Trabalhos 

DOK – um Experimento de Longo Prazo

Fonte: Lebendige Erde (Julho / Agosto 2000)

 

Introdução

Enquanto observamos a drástica diminuição da biodiversidade da face da terra pela extinção de espécies de animais e plantas, a perda de solo através da erosão é um fenômeno mais difícil a ser constatado. Porém, é sabido que no curto período de 40 anos um terço das áreas agricultáveis foi perdido dessa forma. As consequências dessas perdas ao nível de fauna do solo são, em sua maioria, desconhecidas. Essa fauna é de suma importância no combate à erosão pois é formadora de agregados estáveis no solo. A tendência mundial nas últimas décadas mostrou-se direcionada para a intensificação da produção agrícola. Nela faz-se uso de poucas culturas selecionadas pelas suas altas produtividades, as quais só são atingidas quando as plantas são nutridas com elevadas doses de adubos minerais e protegidas das doenças e de insetos através do uso irrestrito de agrotóxicos.

Questionando o nível de sustentabilidade deste sistema, a União Européia lançou vários programas de apoio a uma produção agrícola mais ecológica, levando a extensificação em lugares menos apropriados para a agricultura, assim como a proibição de produção em áreas não-apropriadas à agricultura. Dentro desses programas, a agricultura orgânica encontrou forte sustento econômico.

Para que os métodos mais ecológicos de produção possam ser subsidiados (seja através da ajuda do governo ou por preços mais altos dos produtos), é necessário que se justifique a sua verdadeira importância com dados obtidos em pesquisa.

Assim como a formação do solo se faz através de milhares de anos, mudanças no seu estado físico, químico e em sua fauna também ocorrem lentamente. Para que se possa atribuir qualquer transformação ao sistema de produção, é necessário que se tenha resultados de pesquisa de longo prazo, onde a evolução até o devido estado tenha sido observado, e que se tenha resultados comparativos, controlados também a nível estatístico. Experimentos de longo prazo também servem para uma melhor compreensão dos processos que ocorrem nos solos, facilitando assim, na otimização de sistemas de produção mais ecológicos.

"Adubar é trazer vida ao solo". Este é um axioma válido para todas as formas de agricultura. A racionalização e a produção em larga escala, práticas que se fazem cada vez mais habituais também no cultivo orgânico, induzem muitas vezes a renúncia de importantes técnicas conservacionistas como a compostagem ou o uso de preparados que elevam a fertilidade do solo. O experimento DOK nos mostra, que essas técnicas realmente levam a um solo mais ativo, com maior translocação de matéria e estabilidade dos agregados do solo.

O Experimento

Desde 1978, o Instituto de Pesquisa em Agroecologia (FAL) e o Instituto de Pesquisa em Agricultura Orgânica (FiBL) na Suiça, vêm colhendo dados e resultados com o experimento DOK. As três letras apontam para as diferentes formas de cultivo em comparação: D está para Biodinâmico, O para Orgânico e K para Convencional. As maiores diferenças encontram-se na forma de nutrição das plantas (adubação) e no combate às pragas. No sistema Convencional utilisam-se os tradicionais adubos químicos, assim como esterco fresco; no sistema orgânico o esterco é parcialmente apodrecido e no sistema biodinâmico usa-se o esterco na compostagem. A rotação de culturas, o trabalho com a terra e a escolha das variedades a serem plantadas são os mesmos para os três sistemas.
Os Resultados

Estrutura do solo
Uma agricultura sustentável deve se preocupar em produzir alimentos saudáveis em quantidade suficiente para alimentar a população mundial. Para que isso seja possível, é necessário que o solo esteja em condições ideais, das quais uma das mais importantes é a boa estrutura.

Observou-se que nas parcelas de agricultura orgânica e biodinâmica, após fortes chuvas, a água penetra o solo com facilidade, passando através dos vários túneis de minhocas e do elevado número de poros, enquanto que as parcelas de produção pelo sistema convencional mostraram baixa infiltração, encharcando rapidamente. Os experimentos feitos em laboratório confirmaram o melhor transporte de água através dos solos das parcelas orgânicas e biodinamicas.

A estrutura do solo é um fator muito importante, pois solos com alta infiltração são menos suscetíveis à erosão causada pelas chuvas.

Enquanto úmidos observou-se, em laboratório, que as parcelas orgânicas e biodinâmicas possuem agregados do solo mais estáveis. Isto se explica através da alta atividade biológica nessas parcelas, a qual se faz eminente quando a terra se encontra molhada.

A melhor estruturação dos solos das parcelas de orgânico e biodinâmico pode também estar relacionada com a grande frequência em micorrizas (fungos que se encontram em simbiose com as raízes das plantas). Estas parcelas demonstraram 30% a 40% mais micorrizas em suas raízes do que as parcelas convencionais.

Isso demonstra que, além da importância em se minimizar o uso de maquinários, a adubação e o uso de agrotóxicos também tem implicações sobre a estrutura do solo, através de suas influências sob a fauna do mesmo. 

