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As
Cadeias Produtivas de Alimentos Orgânicos do Município de |
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Glauco
Schultz Eugenio
Avila Pedrozo Luis
Felipe M. Nascimento
Trabalho publicado em 10/05/02
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1
Introdução Nas
últimas décadas ocorreram profundas modificações que causaram e ainda
estão causando fortes impactos na estrutura social de muitas nações.
Entre as muitas mudanças ocorridas, pode-se afirmar que o assunto
preservação e degradação ambiental vêm influindo em muitas das
grandes decisões, tanto na esfera local como global. No
setor agrícola, as questões ambientais sempre estiveram mais presentes,
devido a existência de diversos inter-relacionamentos com o meio
ambiente. Com o aumento da modernização das práticas agrícolas,
principalmente após a "Revolução Verde", ocorreram,
juntamente com os benefícios para a população, muitas preocupações
(além dos sociais e econômicos) quanto aos impactos ambientais destas
modernas técnicas, ressaltando-se o uso intensivo e desordenado de
insumos artificiais (agrotóxicos e fertilizantes) e da mecanização. O
presente estudo aborda a emergência de um segmento de mercado no setor de
alimentos e fibras dentro da perspectiva de um desenvolvimento sustentável.
O foco do trabalho está em produtos oriundos de um novo conceito de agricultura, denominada de orgânica.
Trata-se, atualmente, de um segmento do mercado de alimentos em expansão,
em todo mundo, originado através de grupos de produtores rurais
com suas diversas críticas, propostas e objetivos em relação aos
caminhos que a agricultura vem seguindo. Porém, os indutores deste
processo atualmente estão na outra ponta da cadeia produtiva, que são os
consumidores, sendo estes conquistados pela confiança nos trabalhos
realizados e também pelas mudanças de paradigmas quanto às questões
ambientais, à alimentação, hábitos de vida, saúde, oriundas, em
grande parte, pelas descobertas científicas das funcionalidades dos
alimentos na vida das pessoas. Nesse ponto é
que se encontra o foco desta proposta de estudo , ou seja, neste
rearranjo do sistema de distribuição dos produtos orgânicos em função
da crescente demanda por parte da população preocupada com aspectos
ambientais, sociais e de saúde.
No
mercado mundial de alimentos orgânicos estima-se um faturamento de US$ 20
bilhões, e até 2005 deverá
atingir a cifra de US$ 100 bilhões.[1]
Em torno de 100 países já produzem estes produtos em quantidades
comerciais, tendo um crescimento médio mundial de 30 % ao ano. A Alemanha
determinou que até 2005 toda alimentação infantil seja convertida para
orgânica, e previsões apontam para um crescimento da participação dos
alimentos ecológicos situada entre 5 % e 10 % do total de alimentos
consumidos em diversos países produtores.[2] No
Brasil a agricultura orgânica cresce de 20 a 50 % ao ano, conforme a região,
e representa um montante de
R$ 40 milhões em vendas, sendo 50 % desse total oriundo do mercado
externo. Porém, há estimativas de que o mercado interno represente
somente 10 % de um faturamento total no país entre
R$ 150 milhões a R$
200 milhões.[3] No
Rio Grande do Sul, foi constatado, através de pesquisa realizada pela
Emater/RS, a existência de 100 núcleos de produção agroecológica em
todo o Estado, abrangendo um total de 2,5 mil hectares. Estes núcleos
possuem desde 5 famílias até mais de 100 agricultores na região,
atuando, em grupos formais (cooperativas e associações) ou informais, na
produção, industrialização e comercialização de alimentos orgânicos.
O modo de comercialização
direta, através das feiras livres, é considerado pelos atuais agentes, o
mais adequado para a distribuição dos seus produtos, desde o início das
suas atividades, por propiciar a aproximação dos produtores rurais com
os consumidores finais, objetivando proporcionar para ambas as partes
trocas de experiências, que estimulem uma nova forma de ver a produção
e a comercialização agrícola. As feiras não possuem uma
disponibilidade diária para a venda dos produtos, sendo realizadas uma ou
no máximo duas vezes durante a semana.
