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Produtos Orgânicos: Um Estudo Exploratório Sobre as Possibilidades do Brasil no Mercado Internacional

Ana Paula de Oliveira Souza
Mestranda em Engenharia de Produção -Departamento de Engenharia de Produção- UFSCAR 
paulanosralla@ig.com.br
Rosane L. Chicarelli Alcântara
Prof. Assistente- Departamento de Engenharia de Produção- UFSCAR
rosane@power.ufscar.br

Resumo
A procura por produtos orgânicos tem aumentado 10% ao ano no mercado interno e entre  20 e 30% no mercado externo. A certificação tem sido utilizada  como uma estratégia de diferenciação
, garantindo  ao consumidor  que tais produtos  foram  obtidos sob normas específicas de produção, atuando ainda como um forte elemento coordenador da cadeia e como recurso indispensável à aceitação no mercado externo. Este trabalho  pretende refletir sobre o crescimento da demanda de produtos orgânicos no país e no mundo, e como alguns países vêm se preparando para suprir  o abastecimento interno e  concorrer  no mercado internacional, buscando analisar o potencial do Brasil  frente a esses mercados.

I. INTRODUÇÃO

Atualmente, o padrão agroalimentar de produção, baseia-se na utilização intensiva de insumos químicos, mecanização pesada, e melhoramento genético voltado para a produtividade, buscando-se produzir  muito e barato. Tal padrão que teve início após a 2a Guerra,   funcionou muito bem para suprir as necessidades de reconstrução das economias européias pós nazi-facismo, mas vem entrando em franca decadência principalmente  nos seus países de origem. (VEIGA,  1999).

Este modelo de produção se adequou muito bem ao desenvolvimento das industrias à montante e à jusante da agricultura. As indústrias  a montante foram as provedoras dessa verdadeira revolução na produtividade, abastecendo a agricultura de insumos que passaram a ser considerados indispensáveis para a produção agrícola. À jusante, desenvolveram-se as agroindústrias, que abastecem-se  das matérias primas  geradas pela agricultura, a preços confortáveis, processando, distribuindo  e agregando valores a esses produtos.

No entanto, tal padrão de produção não é mais unanimidade e o  aumento da  produtividade em detrimento à qualidade do produto gerado, vem sendo amplamente questionado nos países mais desenvolvidos. Os  produtores  se vêem cada vez mais dependentes de insumos químicos dispendiosos, custos de produção elevados e preços pouco estimulantes aos seus produtos, e por outro lado, os consumidores  passaram a ver neste modo de produção, um risco ao meio ambiente e à própria saúde.

As agroindústrias, ao longo deste processo, acumularam excelentes resultados econômicos, a competitividade no segmento, porém fez com que investissem pesadamente em tecnologia para fabricar alimentos que surpreendam e agradem cada vez mais o consumidor, buscando satisfaze-lo em inumeráveis aspectos como: variedade, sabor, praticidade, beleza, quantidade, qualidade, etc, tornando os consumidores cada vez  mais exigentes, pela ampla possibilidade de escolha que se apresenta nas prateleiras dos supermercados.

Processos de distribuição altamente eficientes, possibilitando  que qualquer produto chegue a qualquer lugar em tempos mínimos, também ampliaram as oportunidades de escolha dos consumidores. O desenvolvimento destas potencialidades nas indústrias processadoras de alimentos e nas distribuidoras de produtos agrícolas, aliados à uma maior exigência dos consumidores,  trouxe   no seu bojo novos padrões e novos conceitos  que hoje em dia  atingem uma importância cada vez maior nos processos de produção e comercialização de produtos agrícolas e agroindustriais. Tais conceitos seriam certificação, padronização, rastreabilidade, certificação, rotulagem de transgênicos, selos de origem,  e fazem parte de um novo contexto onde a questão da segurança do alimento  vem assumindo uma posição  de liderança nas discussões entre governo, população e iniciativa privada.

