Trabalhos 

Utilização de resíduos orgânicos na agricultura

June Faria Scherrer Menezes - Fundação de Ensino Superior de Rio Verde - june@fesurv.br
Camilo de Lelis Teixeira de Andrade - Embrapa Milho e Sorgo - camilo@cnpms.embrapa.br
Ramon Costa Alvarenga - Embrapa Milho e Sorgo - ramon@cnpms.embrapa.br
Egídio Konzen
- Embrapa Milho e Sorgo - konzen@cnpms.embrapa.br
Fernando Ferreira Pimenta - Perdigão Agroindustrial S.A - fernandopiment@bol.com.br  

Palestra apresentada no Agrishow em Ribeirão Preto, SP (03/05/2002)

 

A região de Rio Verde, localizada no Sudoeste Goiano, englobando os municípios de Rio Verde, Jataí, Montividiu e Acreúna, é considerada um importante pólo brasileiro de produção agropecuária, destacando-se as culturas de soja, milho e algodão e a pecuária de corte.

Por ser a maior região produtora de grãos do estado de Goiás, nos últimos anos, as grandes empresas produtoras de carnes, principalmente de aves e de suínos, vêm transferindo suas operações da região Sul para a região Centro Oeste, devido a grande demanda de grãos e existência de grandes propriedades nas quais os dejetos podem ser empregados como fertilizante. Somente a Perdigão Agroindustrial S.A. abate cerca de 3.500 suínos/dia e 280.000 frangos/dia.

A criação de aves e suínos em sistemas confinados tem sido um problema para os criadores, pois há a produção de aproximadamente 1.500.000 m3/ano de dejetos líquidos de suínos e 60.000 toneladas/ano de cama-de-frango. O volume produzido de resíduos orgânicos seria constituído da parte indesejável ou “suja” deste processo de produção. Portanto, a questão é: o que fazer com estes resíduos gerados pela própria ação do homem?

Os dejetos de suínos e aves são uma excelente fonte de nutrientes, especialmente N, e quando manejados adequadamente, podem suprir, parcial ou totalmente, o fertilizante químico na produção de grãos. Além do benefício como fonte de nutrientes, o seu uso adiciona matéria orgânica que melhora os atributos físicos do solo, aumenta a capacidade de retenção de água, reduz a erosão, melhora a aeração e cria um ambiente mais adequado para o desenvolvimento da flora microbiana do solo. Desta forma, os resíduos orgânicos são considerados insumos de baixo custo e de alto retorno econômico para a agropecuária, além do retorno direto da atividade.

A fim de avaliar a viabilidade agronômica dos resíduos orgânicos na produção de grãos (milho e soja) e o provável impacto ambiental pela utilização destes resíduos foram implantados dois projetos em parceria Fesurv/Embrapa CNPMS/Perdigão: “MONITORAMENTO AMBIENTAL DO USO DE DEJETOS LÍQUIDOS DE SUÍNOS COMO INSUMO NA AGRICULTURA” e “UTILIZAÇÃO DE CAMA-DE FRANGO NA AGRICULTURA”.

Os experimentos dos projetos foram implantados no campus da Fundação de Ensino Superior de Rio Verde, na fazenda Fontes do Saber, em Rio Verde, GO, ocupando uma área de seis hectares.

Os experimentos foram instalados em Latossolo Vermelho Escuro, textura argilosa (LE) em sistema de plantio direto. Os tratamentos utilizados com dejetos de suínos foram a combinação de doses de dejetos líquidos de suínos, variando entre 25 a 200 m3 ha-1, com adubo químico, num total de sete tratamentos (rotação milho/soja), distribuídos em blocos ao acaso, com três repetições. Os tratamentos utilizados com cama-de-frango foram a combinação de doses de cama-de-frango, variando entre 0,75 a 4,5 ton ha-1 para milho e 0,50 a 3,0 ton ha-1 para soja, mais 50% da adubação química recomendada para cada cultura, num total de oito tratamentos distribuídos em blocos ao acaso, com quatro repetições.

