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LIXO RURAL: ENTRAVES, ESTRATÉGIAS E OPORTUNIDADES |
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DAROLT, Moacir
Roberto Trabalho publicado em 08/03/2002 |
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O
trabalho de coleta de lixo na área rural ainda é insuficiente atingindo
apenas 13,3% dos domicílios brasileiros (IBGE, 2000). Em
1991, do total de lixo produzido na zona rural, 31,6% eram enterrados ou
queimados. Esse percentual subiu para 52,5%, em 2000. Já o lixo jogado em
terrenos baldios caiu de 62,9% para 32,2%. A realidade mostra que o
lixo rural tem coleta cara e difícil o que leva os agricultores a optarem
por enterrá-lo ou queimá-lo. Para uma análise mais ampla do lixo rural é importante conhecermos melhor o que se entende por lixo, os possíveis problemas causados pelos resíduos sólidos e líquidos no sistema, as possibilidades de utilização do lixo rural como fonte de energia, bem como algumas estratégias para minimizar o problema.
DEFINIÇÃO O
termo popular “lixo” é o designativo daquilo que os técnicos,
genericamente, denominam “resíduos sólidos”, e se antes eram
entendidos como meros subprodutos do sistema produtivo, passam a ser
encarados também como responsáveis por graves problemas de degradação
ambiental. Os “resíduos sólidos” diferenciam-se do termo “lixo”
porque, enquanto este último se compõe de objetos que não possuem
qualquer tipo de valor ou utilidade, porções de materiais sem significação
econômica, sobras de processamentos industriais ou domésticos a serem
descartadas, enfim, qualquer coisa que se deseje jogar fora, o resíduo sólido
possui valor econômico agregado por possibilitar o reaproveitamento no próprio
processo produtivo. Com
respeito a esta definição, deve-se observar que o conceito de utilidade
é relativo; objetos e materiais que são descartados por determinadas
pessoas ou sistemas podem ser reaproveitados por outros. Do mesmo modo,
alguns materiais podem ser incluídos novamente no sistema passando a ter
significado econômico considerável. Da
definição apresentada, depreende-se que o lixo tem composição
extremamente variada, dependendo basicamente da natureza de sua fonte
produtora. Além de suas origens, o lixo também varia qualitativa e
quantitativamente com as estações do ano, com as condições climáticas,
com os hábitos e o padrão de vida da população (DAROLT et.
al., 1996). Em suma,
podemos dizer que os resíduos sólidos representam o fiel retrato da
sociedade que os geram, e quando expostos nas vias públicas ou nas
propriedades rurais, mostram o nível de competência das pessoas ou
empresas responsáveis por sua administração. Cabe destacar que no caso
das propriedades orgânicas uma disposição inadequada do lixo rural pode
causar a perda do credenciamento junto à entidade certificadora. Além
de todos os tipos de lixo normal, que incluem a matéria orgânica do
dia-a-dia, restos de alimentos, o material reciclável (vidros, latas,
papel e plásticos), entre outros mais comuns, alguns tipos não despertam
cuidados e podem causar sérios danos ao ambiente da propriedade,
principalmente por conter elementos químicos na forma iônica que são
absorvidos e acumulados pelo organismo. São elementos presentes em cosméticos
e maquiagens, como alumínio; nas pilhas e baterias, que lança níquel e
cádmio no ambiente; nas lâmpadas que possuem mercúrio, um metal pesado
e tóxico que pode contaminar solos e a água; nas pastilhas e lonas de
freios, que contém amianto e se acumula nos pulmões; nos adubos químicos,
que são ricos em fósforo; nas
embalagens de agrotóxicos e produtos veterinários, além de dejetos de
suínos e aves. DEJETOS
DE ANIMAIS: PROBLEMA DE
CONTAMINAÇÃO DA ÁGUA A
falta de tratamento adequada à grande quantidade de dejetos produzidos,
sobretudo na suinocultura, é justamente um dos graves problemas que a