Todos estes conceitos portanto,  buscam agregar um novo atributo, universal e que tem sido amplamente valorizado pelos consumidores: a informação. Informações sobre o local onde foi produzido,  a tecnologia de produção utilizada, a garantia de que tal tecnologia não apresenta riscos de contaminação  para o alimento produzido, saúde do consumidor ou meio ambiente. Os consumidores querem conhecer os produtos que consomem, saber como foram  produzidos, a tecnologia de produção utilizada,  a  qualidade da matéria-prima, a presença ou não de aditivos químicos.

Atualmente as oportunidades de lazer, entretenimento, aprendizagem e informação ampliam-se cada vez mais, trazendo uma melhor qualidade de vida para a população e a preocupação com a alimentação reflete uma concordância  com esse novo padrão, onde o homem quer viver mais e melhor. A preservação do meio ambiente também é refletida por esse  busca de qualidade de vida, já que num ambiente deteriorado, a  qualidade de vida é muito prejudicada.

Cada vez mais  o ser humano busca contribuir com esse processo,  encontrando uma forma de colaboração na sua forma de consumir. A preocupação com as embalagens, a escolha de alimentos saudáveis, sem aditivos químicos, sem contaminantes,  e com uma tecnologia de produção menos agressiva ao meio ambiente, como os produtos orgânicos, vem se intensificando gradualmente e impondo-se como uma nova  forma de consumir, onde valores impalpáveis  se manifestam e  satisfazem o consumidor. Essa postura se manifesta principalmente em países mais estáveis economicamente, como os da Europa e Estados Unidos,  onde a população geralmente tem mais oportunidades de escolha, e garantia de sobrevivência.

 

1.1.  Processos de produção em xeque

O processo de conscientização da população não se deu aleatóriamente. Incidentes graves como a doença da “vaca louca”  na Inglaterra e a contaminação de alimentos por dioxina na Bélgica, alertaram a população sobre os riscos que processos de produção industrial e agropecuários desequilibrados poderiam causar a saúde da população, bem como as incertezas geradas com a  atual polêmica sobre os  transgênicos  ou GMO- Organismos Genéticamente Modificados.

As atenções também  vem recaindo  sobre os agrotóxicos, considerados até pouquíssimo tempo como benfeitores indispensáveis e insubstituíveis  para a produção de alimentos, hoje em dia vem sendo vistos como contaminantes dos alimentos e degradadores do meio ambiente. Em muitos casos e em muitos países, usados indiscriminadamente , causam uma dependência gradativa  da agricultura pois o processo de desequilíbrio ambiental  no  ecossistema agrícola, provoca o aparecimento de novas pragas e doenças  continuamente, além de provocar resistências a estes produtos.

Os alimentos produzidos sob estas condições, normalmente  apresentam resíduos de alguns componentes químicos utilizados, seja pela intensidade da aplicação, seja  pela não observação do produtor dos prazos de carência da aplicação até a colocação no mercado para consumo. Segundo LEITE, (1999), os pesticidas sistêmicos são absorvidos  e distribuídos pela seiva das plantas, impregnando o interior  dos frutos de forma definitiva. Além disso,  as culturas mais  intensamente associadas à boa saúde como hortaliças, e frutas são vorazes consumidoras de pesticidas

Como agravante, para a agricultura e o consumidor brasileiro, o Brasil é o 4o consumidor  mundial de substâncias químicas tóxicas usadas na Agricultura. No ano de 1988, o volume  de comercialização de agrotóxicos alcançou US$ 2,6 bilhões no país, sendo despejados no meio ambiente, 101 milhões de litros de fungicidas, herbicidas e  inseticidas O consumidor brasileiro  fica totalmente sem defesa já que  o sistema nacional de monitoramento é precário, a fiscalização  sobre o uso de  produtos químicos é frágil. A fiscalização se torna necessária porque  o temor de perder o produto no campo é a justificativa para o descumprimento das normas.