Atualmente,
com o aumento da demanda destes produtos, o atual formato de comercialização
está se mostrando sem condições de atingir os objetivos tanto de
consumidores como de produtores, principalmente quando utilizado como única
ou predominante
estratégia de distribuição de alimentos orgânicos em determinado
local. Da
parte dos produtores, ao mesmo tempo que precisam de mais tempo na lavoura
para aumentarem a produção e atenderem a demanda, precisam também
dispor de um tempo maior nas feiras para comercializarem seus próprios
produtos, já que a quantidade de produtos e o número de locais de venda
está naturalmente aumentando. Este fato torna-se uma dilema para o
produtor de alimentos orgânicos, que visualizando o mercado em expansão,
e a necessidade e o objetivo de aumentar a escala de produção, precisa
também atender uma outra atividade, que é a comercialização. Essa
atividade,
mesmo quando feita no sistema de rodízio com outros produtores,
devido à organização da produção e comercialização de alimentos orgânicos
ser através de associações ou cooperativas, torna-se um limitador à
expansão dos negócios. Da
parte dos consumidores, muitos se dispõem em ir às feiras comprar os
seus produtos, mas mesmo assim esta não está à disposição todos os
dias da semana. Por outro lado, muitos que desejam comprar produtos orgânicos,
não estão dispostos a irem às feiras livres, mesmo que somente em um
dia da semana. Este fato pode ser verificado pelo grande aumento no número
de lojas de conveniência e de redes varejistas de alimentos convencionais
nos grandes centros, local onde os consumidores preferem fazer as suas
compras[4].
Esta
reestruturação do mercado de alimentos orgânicos, possui alguns
componentes que geram as problemáticas desta pesquisa, buscando-se na análise
realizada o entendimento destas questões. A atual forma de organização
produtiva e de comercialização, e os pressupostos básicos do que pode
ser considerado como produção orgânica, são gerados e estabelecidos
por um quadro institucional composto de regras, normas, valores, crenças
e padrões, muito presentes e fortes entre os agentes que compõem estes
sistemas produtivos. Estes pressupostos da
pesquisa nos levam a identificação e interpretação de duas lógicas
de gestão com objetivos opostos, em elos diferentes da cadeia produtiva,
que induzem a formas específicas de coordenação e de atendimento às
demandas. Após
a análise do contexto em que se encontram inseridos os atuais agentes das
cadeias produtivas de alimentos orgânicos, e a identificação das
necessidade de análise, apresenta-se os seguintes problemas de pesquisa: A
estrutura de coordenação e gerenciamento das cadeias produtivas de
alimentos orgânicos em Porto Alegre/RS atende de forma adequada a evolução
das
demandas e a reestruturação do mercado? O atual quadro
institucional e organizacional em que estão inseridos os integrantes
dessas cadeias produtivas de alimentos orgânicos possui capacidade de
atender e dar sustentação a demanda atual e potencial por estes
produtos? Para
responder os questionamentos acima, o presente estudo possui como
objetivos específicos a caracterização dos componentes das principais
cadeias produtivas, descrevendo-se as suas formas de coordenação e
gerenciamento e o quadro institucional e organizacional em que estas
cadeias produtivas estão inseridas. A partir desta caracterização e
descrição buscou-se identificar os fatores condicionantes do desempenho
e geradores de debilidades estruturais, com o objetivo de responder a
problemática acima apresentada. 2
Referencial teórico O
referencial teórico utilizado para o entendimento do problema de pesquisa
diz respeito a abordagem sobre Cadeias
Produtivas proposta pela Embrapa (Castro et
alii,1995,1998), a Teoria
Institucional e a abordagem sobre Gerenciamento
da Cadeia de Suprimentos. A
abordagem institucionalista foi utilizada para o entendimento do atual
quadro institucional, que gera os modos específicos de produção e
coordenação nas cadeias produtivas. A
abordagem de cadeias Produtivas utilizou-se para a análise e caracterização
da cadeia produtiva dos alimentos orgânicos, enquanto que a abordagem de
Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos foi utilizada para busca de seus
elementos e aspectos, com o objetivo de analisar a compatibilidade e
adequações das características desta abordagem com a atual estrutura e
coordenação das cadeias de produtos orgânicos. 2.1
Metodologia de análise de cadeias produtivas A
metodologia de análise de cadeias produtivas, desenvolvida pela Embrapa
(Castro et alii, 1995, 1998) com o objetivo de prospecção de demandas
tecnológicas, baseia-se em três vertentes teóricas e suas técnicas: na
teoria dos sistemas e no enfoque sistêmico (interdisciplinaridade), na
visão prospectiva (cenários futuros) e
nos conceitos de mercado segmentados (técnicas de marketing) de tecnologia, de insumos e de produtos. A etapas da