intensificação da produção trouxe para o meio ambiente e à própria
sociedade. Segundo a Empresa de Pesquisa e Extensão Rural de Santa
Catarina (EPAGRI) a poluição do meio ambiente na região produtora de suínos
é alta, pois enquanto para o esgoto doméstico, o DBO (Demanda Bioquímica
de Oxigênio) é de cerca de 200 mg/litro, o DBO dos dejetos suínos
oscila entre 30.000 e 52.000 mg/litro, ou seja, em torno de 260 vezes
superior. Além disso, um suíno produz cerca de 2,5 mais dejetos do que
um ser humano. Um
fato preocupante em nível nacional, para as próximas décadas, é a tendência
de concentração de produção de carne suína em mercados de países em
desenvolvimento como o Brasil. Duas das maiores empresas de suinocultura
do mundo – as americanas Carroll’s Foods e a Smithfields Foods – já
formam o principal grupo privado do setor. Com o projeto de uma
supergranja de 50 mil matrizes implantado no Mato Grosso, ROPPA (1999)
calcula que o impacto ambiental gerado pelos dejetos corresponda ao de uma
população de 1,5 milhão de habitantes. A
ENERGIA QUE VEM DO LIXO
O
lixo rural também pode ser fonte de energia elétrica, tornando o
produtor auto-suficiente. Com o biodigestor, o produtor rural pode
transformar os dejetos de aves, de suínos e de bovinos em alternativa
energética (gás metano), além de obter um excelente adubo orgânico (biofertilizante). A
matéria-prima mais utilizada no biodigestor, o esterco animal (suínos,
bovinos, aves etc) pode ser reciclada dentro da propriedade. Outros tipos
de compostos orgânicos também podem ser utilizados, tais como: restos de
cultura, capins, lixos residenciais e de agroindústrias. O
uso do biodigestor permite dar novo destino ao esterco recolhido, que
muitas vezes é lançado nos rios ou armazenado em locais não
apropriados. Desta forma, além
de produzir energia e biofertilizante, o produtor melhora o saneamento da
propriedade, erradicando o mau cheiro, a proliferação de moscas e
diminuindo a poluição dos recursos hídricos. É
interessante observar que o processo de digestão anaeróbica, que ocorre
dentro do biodigestor, dura em média 35 a 40 dias e permite eliminar os
patógenos (agentes transmissores de doenças) existentes no esterco, o
que é extremamente importante para quem trabalha com a agricultura orgânica.
Vale
lembrar que a construção do biodigestor é simples e tem mostrado bons
resultados em substituição ao gás derivado do petróleo. A única
desvantagem do processo é a necessidade de investimentos elevados para a
distribuição do gás, pois a maioria das residências ainda não possui
instalações internas para gás canalizado. Outros
tipos de rejeitos ou subprodutos agroindustriais, quer sejam sólidos,
líquidos ou gasosos, podem ser utilizados como combustível. Até o
momento, tem-se relato da utilização de subprodutos de laticínios, como
o lodo anaeróbio, o soro, a gordura, e uma massa pastosa (quase idêntica
ao iorgute). Além disso, a agroindústria sulcro-alcooleira do interior
de São Paulo já vem queimando subproduto de bagaço de cana para suprir
a demanda energética das indústrias. COLETA
SELETIVA, RECICLAGEM E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: ESTRATÉGIAS PARA MINIMIZAR O
PROBLEMA O
melhor meio para o tratamento do lixo ainda é a coleta seletiva, por meio
da separação, nas propriedades, em categorias como vidro, papel, metais
e lixo orgânico. Ao material orgânico pode ser aplicado o processo de
compostagem – decomposição da matéria – em que o produto final pode
ser aproveitado como adubo orgânico. No caso de aterro sanitário na
propriedade o solo deve ser totalmente compactado na base, o que o torna
impermeável, evitando assim a penetração do chorume (termo usado para
se referir ao líquido escuro e turvo proveniente do armazenamento e
repouso do lixo) para os lençóis freáticos. Em
uma pesquisa que realizamos na região Metropolitana de Curitiba,