A conquista de novos mercados de exportação para produtos agrícolas também fica prejudicada já que as normas internacionais geralmente são incompatíveis a há uma desconfiança quanto ao produto brasileiro, além é claro do conhecido protecionismo dos países importadores revelado através das barreiras tarifárias e não tarifárias. Sabe-se que os países desenvolvidos exercem rígidas normas de controle de qualidade  dos produtos que ingressam em seus mercados.

Os  setores agrícola e  agroindustrial mantém fortes  interelações com o mercado externo  e na medida que novas regras de comércio,  como  de proteção ambiental e de segurança do alimento,  possam afetá-lo é preciso  promover  processos  de inovação tecnológica no sentido de incorporar modelos  e tecnologias mais limpas ou de menor impacto ambiental.

Uma alternativa portanto ao mercado interno, que deseja um produto mais saudável, sem resíduos químicos, e à obtenção de novos mercados para exportação seria os produtos agrícolas orgânicos, ou seja produtos obtidos sob um processo diferenciado de produção onde os defensivos agrícolas normalmente utilizados na agropecuária não são permitidos , utilizando-se  técnicas diferenciadas que possibilitem uma produção de qualidade e em quantidade suficiente.

1.2. Objetivos

Este trabalho  pretende refletir sobre o crescimento da demanda de produtos orgânicos no país e no mundo, e como alguns países vêm se preparando para suprir  o abastecimento interno e  concorrer  no mercado internacional, buscando analisar o potencial do Brasil  frente a esses mercados.

2. A CERTIFICAÇÃO E O PRODUTO ORGÂNICO

A certificação deve ser entendida como  um instrumento econômico baseado no mercado, que visa diferenciar produtos  e fornecer incentivos  tanto para o consumidor como para os produtores.

Para NASSAR, (1999),  a certificação é a definição  atributos de um produto, processo ou serviço e a garantia de que eles se enquadram em normas pré-definidas. Também  no caso do produto orgânico, a certificação  é a  forma de controle da procedência do produto orgânico e da sua diferenciação na forma produtiva em relação à agricultura tradicional ou convencional

Para um produto receber o selo de certificação orgânico ele necessita ser produzido, como regra básica, sem a utilização  de agrotóxicos ou adubação química, sendo ainda um dos requisitos importantes, a relação com os trabalhadores envolvidos no processo,  que precisam Ter uma remuneração justa e participação nos lucros. A fazenda ou unidade de beneficiamento também não podem oferecer qualquer tipo de risco ao meio ambiente.(PASCHOAL, 1994).

Os movimentos de certificação para diferenciar produtos e produtores agrícolas são originários  de países ricos, com setor agrícola forte e grupos sociais organizados, sendo a Europa  o continente  principais iniciativas surgiram e se desenvolveram. O primeiro e mais importante organismo mundial desse movimento é a IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movements), que elaborou as normas básicas para a agricultura orgânica, a serem seguidas por  todas as associações filiadas mundialmente

Na França, o certificado  de Agriculture Biologique (AB), é uma certificação oficial atribuída a produtos agrícolas transformados ou não, fabricados sem produtos químicos e que seguem modos particulares de produção. A Grã- Bretanha também tem um selo oficial orgânico  denominado United Kingdom Register of Organic Food Standards (Ufrofs). (VIGLIO, 1996)

Na América Latina, a   Argentina adota   uma regulamentação para produção de orgânicos baseada nas normas internacionais da IFOAM.

No Brasil, os principais órgãos certificadores são  o IBD (Instituto Biodinâmico) em Botucatu, , avalizado pelo IFOAM e cujo selo é aceito em  mercados internacionais, e a AAO (Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo), cujo selo é aceito apenas nacionalmente. Existem outras de menor expressão. Atualmente o governo brasileiro está incentivando a criação de comissões técnicas para a elaboração de normas que regulem a atuação de  outras entidades ou empresas certificadoras. que possam surgir.

