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Percepções de consumidores de alimentos orgânicos na cidade de Uberlândia na perspectiva de valores: Uma aplicação da laddering e cadeia de meios e fins. |
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Marcio Lopes Pimenta Professor no Curso de Administração da Unesp – Jaboticabal Luiz Henrique de Barros Vilas Boas Professor da Universidade Federal de Uberlândia Email de contato: pimenta.mp@gmail.com |
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| RESUMO | ||||||||||||||
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O expressivo crescimento do mercado mundial de alimentos orgânicos nos últimos dez anos tem aumentado a demanda por estudos relacionados a esse tema. Os supermercados têm se mostrado agentes relevantes na distribuição desses produtos no Brasil e no exterior. Este trabalho tem por objetivo descrever as características do comportamento do consumidor de frutas, legumes e verduras (FLV) orgânicas na cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Mais especificamente, buscou-se evidenciar tal comportamento com base no encadeamento entre atributos, conseqüências (benefícios que esses atributos são capazes de prover) e valores pessoais dos consumidores. Foram realizadas trinta entrevistas em profundidade, sendo que, para a coleta, análise e interpretação dos dados, utilizou-se a técnica qualitativa laddering, que toma os pressupostos teóricos da cadeia de meios e fins. Os resultados mostram, enfaticamente, a preocupação dos consumidores com o bem estar individual e com a sua manutenção ao longo do tempo, por meio de qualidade de vida e de uma vida saudável, classificados como valores individuais conforme a escala de Schwartz. Por fim, são apresentadas as percepções dominantes desses consumidores, originadas pelo encadeamento entre atributos, conseqüências e valores obtidos na pesquisa. |
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| Introdução | ||||||||||||||
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A atual expansão no consumo de alimentos orgânicos no varejo, acaba por demandar estudos sobre o comportamento do consumidor destes produtos visando a sua compreensão. Uma das abordagens de estudo do comportamento do consumidor, a teoria de meios e fins, tem como base os valores pessoais que conduzem as escolhas de compra dos consumidores. O desafio do pesquisador, neste caso, consiste em desvendar quais características de produtos são capazes de conduzir o consumidor ao alcance de seus valores pessoais, ou seja, qual seria a representação semântica dos atributos em relação à percepção deste consumidor.
Em uma perspectiva global, os consumidores de
alimentos orgânicos possuem motivações parecidas em termos de
valores. Os valores são representações de estados desejados na vida
do indivíduo movido por crenças e pressupostos individuais e
coletivos. Valores como bem estar pessoal, realização pessoal,
saúde, viver mais e melhor, preservação ambiental e bem estar da
humanidade são compartilhados por consumidores de orgânicos, de
acordo com pesquisas realizadas em diversos países, inclusive no
Brasil (MAKATOUNI, 2002; BAKER; THOMPSON; ENGELKEN, 2004; NASPETTI;
ZANOLI, 2004; BALERINI, 2005; KNY et al., 2005; PADEL; FOSTER, 2005;
VILAS BOAS, 2005; ZAMBERLAN; BÜTTENBENDER; SPAREMBERGER, 2006;
SIRIEIX et al., 2007). Para compreender os fatores que influenciam as
motivações de compra de produtos orgânicos do consumidor de varejo é
necessário definir como funciona este comportamento em termos de
valores pessoais, que é a ótica de análise utilizada neste trabalho. |
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| 2.1 Alimentos orgânicos no contexto do varejo alimentar | ||||||||||||||