metodologia baseiam-se em elementos necessários para caracterização de um sistema: a) explicitação dos
objetivos e limites do sistema; b) caracterização do contexto ou
ambiente externo do sistema; c) definição dos componentes do sistemas e
seus respectivos fluxos ou interações; d) especificação dos insumos,
produtos saídos e pontos de estrangulamento, considerados críticos ao
desempenho do sistema. A
agricultura é definida, por esta metodologia, como componentes e
processos interligados que propiciam a oferta de produtos aos seus
consumidores finais, por intermédio da transformação de insumos pelos
seus componentes (Castro et alii,
1998). O sistema maior é chamado de agronegócio ou complexo
agroindustrial, sendo que este compõe-se de cadeias produtivas
(subsistemas), e estas possuem entre seus componentes os sistemas
produtivos que operam em diferentes ecossistemas ou sistemas naturais. Esta
metodologia foi utilizada na presente pesquisa como um dos referenciais teóricos
para a elaboração do roteiro de entrevistas aplicado nos estudos de
caso, com o objetivo de descrever os componentes e as características dos
elos e etapas que formas as principais cadeias de alimentos orgânicos com
atuação no município de Porto Alegre. Para facilitar a análise
dividiu-se o roteiro de coletas de dados e informações, conforme seqüência
lógica dos macro-segmentos que compõem a cadeia: aspectos relacionados a
montante da cadeia produtiva (antes da porteira); aspectos relacionados às
propriedades agrícolas ou sistemas produtivos (dentro da porteira); e
aspectos relacionados a jusnte da cadeia produtiva ( depois da porteira). Os
conceitos de ambiente institucional e organizacional foram aqui aplicados
conforme definições extraídas de Saes (2000). Esta autora define
ambiente institucional como aquele composto de um conjunto de regras,
tanto formais quanto informais, sendo que estas possuem o objetivo de
restringir o comportamento dos indivíduos e criar uma estrutura que
permita a interação humana nos campos políticos, sociais e econômicos.
As regra formais são aquelas criadas e estabelecidas por algum poder legítimo
(constituição de um país, leis, estatutos das organizações) e as
regras informais são aquelas que fazem parte da herança cultural ou de
um conjunto de valores transmitidos socialmente (tabus, costumes, tradições
e códigos tácitos de conduta). Já o ambiente organizacional é aquele
composto pelas organizações que representam o comportamento cooperativo,
de indivíduos que se unem em busca de determinado fim, constituindo
grupos políticos (partidos), sociais (igrejas, clubes), educacionais
(escolas, universidades) e econômicos (empresas, sindicatos, câmaras
setoriais, associações, cooperativas e agencias governamentais) O
ambiente institucional, para este estudo compreende as regras formais e
informais que atuam sobre os agentes inseridos nas cadeias produtivas de
alimentos orgânicos. As regras formais são todas aquelas que dizem
respeito as normatizações, certificações, regimentos, estatutos, instâncias
de deliberação, sistema legal, políticas setorial, entre outras. As
regras informais são os aspectos associados as filosofias e princípios
cooperativistas, associativistas e ecológicos, aspectos culturais,
costumes, tradições, históricos, valores importantes e que prevalecem,
hábitos, motivações, códigos de conduta, entre outras. O ambiente
organizacional, para a presente pesquisa diz respeito as Organizações Não
Governamentais (ONGs) que atuam com a produção ecológica, o aparato
estadual de crédito e assistência técnica a nível estadual e federal,
organizações cooperativas, Instituições Certificadoras, órgãos
reguladores, câmara setorial, entre outras entidades religiosas, de
ensino, pesquisa e sindicatos. Ressalta-se que optou-se por utilizar os
termos quadro institucional e organizacional, como aqules que contemplam
tanto os aspectos mais macros
(externos) como os mais micros (internos). 2.2
Gerenciamento da cadeia de suprimentos O
Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos (Supply
Chain Management) é uma abordagem sistêmica que busca integrar os vários
elos de uma cadeia, com o objetivo de obter vantagens competitivas através
não mais da competição indiscriminada, e sim através da cooperação
com outras empresas que fazem parte do mesmo ambiente competitivo. Esta
abordagem possibilita uma maior intervenção através de ações
gerenciais na cadeia, sendo muito utilizada no meio acadêmico para estudo
e resolução de casos empíricos. A amplitude desta abordagem, segundo
Pedrozo (1999), faz com que desenvolva-se interfaces e, algumas vezes, até
se confunda com outras áreas da teoria organizacional, dentre elas: logística/distribuição;
tecnologias da informação (TI), sistemas de comunicação e de
marketing; canais de distribuição e redes/alianças.
