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As Diversas Faces da Agricultura Orgânica |
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Richard
Domingues Dulley Trabalho publicado em 08/02/2002 |
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São inúmeras as indagações oriundas dos meios de comunicação, consumidores, agricultores, comerciantes, intermediários, investidores, pesquisadores, sindicatos rurais e cooperativas agrícolas, entre outros. Querem saber o que é essa agricultura orgânica cujo mercado nacional e internacional, afirmam alguns, cresce à taxa situada entre 30% e 50% ao ano. Querem saber porque está ocorrendo esse verdadeiro “boom”. Por que há consumidores que se dispõem a pagar, e pagam, um percentual de 20, 30, 40, 50% a mais por um produto, que em alguns casos, com as margens de lucro aplicadas pelos supermercados, chega a 200 e 300% (ou até mais do que isso) em relação ao que é pago ao produtor orgânico, que certamente não é o vilão dessa história. E como se explica que, apesar dessas distorções de preços, o mercado ainda continua crescendo. A explicação desse fenômeno, que constitui o crescimento exponencial do mercado de produtos agrícolas orgânicos, passa certamente pelo fato de que a agricultura orgânica apresenta várias faces, relacionadas com os benefícios que podem trazer para a sociedade como um todo. No nível da produção, se os agricultores e consumidores pioneiros estavam cheios de ideologias e princípios filosóficos nas primeiras experiências, esse sistema, atualmente, representa uma alternativa economicamente atrativa para qualquer agricultor. Basta ver o diferencial existente entre os preços recebidos pelos agricultores orgânicos e pelos convencionais. E, ao contrário do que afirmam comumente os adversários ou ainda os incrédulos em ralação à viabilidade da agricultura orgânica, esse diferencial infelizmente não tenderá a cair rapidamente, pois a entrada de novos agricultores no setor não é livre como no sistema convencional. Para se tornar um agricultor orgânico, é necessário que o candidato passe por um rigoroso processo de investigação das condições ambientais do estabelecimento agrícola e de potencialidade para a produção. São considerados aspectos como o não uso de adubos químicos e agrotóxicos nos últimos dois anos, a existência de barreiras vegetais quando há vizinhos que praticam a agricultura convencional, a qualidade da água a ser utilizada na irrigação e na lavagem dos produtos, as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores, o cumprimento da legislação sanitária, a não existência de lixo espalhado pelo estabelecimento e tratamento não cruel para com os animais de criação (preservando sua dignidade e bem-estar até a morte). O agricultor assina um contrato com uma certificadora que prevê a fiscalização da sua produção, de modo a garantir a rastreabilidade e a qualidade do produto para o consumidor. Diferentemente do sistema convencional, o agricultor tem que pagar para ser certificado, fiscalizado e também pela assistência técnica, que é quase toda particular e exercida por consultores credenciados pelas certificadoras. Pode-se afirmar que a redução desse diferencial de preço, infelizmente, somente começará a ocorrer, de modo significativo, quando felizmente o Estado estiver tão empenhado em apoiar e assumir esse sistema como oficial, que a agricultura convencional passe a constituir-se num sistema em vias de extinção. Lamentavelmente, esse cenário mostra-se muito longínquo e demorará décadas para ocorrer. No
nível da preferência do
consumidor, sabe-se que a agricultura convencional busca satisfazê-la
em termos de preço, tamanho, cor, aspecto geral, produção fora de época,
embalagem, etc. Não consegue, porém, competir com a disposição dos
clientes da agricultura orgânica em pagar mais por produtos que não façam