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Um alimento é considerado orgânico quando o sistema de produção que o originou não utilizar agrotóxicos e fertilizantes químicos, envolvendo, assim, a substituição de insumos sintéticos por insumos naturais e biodegradáveis. Há que se observar o período de transição entre um sistema convencional e um orgânico, pois se o solo ou os animais apresentarem quaisquer resquícios de produtos tóxicos ou sintéticos, o alimento não será certificado como orgânico (BRASIL, 2007). A crescente competitividade do mercado tem colocado as empresas em situações onde estas têm que diferenciar seus produtos. As questões de saúde e de preservação ecológica têm surtido impacto nas decisões dos consumidores, mostrando oportunidades aos produtores de alimentos orgânicos em expor seus produtos a essa demanda (SILVA; CÂMARA, 2005). Desta forma, observa-se um processo produtivo que visa proteger o meio ambiente e preservar a qualidade biológica dos alimentos, almejando, em conseqüência, a saúde dos solos, águas e consumidores. No entanto, de acordo com Silva (2003), este processo está sujeito a baixas produtividades em relação ao sistema convencional e custos adicionais com certificações. Para que sejam considerados orgânicos estes produtos precisam receber um selo de certificação, que identifica a procedência do produto, bem como as práticas de cultivo, livre de fertilizantes químicos ou agrotóxicos. Os certificados ainda atestam as condições de trabalho e remuneração das pessoas envolvidas na produção. Estes certificados são emitidos por agências certificadoras, responsáveis, ainda, pela inspeção e orientação do processo produtivo destes produtos (DENOBILE, 2005). Apesar de tal importância legal, o consumidor brasileiro ainda não localiza diferenças relevantes entre um orgânico certificado e outro sem selo de certificação (SILVA, 2003). De 2002 a 2006 estima-se um crescimento de 43% no mercado mundial de alimentos orgânicos, ou seja, de 23 bilhões de dólares para 40 bilhões de dólares. Aproximadamente existem 31 milhões de hectares, cultivados com orgânicos em mais de 633.000 propriedades espalhadas por 120 países. A Oceania é responsável por 39% da área cultivada em orgânicos, seguida da Europa (23%) e América Latina (19%). Os principais mercados consumidores são a União Européia e os Estados Unidos, onde há um sub-atendimento da demanda. Há ainda um notável crescimento da demanda nos países em desenvolvimento, países estes que ainda carregam uma taxa de crescimento da produção mais elevada que os países desenvolvidos. O Brasil conta com aproximadamente 842 mil hectares e 15.000 propriedades certificadas (WILLER; YUSSEFI 2007). Na distribuição destes produtos, os supermercados vêm se tornando agentes dominantes e de grande relevância em todas as partes do mundo onde há consumo de orgânicos (GUIVANT, 2003). Segundo esta autora, os supermercados conseguem aumentar o fluxo de pessoas nas lojas com a disponibilização de seções com FLV (frutas, legumes e verduras) onde, visando este fim, há perspectiva de que o setor invista cada vez mais neste tipo de operação.
Características comuns entre consumidores de alimentos orgânicos
consistem em residir em grandes cidades, níveis de escolaridade e renda
elevados. Quanto ao comportamento de compra, no Brasil, estes produtos,
que antes eram distribuídos quase somente em feiras livres, têm mostrado
grande expansão nos canais supermercadistas. Na América Latina,
destacam-se como principais canais de distribuição de orgânicos os
supermercados, as lojas especializadas, as feiras livres e os esquemas
de entrega domiciliar (KNY et al, 2005). Definidas as
características do alimento orgânico e seu ambiente de mercado, destacase a necessidade de abordar aspectos
teóricos sobre o comportamento do consumidor. O próximo tópico trata
deste assunto. |
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| 2.2 Comportamento do consumidor e a influência dos valores pessoais | ||||||||||||||
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O processo de decisão de compra inclui o estudo de como o consumidor
toma decisões ao longo de seu envolvimento com um determinado produto.