O
Supply Chain Management começou
a se desenvolver no final dos anos 80 (Fleury,1999), seguindo as
constantes revoluções nos conceitos gerenciais das últimas décadas.
Ainda existem confusões com o termo logística integrada, que aborda toda
cadeia de abastecimento, da entrada de matérias-primas até a entrega do
produto final. Porém segundo este autor, o SCM é mais abrangente, porque inclui um conjunto de processos de
negócios que em muito ultrapassa as atividades diretamente relacionadas
com a logística. Trata-se de uma ferramenta gerencial, que possibilita
uma redução dos custos operacionais, através da integração das operações
na cadeia de suprimentos, utilizada com outras tecnologias de
gerenciamento, tais como o ECR (Efficient
Consumer Response) ou o QR (Quik
Response). Bowersox
(1998) conceitua Supply Chain
como um termo que considera uma seqüência de compradores ou vendedores
trabalhando em conjunto para levar o produto da origem até a casa do
consumidor, ou seja, é uma série de relacionamentos. Comparativamente, a
logística é o movimento de produtos e de informações,
relativa aos relacionamentos na cadeia, incluindo-se transporte,
armazenagem, estoques e a informação inerente a tudo isso. A logística
é uma parte do SCM, sendo este
uma estratégia maior do negócio. Gerenciamento
da Cadeia de Suprimentos também é definido “como uma metodologia
desenvolvida para alinhar todas as atividades de produção de forma
sincronizada, visando a reduzir custos, minimizar ciclos e maximizar o
valor percebido pelo cliente final por meio do rompimento das barreiras
entre departamentos e áreas (Wood & Zuffo, 1998, p. 61). Este
conceito engloba a logística integrada, parcerias com fornecedores,
distribuidores e varejistas, sincronização da produção, sistema de
informações, previsão de vendas, sendo que todas estas atividades,
segundo este autor, fazem parte da nova cadeia de valores e do novo
sistema de valores, orientados para o atendimento ao cliente. 2.3
Teoria institucional De
acordo com os institucionalistas, as organizações estão inseridas em um
ambiente constituído por regras, crenças, mitos, valores, elementos
sociais, culturais e cognitivos criados e consolidados por meio da interação
social. A
abordagem institucional surge como uma nova forma de analisar o ambiente e
os aspectos internos e externos em que os agentes econômicos estão
inseridos, a partir de novos fatores que afetam diretamente os resultados
das organizações. As oportunidades no ambiente são originadas não
somente através das restrições tradicionais da teoria econômica, mas
também pelas restrições institucionais. Por sua vez as organizações são
criadas com o objetivo de explorar essas oportunidades, sendo estas
influenciadas pelas instituições, como também influenciam o modo como
as instituições evoluem. Carvalho,
Vieira & Lopes (1999) afirmam que o processo de institucionalização,
pode ser descrito como a substituição dos fatores técnicos pelos
valores na determinação das tarefas organizativas. Para os
institucionalistas as organizações estão inseridas em um ambiente que
é formado pelas dimensões técnicas e institucionais, onde buscam
consolidar padrões normativos com base em suas interpretações,
objetivando competir não somente por recursos ou consumidores (eficiência
racional interna e externa), mas também por poder e legitimidade
institucional (Meyer & Rowan, 1992; Machado-da-Silva & Fonseca,
1999) Os
institucionalistas afirmam que não é racionalidade, mas sim os instintos
e costumes que conduzem os comportamentos na econômica, ressaltando-se
assim a importância de outras disciplinas, como a sociologia, a política
e a antropologia, para estudos econômicos. Afirmam ainda que os modelos
puramente matemáticos e teóricos, utilizados pelos neoclássicos,
distorcem a realidade por não incluírem o ambiente institucional em que
a economia está inserida. Para
os autores DiMaggio e Powell, Scott e Meyer, o ambiente técnico
caracteriza-se pela troca de bens e serviços, enquanto o ambiente
intitucional conduz o estabelecimento e a difusão de normas de atuação
necessárias para o alcance da legitimidade organizacional. Desse modo,
organizações submetidas a pressões do ambiente técnico e do ambiente
institucional são avaliadas, respectivamente, pela eficiência e pela
adequação às exigências sociais." DiMaggio e Powell (1983), Scott
e Meyer (1992) apud
Machado-da-Silva, Fonseca e Fernandes (1999). Uma
aproximação maior entre a teoria econômica e o institucionalismo, foi
realizada por autores ligados a Nova Economia Institucional, onde se
destaca nas décadas de 70, 80 e 90, a obra de Oliver Williamson, como uma
seqüência do trabalho de Ronald Coase, e também o trabalho de Douglas
North. Commons
(1961) apud Bromley (1989) define
instituição com uma ação coletiva de restrição, liberação e expansão
das ações individuais. A atividade humana requer certas convenções que
regularizem e facilitem o processo de interação social. 3
Métodos e procedimentos de pesquisa O
método de pesquisa utilizado, na presente pesquisa, é o estudo de caso.