4. PANORAMA DE MERCADO NO MUNDO

O mercado mundial de orgânicos movimenta cerca de US$  23,5 bilhões de dólares por ano, e há uma expectativa de crescimento da ordem de 20% ao ano. Deste mercado incluem-se produtos frescos, processados, industrializados e até  artigos de cuidados pessoais, produzidos com matérias primas obtidas sob o sistema orgânico.

Na Europa, as estatísticas de produção e consumo são escassas, mas sabe-se que a CEE é uma grande consumidora de produtos orgânicos, mas a maioria do que consome é importado.

Segundo LEITE (1999), o principal consumidor de produtos orgânicos na Europa é a Alemanha, possuindo 290.000 hectares cultivados com agricultura orgânica. Representa  um atraente e  rico mercado para   os exportadores de produtos orgânicos, pois sua população altamente consciente em relação às questões ambientais, vê no produto orgânico um produto benéfico ao meio ambiente e à própria saúde.  No entanto,   este mercado é extremamente exigente já que eles se interessam além dos métodos de produção, nos de processamento e embalagem de toda a cadeia industrial envolvida.  As importações suprem aproximadamente  20 % do mercado de orgânicos nesse país.

O Consumo na França aumenta 15% ao ano , sendo 5% do total dos produtores convertidos ao sistema orgânico e  existem 450 processadores e distribuidores  envolvidos com estes produtos. Uma dificuldade que se encontra para a comercialização neste país são os altos preços destes produtos.

No Reino Unido, o consumo de  produtos orgânicos registrou  expansão 500% entre  1987 e 1997, sendo que a produção britânica vem crescendo em torno de 40% ao ano. As vendas de carne orgânica por exemplo tiveram aumento de 189% entre 1992 e 1996.

Os EUA são um importante exportador de matérias primas orgânicas para a Alemanha, que  as processam e embalam em suas própria indústrias.  Hoje em dia o país movimenta 4, 2 bilhões em produtos orgânicos, podendo ultrapassar os US$ 10 bilhõesno ano 2000, com destaque para salgadinhos e doces, cujas vendas cresceram perto de 100% ( ALVES, 1999).

O Canadá possui a  maior área cultivada  organicamente do mundo, com  aproximadamente 600.000 hectares

A Argentina exporta para Alemanha, Holanda e Inglaterra, além dos EUA (VIGLIO, 1996), tendo acesso a esses mercados por suas normas de produção serem compatíveis com as da União Européia. O governo argentino sempre estimulou a produção orgânica, visando principalmente a exportação para mercados da Europa e EUA. A produção orgânica alcança uma área de aproximadamente 345 mil hectares, predominando a atividade animal.

Além desses países, muitos outros com Holanda, Áustria,  Japão, representam um excelente mercado para os produtos orgânicos, pois sua população é altamente consciente e interessada nos produtos orgânicos. A produção nestes países apesar de crescente e freqüentemente estimulada pelos governos, é relativamente limitada, não sendo capaz ainda de suprir a demanda da população. 

5.PRODUÇÃO E MERCADO NO BRASIL

No Brasil a produção de orgânicos teve um grande impulso nos últimos dois anos. Atraídos pelo preço dos produtos no mercado, em média 30% mais elevados do que o produto convencional, por uma possível diminuição nos custos de produção ou por uma maior possibilidade de conservação dos recursos da propriedade rural, o certo é que esse número vem aumentando dia a dia.

O demanda no Brasil cresce cerca de 10% ao ano, podendo ter este ritmo acelerado, pelo efeito da divulgação do próprio produtos nos pontos de venda, ou seja, pessoas que não conheciam o produto orgânico, podem passar a interessar-se à medida que ele se torne disponível. Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, 7 em cada 10 brasileiros consumiriam produtos orgânicos se houvesse mais ofertas nos supermercados. (VIGLIO, 1996).

As exportações  absorvem 70% do volume total certificado, gerando segundo dados de 1999, uma receita de 10 milhões em 10 mil toneladas de soja, café, castanha, óleo de dendê, suco de laranja, cacau, erva-mate, banana, guaraná, etc. O maior estímulo às exportações são os preços que se obtém  pelo produto diferenciado, podendo  atingir ágios de 30 a 60% de acordo com o produto.