Conforme Blackwell, Miniard e Engel, (2005 p.6)
o comportamento do consumidor pode ser definido como “as atividades
com que as pessoas se ocupam quando obtêm, consomem e dispõem de
produtos e serviços”. Os consumidores decidem comprar um produto na
intenção de resolver algum problema, satisfazer algum desejo ou
necessidade, formando um processo de decisão de compra. Blackwell,
Miniard e Engel, (2005) sugerem um modelo seqüencial do processo de
decisão de compra com base em sete estágios: reconhecimento da
necessidade, busca de informações, avaliação de alternativas
pré-compra, compra, consumo, avaliação pós-consumo e descarte. Em complemento a esse modelo, Levy e Weitz (2000), destacam que durante este processo, o consumidor é submetido a exercer esforços no processo de decisão de compra de um determinado bem ou serviço. Quanto maior for o envolvimento de compra, maior o gasto psicológico e físico do comprador neste processo Aplicar o estudo do comportamento do consumidor em estabelecimentos de varejo implica na observação de atitudes dos clientes frente à loja e frente aos produtos, de modo a proporcionar estrutura e suprimentos adequados aos seus desejos. No varejo, para o que os estabelecimentos possam adequar suas ofertas em termos de produtos e serviços aos anseios dos consumidores, é importante conhecer os tipos de clientes e os tipos de produtos que motivam as ações destes em direção ao consumo. (PARENTE, 2000). Diante destas definições teóricas sobre o comportamento do consumidor, destaca-se a linha de pensamento que consiste na percepção de valores como influência neste comportamento. Os valores consistem em crenças que influenciam as atitudes humanas, inclusive a ponto de influenciar o processo de decisão de compra de um determinado bem ou serviço (KNY et al. 2005). Diversos autores estudam a influência de valores pessoais no comportamento do consumidor. Estes citam como relevante, ao longo da literatura deste assunto, o modelo da escala de valores de Schwartz (GUTMAN, 1982; GUTMAN, 1991; NASPETTI; ZANOLI, 2004; THOMPSON; ENGELKEN, 2004; BLACKWELL; MINIARD; ENGEL, 2005; KNY et al., 2005; VILAS BOAS, 2005; VILAS BOAS, 2007). A escala de Schwartz (1992) implica em um instrumento de análise, que apresenta dez tipos de valores e seus respectivos impactos na motivação do ser humano em direção ao atendimento de tais valores. A escala tem como pressupostos a influência dos valores na motivação humana e, ainda, a diferença da visão de mundo entre pessoas. Por exemplo: certas pessoas são dominadas por valores hedonistas, enquanto outras possuem valores coletivos, como benevolência e universalismo. Em geral, as pessoas têm dificuldade em manter um comportamento dando ênfase a dois tipos antagônicos de valores, como estes anteriormente citados, por estarem, desta forma, assumindo motivações conflitantes em relação às ações desejadas. A escala de Schwartz fornece a possibilidade de se classificar os tipos de motivação representados por determinados valores. Segundo Schwartz (1992), os valores correspondem a objetivos que atendem ao interesse de indivíduos ou grupos. No modelo de Schwartz (1992), os valores pessoais podem ser classificados em quatro dimensões: abertura à mudança, auto-transcendência, autoaprimoramento e conservadorismo. Estas dimensões permitem agrupar diferentes tipos de valores que influenciam o comportamento das pessoas. Estes tipos de valores, ou domínios motivacionais, são definidos no modelo e caracterizam dez tipos:
Neste trabalho, os valores identificados na pesquisa de campo foram classificados conforme a perspectiva de Schwartz (1992). |
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2.3 Considerações sobre a cadeia de meios e fins |
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Desde a sua
implementação no campo do marketing, mais especificamente para o estudo
do comportamento do consumidor, a teoria da cadeia de meios e fins (Means End Chain Theory ou MEC) tem
sido utilizada em diversas pesquisas que buscam a identificação de
valores pessoais e as características de produtos/serviços capazes
de prover tais valores (GUTMAN, 1988; REYNOLDS; CRADDOCK, 1988;
GUTMAN, 1991; WALKER; OLSON, 1991; CLAEYS; SWINNEN; VANDEN ABEELE,
1995; GENGLER; KLENOSKY; MULVEY, 1995; REYNOLDS et al., 1995;
