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Trabalhos |
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PALESTRA: Criação
ecológica de animais - 1a Parte: ALTERNATIVAS AO CONFINAMENTO |
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Méd.
Vet. Angela Escosteguy |
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INTRODUÇÃO Tendo em vista a ineficiência do modelo agrícola industrial para acabar com a fome e ainda a série de conseqüências a nível ambiental , econômico e social, desenvolveram-se e tomaram corpo, na década de 70, os movimentos de Agricultura Orgânica ou Ecológica (também chamada de Orgânica, Biodinâmica ou Alternativa. Esses nomes são de determinadas escolas, muito similares em seus princípios gerais, dentro do movimento por uma agricultura mais equilibrada e menos agressiva. Surgiu com uma proposta de produção agrícola socialmente justa, ambientalmente sustentável e tecnicamente correta. Como em inglês não existe a palavra agropecuária, a agricultura engloba também a criação de animais. Na área animal respeita-se em primeiro lugar o bem-estar dos animais que são criados de forma extensiva e utilizam-se métodos alternativos de combate às enfermidades. Medicamentos veterinários químicos artificiais são aceitos em condições especiais e sob rigoroso controle. A nível internacional, desde 1972, a IFOAM - Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica é uma organização que reúne e organiza o setor orgânicos sendo que no momento (dez 1998) conta com 640 membros provenientes de mais de 100 países. Os filiados são associações de produtores orgânicos, processadores, comerciantes, entidades certificadoras, consumidores e também cientistas, pesquisadores, educadores e ambientalistas. Ela revisa e edita durante o Congresso Internacional há cada 4 anos, as Normas Básicas de Produção que servem de ponto de partida para as normas locais de cada país. Este modelo de produção de alimentos começou e se desenvolveu mais pela área vegetal com a produção de grãos e legumes, uso de adubos orgânicos, técnicas de controle mecânicos de ervas invasoras e controle biológico de pragas. Isto se refletiu num desenvolvimento mais rápido da produção e também da comercialização dos vegetais e cereais. Nessas propriedades os animais eram utilizados para aproveitar plantas que tinham sido cultivadas com o objetivo de fixar o nitrogênio no solo ou para fornecer esterco para a produção de adubo, as vezes também como "tratores vivos" para roçar ou preparar o solo e também para comer insetos indesejáveis. Apesar de todas essas utilidades não foi dada muita atenção aos cuidados com os animais nas fazendas ecológicas e os criadores ecológicos de animais em minoria, tiveram que encontrar seus próprios caminhos pois este modelo de produção demonstrou ser o modelo do futuro. Além disso há, atualmente uma forte obrigação com os animais assim como com os consumidores. CONSIDERAÇÕES GERAIS A decisão de criar os animais ecologicamente significa estabelecer uma relação com os animais de uma maneira totalmente diferente da relação que se estabelece nos sistemas convencionais onde os animais são tratados quase com máquinas de produzir carne, leite ou ovos e onde seu bem-estar e suas emoções são totalmente desconsideradas ou só são levadas em consideração quando interferem na produtividade e no lucro. A criação ecológica pressupões uma abordagem holística da propriedade da qual o homem faz parte e a valorização de todos os seres vivos é fundamental. Isto significa dar aos animais o respeito e a dignidade que eles merecem. Muitos pensam que curar os animais através de terapêuticas alternativas como uso de plantas medicinais, homeopatia e acupuntura significa estar produzindo ecologicamente. Este é um grande engano. Criar animais ecologicamente significa modificar totalmente todo o sistema de criação principalmente se tratando de animais confinados. A pecuária ecológica é preventiva e não curativa como a convencional. O conceito de saúde animal é totalmente diferente. Saúde não é a mera ausência de doenças conseguida a força pelo uso de drogas químicas. Numa propriedade ecológica a saúde dos animais é um indicativo do sucesso do manejo. Se algum animal adoecer significa que algo está sendo mal conduzido e deve ser reavaliado tudo: raça, manejo, alimentação, abrigos, etc. para se encontrar e sanar o problema. Salvo, é claro, exceções tais como acidentes, intempéries, partos distócicos, por exemplo, quando então e somente para estes casos, devemos contar com as terapêuticas curativas e para isso necessitamos das opções alternativas. ITENS QUE DEVEM SER CONSIDERADOS: 1. Escolha da espécie e da raça - A decisão de qual ou quais animais vão ser criados é uma opção muito pessoal, mas alguns fatores racionais são fundamentais e devem ser observados. Deve-se observar fundamentalmente o local onde se encontra a propriedade e deve-se considerar o relevo, clima e vegetação. Nada de querer criar pingüins no deserto...A escolha depende também , é claro das necessidades da propriedade e do mercado consumidor no caso que se planeje vender os animas e/ou seus subprodutos. Uma vez escolhida a