Atividade Biológica do Solo
Mede-se a fertilidade do solo através de sua atividade biológica, ou seja, do nível de "vida" (macro, meso e microorganismos) por área existente. Somente ao final do segundo período de rotação de culturas (após 13 anos) pode-se constatar as primeiras mudanças atribuíveis a forma de cultivo. Os sistemas mais sustentáveis demonstraram uma biomassa microbiana e atividade enzimática entre 30 e 85% mais elevada do que as parcelas de cultivo convencional.

Observou-se uma alta correlação entre o pH, os parâmetros microbiológicos e o teor de matéria orgânica dos solos.Durante o terceiro período de rotação de culturas (1993-2000), as parcelas de cultivo biodinâmico continuaram com a atividade biológica mais alta em todas as camadas (solo e subsolo), seguidas pelas parcelas orgânicas (média) e as de cultivo convencional (baixa). Não somente a atividade biológica, como também a diversidade de organismos revelou-se maior nos solos mais sustentáveis. Isso demonstra que a utilização de composto orgânico, em conjunto com os preparados biodinâmicos, leva ao favorecimento dos microorganismos e da fauna do solo, aumentando sua fertilidade.

Carbono do solo

Cada espécie de microorganismo é mais ou menos especializada quanto a sua alimentação. Em um solo rico em número total e diversificação de espécies, a cadeia alimentar é mais completa, aumentando a interação entre bactérias e fungos, facilitando assim os processos de biodegradação e transformação de matéria orgânica em húmus e agregados estáveis do solo. Esta eficiência nos processos de transformação devido à alta atividade biológica, leva também a um menor consumo de energia para estabilização da biomassa.

Em consequência, observou-se que os microorganismos das parcelas de cultivo biodinâmico e orgânico incorporaram mais carbono em sua biomassa, desprendendo (respirando) menos CO2 por unidade, quando comparados aos solos de cultivo convencional. Este fator é de grande importância quanto a problemática do efeito estufa.

Nutrientes do solo

Assim como para o carbono, as parcelas de cultivo biodinâmico e orgânico demonstraram alto nível de transformação e incorporação de fósforo e nitrogênio no solo. Isso significa que estas parcelas contêm uma grande fonte de nitrogênio, a qual demonstrou estar disponível durante um período maior para a nutrição das plantas, do que o nitrogênio mineral proveniente de adubação nas parcelas de cultivo convencional.

É conhecido que este elemento é bastante móvel no solo, lixiviando ("sendo lavado") facilmente até o lençol freático na forma de nitrato, onde, quando em grandes quantidades, é um fator poluente da água que consumimos. Questiona-se, portanto, se este fato vêm a ser um problema nas condições de cultivo orgânico e biodinãmico. Apesar de ainda não existirem resultados confiáveis do experimento DOK, numerosos estudos feitos na Alemanha e na Holanda demonstram que os níveis de nitrato nas águas em solos sob cultivo mais sustentável são, em geral, mais baixos do que em solos de produção convencional. Porém, para que se possa chegar a uma conclusão definitiva, é importante que se obtenha mais resultados.

Estudos demonstram que a atividade biológica tem grande importância na nutrição do fósforo para as plantas. Os microorganismos facilitam a transferência do fósforo que se encontra geralmente fixado às partículas do solo para a forma solúvel, disponibilizando-o às plantas. No sistema biodinâmico, esta transferência foi de 3 a 4 vezes maior do que no sistema convencional, mostrando-se ainda 1,7 a 2,5 vezes maior para o sistema orgânico.

Devido à ação direta da adubação, as parcelas convencionais têm os mais altos níveis de fósforo e potássio solúveis. O contrário observou-se para o cálcio e o magnésio.

A quarta rotação de culturas, fase na qual o experimento está entrando, deverá mostrar se os processos de atividade biológica levarão as parcelas de cultivo mais sustentável a compensar e estabilizar seus níveis de disponibilidade de nutrientes para as plantas.

Produtividade dos diferentes tipos de cultivo

As diferenças nos níveis de produtividade de cada sistema de cultivo dependeram bastante das espécies cultivadas. No terceiro período de rotação de culturas, os sistemas biodinâmico e orgânico obtiveram uma produtividade de 24% menor no cultivo do trevo, entre 6 e 11% para o trigo e de até 45% a menos para a batata. Durante 21 anos, as parcelas mais sustentáveis demonstraram, em média, uma produtividade de 79% da alcançada dentro dos padrões convencionais de produção. Estas diferenças se dão, principalmente, devido ao não uso de agrotóxicos e de adubos. Nas parcelas convencionais utilisou-se para cada cultura 3,6kg/ha/ano em pesticidas e herbicidas, assim como 50% a mais em nutrientes para as plantas. Dada a energia gasta na fabricação de adubos sintéticos, registra-se um consumo de 20 a 30% menor de energia por tonelada de massa seca produzida nos sistemas orgânico e biodinâmico.

Considerações finais

Em vista da boa produtividade e do bom desenvolvimento da fertilidade dos solos sob cultivo orgânico e biodinâmico, estas formas de produção se propõem como reais alternativas ao método agrícola convencional. Para garantir a segurança alimentar ao longo prazo, é importante que estejamos preocupados em elaborar uma forma de produção mais sustentável possível do ponto de vista ecológico.

Fonte: Lebendige Erde (Julho / Agosto 2000)
 

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