majoração pelo fato de praticarmos esta agricultura e que isto nos permite ter uma maxi valorização destes custos que são custos importantes, Mas também temos empresas de certificação que realmente tem capacidade técnica para responder . Eu, pessoalmente, sou contra por uma questão até de princípio, contra essa espécie de controle de empresas privadas, mas eu penso que todo o controle devia ser efetuado por um estado. O controle, a garantia, tudo que se refere ao processo de garantia eu acho que esta briga devia estar na mão do estado... Eu penso, que alguma coisa os agricultores tenham que pagar, mas há de se admitir que... isto é um fator político .. um agricultor orgânico ou biológico tem que ser entendido como gente que trabalha na sua terra, que trabalha de uma forma sustentável, de uma forma que preserva essa terra e diminui os custos para o Estado. Portanto, eu penso que enquanto politicamente nós não conseguimos passar esta mensagem, as pessoas não vão entender. O Estado irá entender que está tendo um custo da certificação do qual todos temos que passar por inteiro, eu penso que tem uma parte que o agricultor tem que pagar e outra parte o estado e todos nós da sociedade.

PO – A França , por exemplo, tem o selo AB que garante de uma certa forma o controle pelo Estado. No Brasil, nós fundamos colegiados estaduais e nacionais que controlam os certificadores. Em Portugal, o que está ocorrendo?

RT - Essa empresa anualmente é reconhecida ou não, e quem reconhece é o Ministério da Agricultura. O Ministério da Agricultura é um organismo do estado, só reconheceu uma empresa. Só tínhamos reconhecida a empresa de certificação Ecocert. Outro aspecto são os custos, assumidos pelo estado que tendem a ficar mais caros, pela burocracia, pelo marasmo. Acho que o estado não deveria admitir esse tipo de papel, devia ter alguma interferência neste processo, até por uma questão de credibilidade... será uma forma de envolvermos o estado nesta ação... 

Nós fazemos uma agricultura que não estraga o ambiente; já vimos que é muito mais caro ter que tratar o lixo, já vimos que é muito mais caro ter uma terra contaminada, é muito mais caro limpar suas toxidades. Tudo que vai para os lençóis freáticos, atingidos pela agricultura intensiva e que vai prejudicar as águas de todos nós, águas de valor e raridade cada vez maior; portanto, é por aqui que devemos chegar à necessidade de experiência...

PO - O estado não tem ainda linha de financiamento para a área ambiental e para quem deseja transformar a agricultura convencional em orgânica?

RT - A única coisa que existe são os subsídios, há uma majoração; quem fizer este tipo de agricultura tem por exemplo mais 20% de majoração por hectare. Esse valor por hectare é de trinta contos em agricultura convencional, se fizer a agricultura biológica tem de 45 a 50.

PO - E o mercado consumidor?

RT – Não há

PO- Portugal já fazendo parte da comunidade européia, como se explica que sua população  não esteja atenta ao consumo de alimento de qualidade?

RT - Está muito mais atenta que há alguns anos. Mas é preciso dizer que há uma grande falta de informação. Uma certa culturação nesta perspectiva da preservação do ambiente. Como eu costumo dizer, gastar um pouco mais nos alimentos para evitar de gastar na farmácia. Toda esta dialética diante desta questão tem que ser muito mais articulada quanto aos consumidores. Basta ver os dados que temos aí que demonstram que uma porcentagem muito pequena ainda que consomem produtos biológicos.

PO -  A França e a Alemanha estão comprando no Brasil a produção orgânica de vários produtos, e Portugal ?

RT - Não vem ao fato. Qual é a porcentagem dos consumidores da França. França tem milhões de habitantes, a Alemanha também, e com poder de compra. Consumidores já estão na ordem dos 10 a 12% . Nós aqui temos 1,5 % . Acho que isto é bastante, dá diferença, 1½ em 10 milhões de habitantes ou 23% em 40 milhões...

Portugal tem oportunidade de ter um produto que, podemos chamar de "artesanal", um produto de origem portuguesa com um diferencial de qualidade e que tenha agregação de selo orgânico que ninguém tem no mundo. Portugal tem o vinho do Porto que pode ter controle de origem e certificação orgânica, o chouriço que pode ter controle de origem e certificação orgânica; enfim, esse mercado ainda é aberto.

PO - E existe produção de azeite biológico para exportar?

RT -  Depende das quantidades que peçam... Lá em baixo tem um milhão e meio que não é biológico, só vamos ter 50.000 mil litros, 50.000 mil litros é muito para nós.

PO – Isto significa que atualmente o desafio não é produção...

RT - Não. Nós temos produto para colocar.

PO – Quais são os outros produtos não processados , não perecíveis ?

RT -  Podíamos ter azeitona, amêndoa e castanha biológica também.

PO- E na parte de carnes, alguma coisa, embutidos?

RT - Biológico não temos. Em breve iremos ter .. eu penso e quero... temos condições para fazer, ovelhas, ou vacas para carne.

PO - Uma das atividades de maior crescimento no Brasil é ovinocultura. 
O Brasil parece que descobriu ovinocultura de cinco anos para cá, existe um aumento do rebanho muito significativo, da carne de ovinos. Agora, o grande avanço do Brasil hoje está sendo na questão da pecuária: o Brasil hoje tem 170 milhões de cabeças bovinas e nós do movimento orgânico ficamos imaginando que apenas 1% deste número daria 1,7 milhões de carne orgânica

Contatos com o Sr. Rui Manuel Tadeu
terrasa@mail.telepac.pt
telefone – 351 – 59 – 95 06 75 
Trás-os-Montes – Zona Industrial de Alijó – 5070 Alijó – Portugal.


Web Design - Programação Visual 2A2 © 2004