A escolha deste método foi condicionada pelos objetivos propostos,
possuindo um caráter exploratório, já que é necessário buscar um
maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa. A
unidades de análise do estudo são formados pelos agentes que formam as
principais cadeias produtivas de alimentos orgânicos no município de
Porto Alegre/RS, portanto, tem-se como unidade principal de análise, a
cadeia produtiva. Para
a seleção das empresas e das cadeias produtivas a serem analisadas,
realizou-se entrevistas, com os agentes que participam da Feira da
Agricultura Ecológica (FAE), realizada todos os sábados no bairro Bom
Fim, mais especificamente na rua José Bonifácio, entre as ruas
João Pessoa e Osvaldo Aranha, no município de Porto Alegre. A grande
maioria dos agentes que formam as principais cadeias produtivas de
alimentos orgânicos em Porto Alegre, se fazem presente neste espaço de
comercialização. As Feiras da Agricultura Ecológica são administradas
pela Cooperativa Ecológica Coolméia e pela Cooperativa Ecológica Arcoíris,
respectivamente primeira e segunda quadra, da referida rua no Bairro Bom
Fim. Este espaço de cpmercialização foi pioneiro em Porto Alegre e no
Estado, e reúne os grupos agroecologistas mais representativos do setor
de alimentos orgânicos, além de possuir uma ampla diversidade de
produtos, tanto in natura como
industrializados, e um grande volume de comercialização. Nesta
feira livre identificou-se 31 agentes (cooperativas, associações e
produtores individuais) que possuem bancas de comercialização de
produtos orgânicos, tanto na primeira como na segunda quadra da referida
rua. Destes 17 não possuem configuração jurídica (associação ou
cooperativa), devido serem sócios (famílias individuais ou em grupos
informais de agricultores) da Cooperativa Coolméia. Os outros 14 agentes
(unidades de análise) formam, portanto, a população de estudo que são
caracterizados como grupos formais (juridicamente) de agricultores
agroecologistas que formam as principais cadeias de alimentos orgânicos
em Porto Alegre. Após
o levantamento do universo de agentes (população de estudo) envolvidos
com produtos orgânicos em Porto Alegre e representativo do setor,
selecionou-se uma amostra para a realização de visitas e entrevistas
junto aos responsáveis (coordenadores e presidentes) pelas instituições
jurídicas (cooperativas e associações), para registro de informações
sobre as condições gerais das mesmas. Por se tratar de um estudo
aprofundado, e de caráter qualitativo, estipulou-se um número adequado
de unidades de análise, de forma a contemplar a diversidade de situações
e de características encontradas na população de estudo
(representatividade) e garantir a qualidade da pesquisa dentro dos prazos
estabelecidos. Estabeleceu-se, portanto, uma amostra de cinco (05) unidade
de pesquisa, ou seja, cinco estudos de caso, como adequada para atender os
objetivos propostos. A
seleção da amostra das cadeias produtivas a serem pesquisadas, foi
realizada por conveniência (para a pesquisa), conforme os seguintes critérios:
distribuição geográfica da amostra de pesquisa; tipo de instituição
jurídica (associação e cooperativa); diversidade de locais de
comercialização e importância da FAE (um caso com poucos locais e
grande importância da FAE e outro caso ao contrário); e como critério
de desempate utilizou-se o critério do maior faturamento anual na FAE. Para
o desenvolvimento da pesquisa e análise nas cadeias produtivas
selecionadas, foi realizada uma abordagem qualitativa, através de
levantamento de dados e informações secundárias (livros, revistas,
artigos científicos, publicações especializadas, análise de estatutos
e regimentos internos, etc.) e primárias (estudos de casos selecionados).