comparando agricultores convencionais e orgânicos, observamos que os
agricultores orgânicos fazem um melhor aproveitamento do lixo orgânico,
seja em forma de composto, seja utilizando-o diretamente na plantação (DAROLT,
2000). Situação diferente ocorre com os resíduos sólidos. Segundo a
maioria dos agricultores entrevistados, existe dificuldade para reciclagem
do lixo comum (vidros, latas e plásticos), sobretudo para quem mora mais
afastado da sede do município. O resultado da falta de coleta pública,
leva os agricultores a queimarem, enterrarem ou jogarem este lixo em
locais não apropriados. Alguns
municípios têm conseguido driblar esta situação com investimento em
educação e infra-estrutura. Um bom exemplo de sucesso é um Programa
instalado no município de Quatro Barras na Região Metropolitana de
Curitiba (RMC). Abrigando em seu território parte da bacia hidrográfica
de manancial de abastecimento público e parte da Floresta Atlântica, o
município vem implementando desde 1997 a coleta seletiva que acontece em
praticamente toda a área rural. Os agricultores são orientados, por meio
de um trabalho de educação ambiental, para reciclar a matéria orgânica
na sua propriedade; foram instalados postos de reciclagem para que seja
feita a destinação e controle das embalagens de agrotóxicos e produtos
veterinários, bem como trabalha-se no desenvolvimento de ações de apoio
e incentivo à agricultura orgânica. O
produtor rural não pode esquecer que existe uma correlação direta entre
qualidade do meio e qualidade de vida, portanto a medida que o meio
ambiente se deteriora, a qualidade de vida é afetada. Desta forma, o
gerenciamento da variável ambiental deve, invariavelmente, estar
associado a uma estratégia e incremento da produtividade e qualidade,
visando minimizar o desperdício de matérias primas, insumos e
subprodutos, que além de se constituírem em perdas significativas para a
lucratividade das propriedades, agravam concomitantemente os problemas
relacionados à depuração de efluentes líquidos e disposição final de
resíduos sólidos. As
novas estratégias para gestão de resíduos sólidos implicam uma mudança
radical nos processos de coleta e disposição de resíduos. Segundo
DEMAJOROVIC (1995), em contraposição aos antigos sistemas de tratamento
desses resíduos, que tinham como prioridade a disposição destes, os
atuais devem ter como prioridade a montagem de um sistema circular, onde a
quantidade de resíduos a serem reaproveitados dentro do sistema produtivo
seja cada vez maior e a quantidade a ser disposta menor, bem como, que os
resíduos sejam produzidos em menor quantidade já nas fontes geradoras. Para
finalizar é preciso registrar que o problema do lixo rural ainda é pouco
discutido e estudado sendo dedicado poucos recursos específicos para
busca de estratégias que minimizem o problema.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS DAROLT,M.R;
DAVANSO, S.M.; LUZ, G.O.F.; MIRANDA, T.L.G.; PENTEADO, P.; PUCCI,A.;
RAMINA, R.H.; TREVISAN, E. Percepções
Sociológicas de Rotas do lixo reciclado em Curitiba - PR. In: JORNADAS
CIENTÍFICAS SOBRE MEIO AMBIENTE, II. Resumos.
Curitiba: UFPR-NIMAD/Grupo Montevideo/UNESCO, 1996. DAROLT,
M.R. As Dimensões da
Sustentabilidade: Um estudo da agricultura orgânica na região
metropolitana de Curitiba-PR. Curitiba, 2000. Tese de Doutorado em
Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná/ParisVII.
310 p. CD-ROM. DEMAJOROVIC,
J. Da política tradicional de
tratamento do lixo à política de gestão de resíduos sólidos. As
novas prioridades. Revista de administração de Empresas. São Paulo:
EAESP, FGV. v.35 n.3 p.88-93, maio/jun. 1995. IBGE.
Censo Demográfico de 2000. Rio
de Janeiro, 2000 (http://www.ibge.gov.br). ROPPA,
L. O vice-versa da criação de suínos. Revista
Globo Rural. Ano 14, N. 165, julho, 1999. p. 46-50. |
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