Os experimentos de dejetos de suínos foram conduzidos nas duas últimas safras 2000/2001 e 2001/2002 e os com cama-de-frango somente em 2001/2002.  

Quadro 1- Resultados médios das análises químicas dos resíduos orgânicos. FESURV. Rio Verde,GO. 2002.

Resíduo

pH MO N P K Ca Mg S Cu Zn

------------------------------------- g/dm3 -----------------------------------

---- mg/dm3 ----

Dejetos suínos 8,18 25,43 25,20 12,23 87,20 26,33 4,91 5,58 674,40 246,00
Cama-de-frango 8,55 35,90 29,70 26,30 23,40 34,10 6,70 - - -
Dados obtidos pelo Laboratório COMIGO, Rio Verde/GO.

Figura 1 – Produtividade média de milho (sacos/ha) em função de doses crescentes de dejetos líquidos de suínos, adubação química e sem adubação (testemunha). Safra 2000/2001. FESURV. Rio Verde, GO. Figura 2 – Produtividade média de milho (sacos/ha) em função de doses crescentes de dejetos líquidos de suínos, adubação química e sem adubação (testemunha). Safra 2001/2002. FESURV. Rio Verde, GO.
 
Figura 3- Produtividade média da soja (sacos/ha) em função de doses crescentes de dejetos líquidos de suínos, adubação química e sem adubação (testemunha). Safra 2000/2001. FESURV, Rio Verde, GO. Figura 4- Produtividade média da soja (sacos/ha) em função de doses crescentes de dejetos líquidos de suínos, adubação química e sem adubação. Safra 2001/2002. FESURV, Rio Verde, GO.
 

Figura 5- Produtividade média de milho (sacos/ha) em função de doses crescentes de cama-de-frango, adubação química e sem adubação. Safra 2001/2002. FESURV, Rio Verde, GO.  Figura 6- Produtividade média da soja (sacos/ha) em função de doses crescentes de cama-de-frango, adubação química e sem adubação. Safra 2001/2002. FESURV, Rio Verde, GO.

Pesquisas têm demonstrado a viabilidade técnica da utilização de dejetos de suínos estabilizados e cama-de-frango como fertilizante para a produção de grãos. Doses adequadas estão sendo estabelecidas para a produção de milho e de soja na região do Sudoeste Goiano. Todavia, são poucos os trabalhos avaliando o impacto ambiental da utilização de dejetos como fertilizante na região.

Dejetos de suínos se utilizados inadequadamente podem afetar as propriedades do solo e se constituir numa fonte de contaminação ambiental. Os riscos de contaminação podem ocorrer devido à lixiviação de solutos como nitrato e pelo acúmulo de elementos, tais como cobre e zinco, no perfil do solo até atingir níveis tóxicos.

Com o propósito de monitorar as concentrações de nitrogênio e metais pesados decorrentes das aplicações de dejetos líquidos de suínos foram conduzidos dois experimentos:

Distribuição de amônio (NH4+) e nitrato (NO­3-) no perfil do solo após a aplicação de dejetos líquidos de suínos. Rio Verde: FESURV/ESUCARV, 2001. 

Objetivando avaliar a movimentação de nitrogênio no solo, instalou-se um ensaio experimental com cultivo de soja, testando quatro doses de dejetos líquidos de suínos: 25, 50, 75 e 100 m3/ha, adubação química à base de 300 kg/ha da fórmula 0-20-20 + 30 kg/ha de FTE BR 12 e sem adubação (testemunha). Mediante análise de laboratório, utilizando o método de KJELDAHL, avaliaram-se as concentrações de amônio (NH4+) e nitrato (NO3-) em diversas profundidades. Os resultados mostraram que para as concentrações de nitrato houve diferença significativa quando se utilizaram as doses de 75 e 100 m3/ha. As maiores concentrações de amônio e nitrato determinadas na profundidade de 90-120 cm correspondem às maiores dosagens de dejetos utilizadas, o que indica que o uso de quantidades elevadas de dejetos pode representar risco potencial de contaminação de águas subterrâneas.