Os instrumentos utilizados para a coleta de informações primárias,
junto às cadeias produtivas selecionadas, foram roteiros previamente
definidos de entrevistas semi-estruturadas e abertas (várias
possibilidades de respostas). Estes foram aplicados aos coordenadores ou
presidentes das cooperativas e associações selecionadas para o
desenvolvimento do estudo. 4
Caracterização das cadeias produtivas de alimentos orgânicos 4.1
Associação dos Colonos Ecologistas da Região de Torres/RS - ACERT A
ACERT, fundada em 1992, atua na região do Litoral Norte do Estado do RS (Manpituba,
Morrinhos do Sul, Dom Pedro de Alcântara), possuindo a sua sede no município
de Três Cachoeiras/RS e reunindo 28 famílias de pequenos produtores
rurais. A Associação é composta em três núcleos: Núcleo Três Passos
em Morrinhos do Sul/RS; Núcleo Manpituba/RS; Núcleo Raposa em Três
Cachoeiras/RS. Possui um faturamento em torno de R$ 300.000,00 anuais,
sendo que 50 % do total desses recursos se originam da Feira da
Agricultura Ecológica em Porto Alegre. 4.2
Associação dos Produtores Ecologistas
da Capela Santa Catarina - APESC A
APESC iniciou suas atividades em maio de 1994, sendo fundada em novembro
de 1997, como sociedade civil com personalidade jurídica sem fins
lucrativos, integrada por 8 famílias, sendo sua sede localizada no município
de Ipê/RS, Região da Serra do Estado do RS. Sua principal forma de
comercialização é através da Feira da Agricultura Ecológica (FAE)
realizada no bairro Bonfim, em Porto Alegre/RS aos sábados
(1ª quadra da Rua José Bonifácio) atingindo um faturamento anual
de R$ 72.000,00. 4.3
Cooperativa dos Produtores Ecológicos de Porto Alegre - ARCOOIRIS A
ARCOOÍRIS, com sede no município de Porto Alegre/RS, foi fundada em 1994
e conta atualmente com um quadro de 20 sócios produtores rurais.
Entretanto possui um número mais elevado de membros associados, entre
consumidores atuantes ou não, totalizando 116 sócios. Atua em diversos
municípios do RS além da capital. Sua principal forma de comercialização
é através da feira livre realizada no Bairro Bonfim, em Porto Alegre/RS,
aos sábados (2ª quadra da
Rua José Bonifácio) atingindo um faturamento anual de R$ 800.000,00. 4.4
Cooperativa Ecológica Coolméia A
Cooperativa Ecológica Coolméia Ltda. foi fundada em 1978, e é sucessora
da Cooperativa de Serviços dos Membros da Fundação Dr. Serge Raynaud de
La Ferriérre Ltda. (fundador da Grande Fraternidade Universal), com sede
no município de Porto Alegre/RS. Possui um total de 870 sócios, distribuídos
em três modalidades: operacionais (funcionários), consumidores e
produtores. Possui um faturamento de R$ 1.300.000,00 anuais nas atividades
de lancheria, restaurante , padaria, quitanda e loja. Através dos seus 25
sócios produtores atinge na Feira Ecológica Coolméia um faturamento de
R$ 285.000,00 anuais com vendas realizadas diretamente pelos sócios
produtores. 4.5
Cooperativa Aécia de Agricultores Ecologistas Ltda. - COPAÉCIA A
COPAÉCIA é formada por 20 famílias de pequenos agricultores familiares,
abrangendo os municípios de Ipê e Antônio Prado, do Estado do RS.
Iniciaram as atividade em 1989, primeiramente como associação (AÉCIA -
Associação dos Colonos Ecologistas de Ipê e Antônio Prado), sendo
fundada a cooperativa no ano de 1999, devido às exigências quanto a
comercialização. Foi pioneira na produção ecológica de alimentos, na
Região da Serra gaúcha, e uma das primeiras no RS, caracterizando-se
atualmente pela especialização em agroindústrias ecológicas,
principalmente sucos de uva e processamento do tomate. Atingem vendas
anuais de R$ 500.000,00 considerando-se os mais diversos canais de
comercialização. 5
Conclusões Verificou-se
que muito pouco dos parâmetros associados a abordagem de gerenciamento da
cadeia de suprimentos estão presentes
nos casos estudados, o que confirma a hipótese inicial de que
atualmente as demandas não estão sendo atendidas de forma adequada.