O mercado interno abastece-se principalmente de produtos frescos, hortaliças, legumes e frutas, mas pouco a pouco, amplia-se a  variedade de produtos que vem sendo oferecida nos pontos de venda, incluindo os alimentos processados.

Segundo dados de ALVES, (1999), o número de produtores envolvidos com a agricultura orgânica no Brasil mais que dobrou nos últimos dois anos, passando de  700 para cerca de 1500, organizados em cooperativas ou trabalhando individualmente. O IBD (Instituto Biodinâmico) já autorizou mais de 80 projetos no país,  cada um podendo incluir dezenas de produtores e  outros 40 estão em processo de certificação. O Quadro 1 mostra os produtos certificados pelo IBD até junho de 1999 em diferentes estados do Brasil.

Quadro 1.  Produtos certificados pelo IBD até junho de 1999, e sua localização.

Localidade Produto
Bahia Acerola, cravo da índia, guaraná em pó
Acre Urucum
S ão Paulo Ervas Medicinais, suco de laranja, olerícolas
Mato Grosso soja
Paraná Soja, feijão, fécula de mandioca, milho, açucar mascavo, trigo
Rio Grande do Sul Soja, mate, banana
Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, Rondônia café
Pará Óleo de dendê
Ceará Castanha de caju
Maranhão Óleo de babaçu
Santa Catarina olerícolas

Fonte: Adaptado de IXX Seminário Internacional Pensa de Agribusiness

 

Os principais pontos de venda do produto no país são as grandes redes de supermercados, que viram no produto orgânico uma oportunidade de diferenciação no seu mix de produto e da valorização da imagem da empresa frente ao consumidor. Supermercados como Paes Mendonça, Carrefour, Pão de Açucar, principalmente nos grandes centros urbanos, foram os primeiros  a oferecer os produtos em suas gôndolas, estimulando um grande número de produtores.  

Empresas ou propriedades que conseguem atender as exigências do grande varejo como Horta&Arte, pioneira no mercado, Ervas Finas de Campo Limpo Paulista (SP), e Fazenda Santo Onofre, de Morungaba (SP), obtém resultados compensadores neste canal de distribuição.

No Brasil, têm-se vários exemplos de sucesso com as exportações de orgânicos. São empresas ou propriedades que captaram essa tendência do mercado internacional e lançaram-se quando ainda pouco se falava em produto orgânico no país. Como exemplo tem-se a Terra Preservada, empresa do Paraná, certificada pelo IBD, que agrega  cerca de 500  produtores associados, e comercializa a produção vendendo para mercados fechados como Europa e Japão,  obtendo preços cerca 50% maiores pelo seu principal produto, a soja orgânica.

A Fazenda Piratininga de Monte Azul Paulista, também certificada pelo  IBD,  exporta suco de laranja orgânico, obtendo preços 30 a 40% mais elevados no mercado internacional.

A Empresa Agropalma, planta 3000 hectares de palmeiras orgânicos em uma propriedade de 12.000 há totais em Tailândia, no Pará,  para produção de óleo de palma, matéria prima de inúmeros produtos alimentícios. A produção é toda certificada e obtém preços 30 a 40% mais elevados no mercado internacional.

Os alimentos processados começam a ser produzidos e são uma excelente alternativa para a exportação. A Daterra, indústria de alimentos de Schroeder (SC), lançou em 1998, uma linha orgânica que inclui geléias, banana passa, e as primeiras balas de bananas orgânicas do país. Também fornece  matéria prima   para indústrias de sorvetes e doces para criação de linhas exclusivamente orgânicas. A empresa  mantém ainda uma parceria com a rede  McDonald’s para o fornecimento de suas balas orgânicas.

Frutas brasileiras in natura e orgânicas já estão sendo solicitadas por importadores. O açucar  orgânico também é um produto de alto valor no mercado nacional  e internacional. Ë o  açúcar mais procurado nos países da Europa e dos Estados Unidos.