mal à saúde e ao ambiente. É sabido que o mercado de alimentos, principalmente no primeiro mundo, está estabilizado há décadas, uma vez que, pelo poder aquisitivo elevado, a população em geral já se encontra no limite superior de consumo. Face a essa situação, o interesse das indústrias de alimentos dessa área volta-se para o mercado orgânico, que, além de permitir um diferencial de preço para mais, cresce à taxa anual em torno de 30 a 50 % ao ano. Em
relação aos benefícios que
a agricultura orgânica traz, a presente aceitação e o aumento da
demanda por produtos decorrem de uma tomada de consciência por parte de
consumidores quanto aos malefícios que os resíduos de agrotóxicos e
adubos químicos podem ter sobre a sua saúde e principalmente a dos
seus filhos. Uma postura bastante presente em consumidores de produtos
orgânicos é a de afirmar que é preferível pagar um pouco mais, mas não
gastar depois em medicamentos para enfrentar possíveis doenças. De
modo geral, na postura do consumidor de produtos orgânicos ainda está
praticamente ausente a consciência dos benefícios ambientais que esse
sistema de produção e os preços mais elevados trazem ao
estabelecimento agrícola, em termos de sustentabilidade, e ao planeta
como um todo. A agricultura orgânica ou ecológica apresenta-se, portanto, não apenas como um sistema de produção que substitui agrotóxicos e adubos químicos por adubo orgânico e vários tipos de caldas. Suas diversas faces compõem uma nova idéia, uma nova forma de ver e trabalhar o campo, visando à produção agrícola em equilíbrio com a natureza, mas que também deve abranger modificações nos hábitos de consumo de seus clientes e promover o maior comprometimento destes com o processo de produção e com o ambiente. E
essa participação do consumidor pode ser considerada fundamental.
Assim é que se desenvolveram em países como Japão, Suíça, Estados
Unidos, Reino Unido e Canadá ações ou projetos que visam estabelecer
uma agricultura apoiada pelos consumidores. No Brasil, está acontecendo
um trabalho pioneiro no Ceará, com a organização de um grupo de cerca
de 40 consumidores de produtos orgânicos que se associam a um
agricultor. Estabelecem os itens a serem produzidos organicamente e
financiam o agricultor. Este tem garantida uma renda mensal de cerca de
R$2.500,00. Os consumidores correm os mesmos riscos que o agricultor na
produção. Caso ocorra uma produção excedente, esta será dividida
entre os membros do grupo ou pode também ser vendida, dividindo-se a
renda obtida Do
ponto de vista do comércio internacional, há claras indicações do
potencial para a exportação de produtos agrícolas orgânicos
brasileiros. No caso específico da carne bovina, dados os reflexos e a
insegurança provocada no consumidor europeu e de outras partes do
mundo, como decorrência da doença da “vaca louca”, abrem-se
perspectivas favoráveis ao boi produzido no Brasil de modo extensivo.
Com o gado alimentando-se apenas de capim, desde que se adotem providências
simples como a de não se utilizar herbicidas, carrapaticidas e vermífugos
de origem química (e se encontre uma forma de comprovar essa situação),
o país poderia pleitear a certificação da carne brasileira como
produzida organicamente (é um processo complexo e demorado). Este
talvez seja um importante ponto a ser considerado nas futuras políticas
agrícolas do país. Nas
atividades agrícolas em geral, os rígidos princípios adotados no
processo de produção e o diferencial de preço para mais dos produtos
orgânicos fazem com que estes permaneçam menos sujeitos às crises que
têm afetado as atividades agrícolas convencionais, seja em decorrência
dos baixos preços, seja em decorrência dos perigos que implicam a
utilização dos agroquímicos e transgênicos. As
vendas internas em 2000 foram estimadas pela Associação de Agricultura
Orgânica (AAO) em cerca de R$ 200 milhões. De acordo com estudos do
International Trade Center (ITC), os maiores mercados produtores de orgânicos
são, os Estados Unidos, a Europa e o Japão. Esses mercados
apresentavam cifras de US$ 11 bilhões em 1997 e se estima que em 2000
tenham sido de US$ 20 bilhões. A taxa de crescimento de vendas anuais
no varejo deve ultrapassar os 10% em 2000, em comparação com apenas 1%
há quatro anos. |
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