 

FIGURA 8 - Distribuição de amônio (N-NH4+) e nitrato (N-NO3-) no perfil do solo com a utilização de fertilizante químico: 300 kg de 0-20-20 mais 30 kg de FTE BR12. Rio Verde, ESUCARV, 2001. FIGURA 9 - Distribuição de amônio (N-NH4+) e nitrato (N-NO3-) no perfil do solo com aplicação de 100 m3/ha de dejetos líquidos de suínos no cultivo da soja. Rio Verde, ESUCARV, 2001.

Monitoramento dos teores de metais pesados (Cu e Zn) no solo e na cultura do milho adubado com dejetos líquidos de suínos e adubação química. Rio Verde: FESURV/ESUCARV, 2002. (Monografia de Pesquisa – Agronomia).

Foi conduzido um experimento no campus da FESURV (Fazenda Fontes do Saber), safra 2001/2002, com o objetivo de monitorar teores médios de Cu e Zn, em solos submetidos à aplicação de dejetos líquidos de suínos. Foi utilizado o híbrido de milho 3021 de dupla aptidão (grãos e silagens). Os tratamentos utilizados foram: 50 m3/ha de dejeto líquido de suínos, 200 m3/ha de dejetos líquidos de suínos, adubação química (400 kg/ha de 08-20-20 mais 180 kg/ha de uréia em cobertura) e testemunha (sem adubação). O tamanho das parcelas foi de 200m2 (20 m x 10 m), com o espaçamento de 0,9 m entre linhas e cinco plantas por metro. A aplicação dos dejetos foi realizada em uma única aplicação superficial, 15 dias antes do plantio, e a adubação química foi realizada por ocasião ao plantio. Avaliaram-se os teores de Cu e Zn contidos nos dejetos e correspondentes as doses de 50 e 200 m3/ha de dejetos líquidos de suínos. Aos 30 dias após o plantio, foram feitas amostragens de solo, em cada tratamento, até a camada de 120 cm de profundidade. Em cada amostra de solo determinaram-se os teores de Cu e Zn. Por ocasião do pendoamento, especificamente no estádio V14, retirou-se uma amostra foliar (terço médio da folha + 4) em cada tratamento, com o propósito de determinar os teores de Cu, Zn e Cr no tecido foliar.

Quadro 2- Teores máximos de Cu e Zn (mg/dm3) a serem adicionados ao solo anualmente pela aplicação de resíduos orgânicos e teores de Cu e Zn determinados pelas doses de 50 m3/ha e 200 m3/ha de dejetos líquidos de suínos. Rio Verde, ESUCARV, 2002.
Metal Dose anual1/ 50 m3/ha2/   200 m3/ha2/

------------------------------------- kg/ha -----------------------------------

Cu 75 33,72 134,88
Zn 140 12,30 49,20

1/ CETESB (1999)
2/
EXATA (2002).

Figura 10- Teores médios de Cu e Zn (mg/dm3) retidos no perfil do solo (até 1,20m) pela aplicação de doses de dejetos líquidos de suínos, adubação química e sem adubação (testemunha). Safra 2001/2002. FESURV, Rio Verde, GO. Figura 11- Teores médios de Cu e Zn (mg/dm3) na parte aérea do milho pela aplicação de doses de dejetos líquidos de suínos e da adubação química, comparados com os níveis críticos e teores fitotóxicos. Safra 2001/2002. FESURV, Rio Verde, GO.
Pelos resultados, concluiu-se que: a dose de 50 m3/ha de dejetos líquidos de suínos não contém teores de Cu e Zn acima dos teores máximos permitidos para a utilização na agricultura; os teores de Cu e Zn no solo estão inferiores aos teores considerados contaminantes; as doses de dejetos e a adubação química atenderam as exigências nutricionais do milho quanto ao Cu e ao Zn.
 


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