No Estado de São Paulo, duas usinas aderiram a essa nova tendência de mercado e no ano 2000 devem fabricar cerca de 25 mil toneladas, ou o dobro desse ano. Mais de 90% destina-se à exportação, com preços até três vezes maiores do que o produto convencional. Os principais clientes são as indústrias de alimentos. A produção é toda certificada pelo IBD. (CARMO, 2000).

 

6. ABERTURA PARA EXPORTAÇÃO: CERTIFICAÇÃO, AUMENTO DA PRODUÇÃO E ADEQUAÇÃO ÀS NORMAS INTERNACIONAIS

Para que se desenvolva competências no setor de orgânicos para a conquista do mercado externo alguns pontos devem ser considerados  

·Atuação governamental.  

Em todos os países que já atingiram uma boa posição como exportadores de orgânicos nota-se uma participação ativa do governo na promoção da agricultura orgânica, incentivando na produção, comercialização, pesquisa científica, estabelecendo normas de produção compatíveis às dos mercados importadores

Na Argentina, por exemplo, iniciativa privada e governo formaram um organismo oficial denominado PROMEX (Promocion de  Exportaciones no Tradicionales), que colabora ativamente neste setor, levando produtores e  comercializadores a distintos eventos e feiras internacionais para a atualização sobre as expectativas do mercado.  (Viglio, 1996).

O governo Holandês anunciou um plano para estimular a produção distribuição e venda dos produtos orgânicos, destinando US$ 35 milhões para este fim.

Nos  EUA  há algum tempo o governo já se prepara para o desenvolvimento deste mercado. Em 1988, o  USDA,  lançou um programa de pesquisa  em sistema low-input de produção,  colocando a agricultura orgânica em importante posição  nas linhas de pesquisa agrícola do país. Em 1990, foi introduzido a legislação definindo  o produto orgânico  e estabelecido um programa  federal de certificação, o National Organic Standards Board (Nosb), que propões padrões para o cultivo orgânico.

Em março deste ano (2000), o órgão definiu novos padrões para a produção de alimentos orgânicos que estavam em discussão desde 1997.Entre estas normas está o veto aos produtos transgênicos e à maioria das substâncias químicas utilizadas atualmente.   Segundo  especialistas, estes padrões deverão oferecer grande impulso ao setor e  ajudar os agricultores a vender mais no exterior.

Além disso,  o governo americano  tem contribuído com o crescimento do consumo de orgânicos com as frequentes campanhas de alerta à população sobre os riscos de pesticidas nos alimentos, e aconselhando a busca por alimentos orgânicos aos consumidores preocupados com  o uso de insumos químicos.

O governo brasileiro deu seus primeiros passos no ano de 1999 com o lançamento da Instrução Normativa de 17 de maio de 1999, pelo Ministério de Agricultura e Abastecimento, com normas para a produção, processamento, distribuição  identificação, e certificação da qualidade de produtos orgânicos de origem animal ou vegetal. Como suporte econômico, no mesmo ano, foi lançado o Programa de Crédito Rural para Agricultura Orgânica do Banco do Brasil, para incentivo da produção e comercialização de produtos orgânicos. (YAMASHITA, 1999).

O governo brasileiro deve ainda proporcionar garantias da separação entre os  alimentos oriundos de sementes transgênicas que possam por ventura ser produzidos no país caso a liberação se confirme.

·Integração. A integração entre os diversos elos da cadeia é fundamental para o desenvolvimento do mercado e fortalecimento para o mercado externo. Já existem associações de grande porte nos EUA, por exemplo, como a Organic Trade Association (OTA), que reúne produtores rurais, processadores, certificadores,  associações de produtores , distribuidores e varejistas. O órgão  zela pela integridade dos padrões de produção e promove os produtos no mercado.