HOFSTEDE et al.,1998; REYNOLDS; LEPPARD; RUSSEL; COX, 2004). A MEC pode contribuir na identificação dos valores de consumidores, bem como do potencial que determinados produtos (meios) têm de atender tais valores (fins) por meio de seus atributos percebidos. “A means end chain is a model that seeks to explain how a productor service selection facilitates the achievement of desired end states” (GUTMAN, 1982 p.60). Desta forma, o comportamento de um grupo de consumidores pode ter as mesmas percepções em termos de atributos, porém, distinguir-se em termos das conseqüências e dos valores providos por tais atributos. Um determinado grupo pode concordar entre si que um alimento possui um cheiro agradável, mas nem todos os consumidores concordarão que tal atributo possa conduzi-los a uma melhor alimentação ou, melhor qualidade de vida. A principal idéia da cadeia de meios e fins consiste em que todo produto tem atributos que conduzem a benefícios e valores. Esta seqüência de atributos, conseqüências e valores é o foco do modelo (GUTMAN, 1982; REYNOLDS E GUTMAN, 1988; VALETTEFLORENCE; RAPPACCHI, 1991; MAKATOUNI, 2002). Estes atributos podem sinalizar ao consumidor a capacidade de obter ou não determinadas conseqüências por meio de seu respectivo uso. Por este motivo, o modelo de Gutman (1982) proporciona o estudo da relação entre atributos (características dos produtos) e conseqüências (características das pessoas, algo que venha a acontecer com a pessoa caso ela consuma o produto) tais como ganho de tempo ou ter mais saúde. Por meio desta ligação entre atributos e conseqüências, o consumidor consegue distinguir os produtos que são capazes de satisfazer seus desejos e os que não são capazes. Ao considerar esta estrutura perceptiva, o modelo da MEC implica em uma representação de diversas escalas conectadas que revelam, de forma agregada, a percepção dos consumidores com relação ao uso ou consumo de determinado produto. Esta perspectiva da MEC, provida por Gutman (1982), proporciona a investigação dos processos de categorização da percepção do consumidor. Esses processos consistem na compreensão de como o consumidor organiza os atributos percebidos em um produto e suas respectivas ligações com os estados futuros desejados. |
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Este trabalho é constituído de pesquisas bibliográficas sobre temas como comportamento do consumidor e alimentos orgânicos, no intuito de contextualizar o objeto de estudo, que consiste no comportamento do consumidor de frutas, legumes e verduras (FLV) orgânicas em supermercados da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Além destes temas, foi abordada a teoria da cadeia de meios e fins, que baseia a estrutura teórica da técnica laddering, utilizada para a coleta, análise e interpretação dos dados. Foram realizadas 30 entrevistas em profundidade com pessoas que efetivamente consumiram FLV orgânicos durante o período de permanência do entrevistador no setor em que estes eram vendidos. Foram considerados consumidores de orgânicos, as pessoas que consumiam orgânicos há mais de seis meses, e o fazem pelo menos uma vez por mês. As entrevistas foram realizadas em dois pontos de varejo (um supermercado e um hipermercado) que disponibilizavam orgânicos certificados, entre os meses de agosto e novembro de 2007, na cidade de Uberlândia. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas e submetidas a uma análise de conteúdo para agrupamento de sinônimos e atribuição de códigos de resumo para cada sinônimo padronizado. Esse procedimento tinha como intuito determinar quais elementos (atributos, conseqüências e valores) foram percebidos pelos consumidores e quais atributos conduziam a determinadas escalas de conseqüências e valores. A orientação para a coleta, interpretação e análise de dados partiu dos pressupostos da literatura sobre a laddering, que se caracteriza como uma técnica de pesquisa qualitativa utilizada por diversos pesquisadores para o estudo da estrutura de valores envolvida no processo de decisão de compra do consumidor, ou da percepção de valor que este destina a um determinado produto. Neste intuito, a técnica foi utilizada pelos seguintes autores: Reynolds e Gutman (1988); Reynolds e Craddock (1988); Gutman (1991); Walker e Olson (1991); Claeys, Swinnen e Vanden Abeele (1995); Gengler, Klenosky e Mulvey (1995); Reynolds e outros (1995); Hofstede e outros (1998); Leão e Mello (2002); Leppard, Russel e Cox (2004); Serralvo e Ignácio (2004); Veludo de Oliveira e Ikeda (2004); Padel e Foster (2005); Vilas Boas (2005); Vilas Boas e outros, (2006); Veludo de Oliveira, Ikeda e Campomar (2006); Flores Neto e Silveira (2007); Pimenta e outros (2007); Pimenta (2008). A laddering, de certo modo, faz com que o entrevistado pense sobre a relação entre atributos, conseqüências e valores, até que este revele naturalmente as razões para o consumo de um determinado bem ou em um determinado local (NASPETTI; ZANOLI, 2004). De acordo com Reynolds e Gutman (1988) as fases da laddering, compreendem:
Na etapa da construção do MHV deve ser definido o ponto de corte que pode variar de acordo com a quantidade de relações entre atributos, conseqüências e valores obtidos. Tal variação deve ser relativa frente à freqüência de relações encontradas na análise de conteúdo. Toma-se, desta forma, recomendação de Reynolds e Gutman (1988) sobre o ponto de corte, que deve abranger entre 75 e 80% dos relacionamentos mostrados na matriz de implicação. Desta forma, não são destacados os relacionamentos com baixa incidência e, por conseqüência, não significantes. Além desta recomendação, sugere-se que o mapa tenha clareza suficiente para facilitar a visualização das principais cadeias, as cadeias não significativas. (REYNOLDS; GUTMAN, 1988; MAKATOUNI, 2002; VILAS BOAS, 2005; VILAS BOAS, 2006; PIMENTA et al., 2007). Diante destas recomendações foi utilizado o ponto de corte 3, que abrangeu aproximadamente 67% das relações, porém, proveu um MHV mais coerente, composto de elementos de incidência igual ou maior a três e descartando elementos não significantes. O último passo da análise é identificar as orientações de valor dominante, ou seja, quais cadeias são mais relevantes do MHV, no intuito de observar quais foram as que mais contribuíram para o resultado (LEÃO; MELO, 2002). Em auxílio ao uso da laddering, o software Mecanalyst, desenvolvido e utilizado por Naspeti e Zanoli (2004), colabora para facilitar o processo de codificação dos elementos, organização dos dados e construção das estruturas de análise que caracterizam a técnica. Neste trabalho o Mecanalyst foi utilizado para a construção da matriz de implicação e do mapa hierárquico de valores (derivados dos dados obtidos na pesquisa de campo), visto que também foi adotado por vários autores em trabalhos que têm por tema o estudo do comportamento do consumidor de alimentos (NASPETTI; ZANOLI, 2004; ROININEN; ARVOLA; LÄHTEENMÄKI, 2006). |
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| 4.Análise e discussão dos resultados | ||||||||||||||
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Neste tópico são mostrados os sinônimos dos elementos
identificados na pesquisa, agrupados e codificados conforme seu
significado na percepção dos entrevistados. Estes resultados são
relacionados com as definições teóricas Schwartz (1992) sobre valores
pessoais. Além destes dados, foi caracterizado o perfil
sócio-demográfico dos entrevistados e expostas algumas observações sobre
o ambiente em que eram vendidos os produtos. Ao final do tópico são
apresentados a matriz de implicação e o mapa hierárquico de valor. A grande maioria dos consumidores de produtos orgânicos entrevistados (80,6%) possui algum curso de graduação (ensino superior) ou o estão cursando e 58% detêm uma remuneração mensal acima de 04 (quatro) salários mínimos mensais. Quanto ao gênero, 64,5% dos entrevistados eram do sexo feminino. Quanto ao estado civil, 70,9% eram casados ou viviam um relacionamento estável, seguidos de 12,9% solteiros, 12,9% divorciados e 3,3% viúvos. A maioria dos entrevistados possuía idade superior a 36 anos, perfazendo um percentual de 83,8%, sendo 38,7% com até 50 anos e 45,1% com mais de 51 anos. Quanto aos questionamentos sobre o consumo de orgânicos, 83,87% consumiam orgânicos há um ano ou mais e 93,5% consomem alimentos orgânicos pelo menos uma vez por mês. Observou-se que, no caso destes recintos de varejo, da cidade de Uberlândia, os produtos orgânicos recebem um tímido ou inexistente destaque visual diante dos convencionais. Tratava-se de gôndolas próximas ou juntas aos FLV convencionais, ou ainda, hidropônicos. Silva e Câmara (2005) destacam que os orgânicos, por estarem em fase de introdução no mercado brasileiro, devem ser destacados diante dos convencionais para que os consumidores possam perceber suas diferenças e desejar os benefícios que podem prover. Segundo estes autores, o uso de estratégias de merchandising como setores especiais para orgânicos ou gôndolas destacadas por anúncios ou placas, podem acelerar a compreensão dos consumidores sobre estes produtos, e, consequentemente, seu consumo. As conseqüências identificadas, sob a mesma estrutura de apresentação