Identificou-se que todas as cadeias analisas não possuem atualmente as
características necessárias para o atendimento das demandas do mercado,
baseando-se nos pressupostos acima apresentados. Entretanto,
foi possível identificar, também, que existe compatibilidade e adequação
das características estruturais com os pressupostos acima em de três
cadeias estudadas. A Acert, a Apesc e a Copaécia possuem posicionamentos
e ações que estão de acordo, principalmente, no que diz respeito a
cooperação e relacionamentos com outras organizações e a elaboração
de planejamentos e controles mais efetivos da movimentação dos produtos
ao longo da cadeia. Com relação as Cooperativas
Coolméia e a Arcoíris há ainda a necessidade de vários avanços
no sentido de estabelecer um ambiente interno favorável a criação
destes pressupostos. Estes por sua vez parecem estar bastante distantes e
sofrem influência tanto das suas capacidades de organização como dos
fortes aspectos institucionai, como será melhor explicado mais adiante. Entre
os principais delimitadores do atendimento das demandas do mercado através
desta abordagem de gerenciamento e coordenação de cadeias produtivas
foram identificados quatro aspectos que se apresentam em todos os caso
estudados: baixa sintonia
entre os vários elos de uma cadeia; baixa sincronização e coordenação
da cadeia através da troca de informações; existência de barreiras
entre as áreas de produção, industrialização e comercialzação
dentro das cooperativas ou associações; baixo compartilhamento dos
riscos e planejamento conjunto das atividades. Com
relação a influência do quadro institucional e organizacional,
verificou-se uma grande instabilidade em alguns grupos, enquanto empresa
dedicada a organização da produção, industrialização e comercialização
dos produtos dos seus sócios. Por vezes demonstraram querer assumir o
papel similar a de uma Organização Não-Governamental (ONG), preocupada
com objetivos mais amplos voltados ao desenvolvimento agrícola, social,
educativo-pegagógico, político e econômico de grupos de agricultores
inseridos em uma proposta agroecológica de fortalecimento dos movimentos
sociais e de luta e resistência à agricultura moderna, causadora de
grande parte do êxodo rural dos pequenos agricultores familiares de suas
terras. Esse arcabouço de objetivos traduz-se em uma proposta
fundamentalmente política de
mudança de relações na sociedade, ocorrendo, muitas vezez o não
atendimento dos reais objetivos para os quais os seus sócios possuem
expectativa, que é a sustentabilidade das ações enquanto
empreendimentos econômicos. Diante
disso, os resultados da presente pesquisa confirmam, portanto, em parte a
hipótese estabelecida por este trabalho, corroborando-se o levantamento
realizado no referencial teórico. Os institucionalistas afirmam que as
organizações estão inseridas em um ambiente que é formado pelas dimensões
técnicas e institucionais, onde buscam consolidar padrões normativos com
base em suas interpretações, objetivando competir não somente por
recursos ou consumidores (eficiência racional interna e externa), mas
também por legitimidade institucional. Este
processo de institucionalização, descrito como a substituição dos
fatores técnicos pelos valores na determinação das tarefas
organizativas, foi verificado na maioria dos casos estudados (em menor
grau na Cooperativa Arcoíris), destacando-se principalmente a Cooperativa
Coolméia. Esta por sua vez deixou claro que objetivam manterem-se como um
referencial de luta ambientalista no Estado
(reconhecimento e legitimação), não abandonando os princípios
que sempre nortearam os movimentos ecologistas na agricultura. Identificou-se,
portanto, que a Coolméia
distancia-se das suas atividades de produção, industrialização e
comercialização e de todo o gerenciamento e coordenação que esse
sistema exige, para priorizarem ações muito próximas das que são
estabelecidas para as Organizações Não Governamentais (ONGs). Cabe
ressaltar que a Cooperativa
Coolméia teve origem com 27 consumidores urbanos que buscaram estabelecer
uma associação com produtores para o fornecimento de alimentos naturais
e ecológicos. Esta característica, talvez, justifique em parte essa
priorização pelas atividades relacionadas às suas filosofias e princípios.
Em
outros grupos de produtores agroecologistas (Acert, Apesc e Copaécia)
verificou-se também esta busca por uma legitimação das suas normas,
valores e técnicas em seu ambiente, porém com um enfoque diferenciado.