·Certificação. Um grande passo para as  exportações brasileiras de orgânicos é  o reconhecimento do selo de certificação do IBD pelo mercado internacional. Devido à seriedade e rigidez desta instituição,  alguns produtos como laranja orgânica certificada já atingem mercados fechados como Alemanha.  

Com base nas informações coletadas, propõe-se a seguinte representação esquemática como destaque para os principais pontos a serem considerados para o desenvolvimento da atividade orgânica visando o mercado internacional:

 

Barreiras às Exportações :

*Protecionismo dos mercados 

*Competição de outros países 

*Estruturas mais bem desenvolvidas de produção e comercialização. Ex: Argentina (Promex) 

Estratégias de mercado  

*Produtos diferenciados/ certificados 

*Diversidade de produtos (abundância tropical) empresas comercializam a própria produção ou agregando vários produtores

Função social

*Mão de obra intensiva e qualificada

*Fixa o homem no campo

* Permite rendas superiores aos agricultores  

Financiamentos 

*Papel do governo e da iniciativa privada

Ex: Argentina, EUA, Holanda,  Áustria

Estratégias para Desenvolvimento:

Pontos fracos:

*produção ainda relativamente pequena

*falta de  auxílio da pesquisa científica

*falta de apoio governamental para  regular e impulsionar o setor

*falta de integração entre os diferentes elos da cadeia de orgânicos. Ex: EUA-OTA  

Pontos fortes:

*Variedade tropical

*Condições climáticas

*Empresa certificadora reconhecida no mercado externo: IBD

*Muita área pode ser convertida ao sistema orgânico  

Oportunidades

*Instalação de agroindústrias: alimentos processados

*Mercados não explorados

*Valorização dos atributos de saúde do produto

*Preocupação ambiental

*Socialmente benéfica: bem vista aos olhos dos consumidores

*Alimentos in natura: frutas

*Matérias primas para agroindústrias: óleo de palma, cacau, soja, tabaco  

Ameaças

*Protecionismo europeu e norte americano

*Entrada de sementes transgênicas no país sem rotulagem  

 

7.CONCLUSÃO

As  novas regras do agribusiness internacional passam necessariamente pela  adoção de  padrões de certificação, rotulagem de transgênicos,  e  rastreabilidade , para garantir ao consumidor a oportunidade de escolha do que lhe for mais conveniente. O Brasil deve caminhar neste sentido para conquistar o mercado externo para  seus produtos.

Existe uma demanda crescente pelo produtos orgânicos certificados no Brasil  e no mundo,  gerando um mercado atraente para produtores e distribuidores. O Brasil tem grande capacidade de conquistar o mercado externo, desde que todas as partes envolvidas cumpram devidamente seu papel, como  o governo, a iniciativa privada e as instituições certificadoras. 

 

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, U. Dispara a procura por produtos orgânicos.  Gazeta Mercantil. Agribusiness, 28-05-99. P. B-24

CARMO, A.J. Usinas Paulistas produzem e exportam açucar orgânico. O Estado de São Paulo. Agrofolha, 19-01-2000. P.G-10-11

LEITE, E. Produtos orgânicos: Ambientalmente prósperos. In: Agroanalysis, vol.19, n.6. 1999, p. 58-62.

PASCHOAL,  A . Produção Orgânica de alimentos. Piracicaba: Esalq, USP, 1994

NASSAR, A M. Certificação no Agribusiness”. In:  IX Seminário  Internacional PENSA de Agribusiness: A Gestão da Qualidade dos Alimentos.  Cap.3 p. 16 -30.

VEIGA, J.E. A Consagração da Agricultura Biológica. O Estado de São Paulo. Caderno de Economia,  23-03-1999.  P. B-2

VIGLIO, E.C.B.L. Produtos orgânicos: uma tendência para o futuro? Agroanalysis.    Dez/1996.

YAMASHITA, F.E. Estratégias de Marketing aplicadas a produtos orgânicos: um estudo de caso. São Carlos,  1999. 73 p.(Trab.de Graduação)
 
 

 

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