anterior, foram: (11) apoio à agricultura familiar, (12) evita desperdício, (13) evitar doenças degenerativas, (14) maior apetite, (15) melhora nos relacionamentos pessoais, (16) melhor assimilação pelo sistema digestivo, (17) melhor desempenho no trabalho, (18) melhor desenvolvimento intelectual/emocional, (19) melhor estética do prato, (20) não acumulação de resíduos químicos no organismo, (21) não consumir remédios, (22) não precisa lavar tanto, (23) poupar dinheiro, (24) poupar tempo, (25) praticidade, (26) prazer em comer, (27) respeito ao meio ambiente, (28) saúde, (29) segurança, (30) ter disposição, (31) ter uma alimentação adequada. Quanto aos valores, principal objeto de estudo dentro desta análise sobre a conexão entre estes três elementos (atributos, conseqüências e valores), os consumidores demonstraram sua preocupação em atingir: (32) bem estar, (33) dinheiro para comprar outras coisas, (34) felicidade, (35) liberdade, (36) nostalgia, (37) qualidade de vida, (38) realização, (39) tempo para fazer outras coisas, (40) valorização da humanidade, (41) viver mais e melhor. Os valores obtidos foram classificados no quadro 1, que expõe as dimensões e tipos de valores pessoais segundo Schwartz (1992). Pode-se observar, no quadro 1, a concentração de valores na classificação “hedonismo”, que pertence às dimensões “auto-aprimoramento” e “abertura à mudanças”. Tal fato identifica um perfil de valores individualistas e momentâneos provindos do público entrevistado; portanto, esta dimensão da escala de Schwartz destaca-se como dominante na influência do comportamento destes consumidores. A alta incidência dos valores 32 (bem estar) e 41 (viver mais e melhor) reforçam ainda mais a relevância desta dimensão em tal comportamento. Foram identificados na dimensão “auto-aprimoramento” os valores 33 (dinheiro para comprar outras coisas) e 38 (realização), dentro do tipo de valor denominado “poder”. Na dimensão “abertura à mudança”, além do hedonismo, comentado anteriormente, foram identificados os tipos de valores estimulação e auto-direcionamento, representado pelos,valores encontrados na pesquisa 37 (qualidade de vida) e 35 (liberdade), respectivamente, que também se identificam como valores individuais. Entre os valores considerados por Schwartz como coletivos, foi identificado o 40 (valorização da humanidade), classificado na dimensão “auto-transcendência” e no tipo “benevolência”. A identificação de tal valor indica a preocupação dos entrevistados em respeitar o próximo e o bem estar comum entre os homens, em uma perspectiva de longo prazo; porém, sua incidência foi menor do que a incidência de valores individuais como qualidade de vida, bem estar e viver mais e melhor. Tal fato demonstra a existência desta preocupação coletiva, porém, com um enfoque relativamente baixo e, provavelmente, um poder de influência menor no comportamento destes consumidores em comparação com os valores individuais. |
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| Quadro 1 – Relação entre os valores dos entrevistados e a classificação de Schwartz Fonte: Dados da pesquisa e baseado em Schwartz (1992) | ||||||||||||||
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Basicamente, identifica-se um perfil de consumidores preocupados primeiramente e enfaticamente com o bem estar individual e com a manutenção deste bem estar individual ao longo do tempo. Há, ainda, influências de valores coletivos, apesar de identificados em menor nível. |
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| 4.1 Matriz de implicação | ||||||||||||||
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Pode-se observar na matriz de implicação (tabela 1) todas as
ligações diretas e indiretas obtidas na presente pesquisa. Como forma de
exemplo para a análise da matriz, cabe ressaltar a relação entre a
conseqüência 28 e o valor 37 (linha 28 e coluna 37);. Pode-se observar a
incidência de 7 ligações diretas e 4 ligações indiretas. A ligação entre
o atributo 1 e a conseqüência 22 (linha 1 e coluna 22) possui 6 ligações
diretas e 2 ligações indiretas. Já a ligação entre o mesmo atributo 1
com o valor 41 representou 8 ligações indiretas e nenhuma ligação
direta, ilustrando a idéia de que as ligações indiretas ocorrem entre
elementos não adjacentes, como no caso deste atributo (1) que necessita