Tratam-se de afirmações mais voltadas para as questões relacionadas ao
Desenvolvimento Sustentável de uma forma geral, com posicionamento não
muito distantes do que pode-se considerar como a operacionalização de um
projeto de DS. Destaca-se a atuação do Centro Ecológico não somente
como uma ONGs de assistência técnica, mas como uma intituição com
forte atuação na formação e no planejamento das atividades em conjunto
com os três grupos de produtores agroecológicos citados acima. Isto, de
certa forma, dá a possibilidade dos grupos de agricultores agirem de
forma mais direta em poblemas que interferem nos seus desempenhos,
ocorrendo que muito da implementação e aperfeiçoamento da
“missão” como organizações agroecológicas fique a cargo do
Centro Ecológico. Ações
no sentido da melhoria das suas inserções no mercado estão sendo
implementadas através busca por financiamentos para instalações de
agroindústrias, e por prestação de serviços de consultorias em estudos
e pesquisas na área tecnológica, de apoio em marketing, e de mercado para os seus produtos. Estes grupos estão
sendo beneficiados em projetos com recursos oriundos do Governo do Estado
do RS para estudos de alternativas tecnológicas para processamento de
alimentos infantis orgânicos, derivados de banana e maracujá (Copaécia
e Acert); estudos do mercado do arroz ecológico (Acert) e apoio em marketing (Copaécia, Apesc e Acert). Estas iniciativas demonstram a
preocupação com relação ao atendimento adequado das demandas do
mercado, sem a existência de conflitos no que diz respeito ao cumprimento
do processo de intitucionalização e da legitimação da sua missão. Estes
posicionamentos foram ratificados no Encontro das Associações de
Agricultores Ecologistas de Ipê e Antônio Prado, realizado em agosto de
2000, onde participaram a Copaécia e a Apesc. Neste evento foram
levantados os principais objetivos e metas para serem alcançados nos próximos
cinco anos. Destacaram-se as questões relacionadas ao planejamento agrícola,
aumento da produção, inclusão de mais famílias de agricultores na
agroecologia, maior integração entre associações, criação de espaço
de comercialização que não seja a feira, mercados mais constantes e
novo jeito de comercialização. Verifica-se que buscam atender as
demandas do mercado organizando-se para isso, através do aumento do
volume de produção e com a abertura de novos canais de escoamento dessa
produção, além de um aspecto importante no gerenciamento da cadeia de
suprimento relativo a busca de relações de cooperação com outras
associações, para formação de uma rede de produção e comercialização.
O fato de estarem buscando novos canais, além das feiras, confirma a
discussão inicial que norteou a pesquisa. Com
relação a Cooperativa Arcoíris verificou-se que os aspectos
institucionais mesmo estando presentes em seus documentos (estatutos,
regimentos e missão) e nos discusos dos dirigentes da Cooperativa, não
possuem influência significativa sobre os objetivos e posicionamentos
atuais e futuros. Estes por sua vez dizem respeito a busca de soluções
para os geradores de debilidades estruturais que ocorrem devido a existência
de problemas de coordenação e gerenciamento que delimitam o desempenho
da Cooperativa. Concluí-se que estas debilidades estruturais em muito são
influenciadas por não existir um quadro organizacional mínimo oriundo da
priorização dos aspectos institucionais levantados neste caso. Temos,
portanto, de um lado a Cooperativa Coolméia com um grau alto de
institucionalização gerando desempenhos insatisfatórios e por outro a
Cooperativa Arcoíris com um grau baixo de institucionalização que também
está gerando debilidades. Entre estes dois extremos tem-se os outros três
casos analisados (Acert, Apesc e Copáecia), em que verificou-se um
institucionalização alta, porém diferenciada e com a interferência de
uma ONG que presta assessoria técnica em agroecologia. Estes casos
intermediários demostram uma maior capacidade de atendimento às demandas
dos mercado a partir da perspectiva das abordagens técnicas e
operacionais de gerenciamento de sistema agroindustriais, mesmo tendo-se
identificado que atualmente a estrutura estrutura de coordenação e
gerenciamento destas cadeias não atendem de forma adequada a evolução
das demandas do mercado. Por
fim, os resultados desta pesquisa confirmam a relação existente entre os
aspectos institucionais e os desempenhos técnicos e econômicos das
organizações. Estes por sua vez assumem posturas interpretativas sobre o
ambiente externo, formando regras, normas, valores e procedimentos, agindo
conforme este ambiente institucionalizado na busca por reconhecimento e
legitimidade das suas ações.
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[1]
Dados estes
apresentados no Congresso Mundial da Internacional
Food and Agribusiness Management Association, de 1998, realizado
no Uruguai. [2] Previsão da Farm Verifiede Organic (FVO), certificadora Européia de produtos orgânicos e que está se instalando no Nordeste do Brasil. Dados publicados no jornal Correio do Povo de 29/10/2000. [voltar] [3] Estimativa da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), publicada na Gazeta Mercantil de 03/10/2000. [voltar] [4]
No estado do Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, existem uma grande
concentração no varejo de alimentos. Duas redes (Sonae e Zaffari)
respondem por 64,5% e três redes (Sonae, Zaffari e Carrefour) detém
90%, respectivamente, do faturamento do mercado de alimentos (Abras,
Jornal Zero Hora, 20/06/2000). |
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