de elementos intermediários (conseqüências) para atingir o valor 41. As ligações diretas, ao lado direito das células, representam as ligações adjacentes entre os elementos. Observa-se como exemplo a ligação identificada pelo atributo “1.características sensoriais” leva à “14.maior apetite”, que leva à “31.ter uma alimentação adequada”, que leva à “13. evitar doenças degenerativas” que leva ao valor “37.qualidade de vida”. Existem ligações diretas entre 1 e 14, 14 e 31, 31 e 13, 13 e 37. No entanto, de certa forma, a conseqüência 31 conduz ao valor 37, bem como os demais elementos não adjacentes tem essa capacidade, participando de uma mesma escala. Visto que a laddering tem o objetivo de evidenciar os motivos de um comportamento para a satisfação de uma necessidade (de compra de alimentos, no caso), bem como seus meios para alcançar tal satisfação, o uso da análise de ligações diretas e indiretas se justifica pelo fato que existem várias formas de se chegar a um determinado fim ou valor desejado. |
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| 4.2 Mapa hierárquico de valor (MHV) | ||||||||||||||
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O mapa hierárquico de valor (MHV) consiste no
objetivo final da técnica
laddering. Ele propicia
visualizar graficamente quais atributos de produto conduzem a
determinados valores pessoais de seus consumidores, de modo a
justificar uma preferência de consumo ou um comportamento de compra. Foram identificados 41 elementos, sendo 10 atributos, 21 conseqüências e 10 valores, formando um total de 810 ligações, sendo 371 diretas e 439 indiretas. Os elementos com incidência igual ou maior ao ponto de corte 3, comentado na metodologia, são agrupados de modo a formar seqüências de ligações entre atributos que conduzem a determinadas conseqüências e, em seguida, a determinados valores. Os agrupamentos, que formam uma perspectiva cognitiva comum, são definidos como cadeias. A figura 1 apresenta o mapa hierárquico de valor obtido a partir das entrevistas aos consumidores de frutas, legumes e verduras orgânicas no varejo da cidade de Uberlândia. Este mapa consiste em uma forma de expressar os tipos de comportamento entre o público entrevistado. Conforme se observa no mapa, existem ligações entre os atributos, conseqüências e valores que indicam a capacidade de um determinado elemento em conduzir a outro elemento. Como se pode perceber, por exemplo, o atributo 5 leva à conseqüência 31, que leva à outra conseqüência 13, que leva ao valor instrumental 37, que leva ao valor terminal 41. Desta forma, nota-se que este tipo de padrão comportamental busca consumir produtos mais nutritivos com o intuito de ter qualidade de vida, e conseqüentemente, viver mais, de forma prazerosa. (Para ter acesso ao (MHV) entrar em contato com o autor) |
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Foram localizadas no mapa 111 cadeias, se destacando as que são formadas a partir do atributo 1 (ausência de insumos químicos) que apresentou 15 cadeias diretas com conseqüências e uma ligação com o atributo 2 (características sensoriais) que lhe fornece mais 29 cadeias, totalizando 44 cadeias. Devida alta incidência obtida nas cadeias principiadas por estes dois atributos (1 e 2), perceptível pela maior espessura das ligações entre os elementos, considerar-se-á que formam cadeias dominantes de percepção. Tal afirmação implica em caracterizar estas cadeias como tendo influência dominante no comportamento dos consumidores de FLV orgânicos no varejo uberlandense. Estas cadeias, consideradas “mais fortes” partiram de percepções cognitivas compartilhadas por um número maior de entrevistados do que as demais cadeias. Como forma de prover a análise, das cadeias que compõem o mapa, o quadro 2 relaciona os atributos encontrados no mapa com as percepções de valores dos consumidores, ou seja, os atributos e conseqüências como formas de alcance destes valores. |
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| Quadro 2 – Resumo das percepções de valor provindas de cada atributo identificado Fonte: Dados da pesquisa. | ||||||||||||||
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(Para ter acesso ao diagrama sobre (MHV)
entrar em contato com o autor)
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| 5. Considerações finais | ||||||||||||||
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Tendo em vista as questões discutidas neste trabalho, é
importante considerar que o estudo do comportamento do consumidor se faz
relevante para a aplicação adequada de ações relacionadas ao
desenvolvimento de produtos, bem como às formas de atendimento que
apóiem a compra e o consumo destes. Os resultados revelam, entre os elementos dominantes do comportamento destes consumidores, a preocupação com os atributos: ausência de insumos químicos, características sensoriais (sabor, cheiro e cor), mais concentrado, mais nutritivo, menor perecibilidade, qualidade e sujo de terra/feio. Estes atributos conduzem ao alcance das conseqüências: evitar desperdício, evitar doenças degenerativas, ter um maior apetite, melhores relacionamentos pessoais, melhor assimilação pelo sistema digestivo, melhor desempenho no trabalho, melhor desenvolvimento intelectual/emocional, não acumulação de resíduos químicos no organismo, não consumir remédios, não precisar lavar tanto, poupar tempo, praticidade, prazer em comer, respeito ao meio ambiente, saúde, segurança, ter disposição e ter uma alimentação adequada. Os consumidores acreditam que estas conseqüências são capazes de conduzi-los aos valores: bem estar, felicidade, nostalgia, qualidade de vida, tempo para fazer outras coisas, valorização da humanidade e viver mais e melhor. O mapa hierárquico de valor (figura 1) permitiu evidenciar as principais cadeias (cadeias dominantes) de elementos, que exercem maior influência no comportamento destes consumidores. Estas se baseiam principalmente nas cadeias formadas a partir dos atributos 1 (ausência de insumos químicos) e 2 (características sensoriais: sabor, cheiro e cor). Definidos quais os valores pertencentes à percepção deste consumidor, a escala de Schwartz se mostrou útil para classificá-los quanto ao tipo de motivação relacionado. Os consumidores de orgânicos em Uberlândia mostraram, de modo enfático, preocupação com o bem estar individual e com sua manutenção ao longo do tempo, por meio de qualidade de vida e de uma vida saudável. Nota-se a influência de valores coletivos, porém em baixo nível de incidência e baixa quantidade de elementos. A alta concentração dos valores identificados nas dimensões "auto-aprimoramento" e "abertura a mudanças" na escala de Schwartz, consideradas dimensões de valores individualistas, supera os valores considerados coletivos, como o caso das dimensões "auto-transcendência", representada na pesquisa apenas pelo valor 40 (valorização da humanidade) e da dimensão "conservadorismo" a qual não foi identificado nenhum valor. Portanto, as dimensões "auto-aprimoramento" e "abertura a mudanças" da escala de Schwartz, destacam-se como dominantes na influência do comportamento destes consumidores. Diante destas observações, foi notado ao longo do período de entrevistas, um fraco destaque dos alimentos orgânicos diante dos convencionais, no que se refere à estratégia de divulgação interna (merchandising). As gôndolas que continham orgânicos se situavam muito próximas ou juntas aos FLV convencionais ou, ainda, hidropônicos. Silva e Câmara (2005) encontraram a mesma situação em supermercados de Londrina, Paraná, e citam que nas grandes redes supermercadistas americanas são realizadas estratégias de merchandising como setores especiais para orgânicos ou gôndolas destacadas por anúncios ou placas. Estas estratégias podem acelerar a compreensão dos consumidores sobre estes produtos, e, conseqüentemente, incrementar seu consumo. Tais estratégias podem ser relevantes em supermercados brasileiros pelo fato de os orgânicos se encontrarem em fase de introdução neste mercado. Portanto, os orgânicos devem ser destacados diante dos convencionais para que os consumidores possam perceber suas diferenças e desejar os benefícios que podem prover. As limitações do trabalho podem ser destacadas diante de sua abrangência setorial (varejo) e por ser apenas regional. Esse fato implica na necessidade da realização de pesquisas em outras localidades/setores. Podem ser desenvolvidos trabalhos que utilizem de métodos quantitativos e, assim, possibilitem uma amostra de maior volume com uso de questionários estruturados, de modo a testar as proposições sobre valores aqui alcançadas; trabalhos relacionados à segmentação por valores, podendo estas utilizar as percepções definidas por este trabalho, em busca da definição de estratégias de segmentação e posicionamento; pesquisas que comparem valores de consumidores de orgânicos entre diferentes regiões; pesquisas com o mesmo objeto de estudo e com o mesmo intuito propostos por este trabalho, porém em outros tipos de estabelecimento, tais como sacolões e feiras livres. |
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| Referências | ||||||||||||||
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