espécie falta escolher a raça. Deve-se dar preferência às espécies originárias da região que logicamente são as mais adaptadas e portanto mais resistentes a pragas e enfermidades. No caso de não estarem disponíveis, então procurar as raças mais próximas e deve-se evitar sempre que possível as raças comerciais, ou marcas, utilizadas nas criações industriais. Devemos observar que as pessoas que trabalham com criação ecológica de animais têm um papel muito importante na recuperação e preservação das antigas raças locais que tanto foram combatidas pelos serviços oficiais de sanidade animal. É desejável que eles se esforcem para adquirir e multiplicar estes animais. Atualmente com o desenvolvimento da engenharia genética a conscientização da importância da biodiversidade e da riqueza genética já está mais difundida. 2. Bem-estar animal Devemos ter bem claro que os animais são seres vivos e não máquinas e que apesar de serem irracionais não são insensíveis. Tal como nós, que também somos animais, eles sentem as mesmas emoções que sentimos, irritação, exaustão, tristeza, saudade, ansiedade, medo, pânicos, dor, depressão. E todas essas emoções, afetam os seus organismos. Como nós necessitam e merecem proteção, boa alimentação, abrigo e aconchego para se sentirem tranqüilos e poderem crescer e se desenvolver em harmonia com o seu ambiente e com condições de se defender sozinho do ataque de pragas e enfermidades. A área da medicina-veterinária que trata disto se chama bem-estar animal e tem comprovado científica e experimentalmente que os animais submetidos a estresse físico ou psicológico entram em "sofrimento" com uma conseqüente redução na imunidade e um aumento na ocorrência de doenças além de produzirem menos alimentos e de qualidade inferior do ponto de vista nutricional. O ambiente físico e social dos animais mantidos em criações comerciais foi alterado radicalmente com a intensificação na produção animal ocorrida após a II Guerra Mundial, que introduziu os confinamentos. A deterioração do bem-estar dos animais passou desapercebida pela maioria dos envolvidos e somente pouco a pouco é que começou-se a notar que os animais nestas condições necessitam doses crescentes de medicamentos variados, como antibióticos e parasiticidas, dentre outros, para poder sobreviver. A evolução da nutrição humana também comprovou que os alimentos produzidos nestas condições além de serem inferiores do ponto de vista nutricional (menos vitaminas e minerais e alteração da composição em aminoácidos e enzimas) têm altas doses de resíduos tóxicos. Portanto, se quisermos ter bons resultados com a nossa criação de animais não podemos considerá-los simplesmente como fábrica de ovos, leite carne, esterco ou tratores vivo. Eles até podem ser aproveitados como tal mas para que isso ocorra sem maiores problemas e com um grau de satisfação mútuo, temos que mante-los bem atendidos e felizes. Animais são como crianças, quando bem tratados, alimentados e abrigados, crescem e se desenvolvem sadios e são uma fonte de prazer. Quando não são bem atendidos, ocorrem muitos problemas, enfermidades, incomodação, frustração e prejuízo financeiro. 3. Instalações e manejo Qualquer que sejam os animais, as criações ecológicas devem dar uma importância fundamental aos animais criados soltos pelo menos na maior parte do seu tempo. Logicamente eles devem ter um abrigo para os rigores do tempo. Em algumas criações os animais são presos durante a noite para que se possa recolher o esterco. As construções (estábulos, galpões, baias, etc.) não devem ser limpas e desinfetadas com produtos químicos sintéticos pois eles podem ser absorvidos pelas vias aéreas dos animais e depois serem encontrados nas carne e no leite destes animais. Já existem no mercado vários produtos eficientes a base de plantas. Os produtores de leite e laticínios devem ter cuidado também com os produtos utilizados para a limpeza e desinfeção dos utensílios. Sabões e desinfetantes a base de produtos químicos sintéticos não são permitidos por deixarem resíduos no leite. Os animais devem poder ser o que são. Se são porcos, devem poder fuçar e tomar banho de barro quando está calor, se são aves, devem poder ciscar, preparar ninhos, tomar banho de pó, dormir em puleiros. Se são ruminantes devem poder pastorear e comer fibras em grande quantidade. Muito cuidado com a localização dos abrigos dos animais, principalmente dos jovens que muito precisam do sol e passam mal em locais úmidos. O local onde os animais se encontram deve proporcionar: -espaço para o animal movimentar-se livremente; suficiente ar fresco e luz diurna natural; proteção contra a excessiva luz solar, as temperaturas extremas e o vento forte; área de repouso suficiente e nos animais alojados deve proporcionar-se uma cama de material natural; acesso fácil a água corrente e ao alimento; ambiente sadio que evite efeitos negativos nos produtos finais. Evitar sempre que possível o emprego de materiais de construção com efeitos tóxicos potenciais, e estes não devem ser tratados com conservantes potencialmente tóxicos, tintas, etc. Quando se prolonga o dia com iluminação artificial, a iluminação total não deve ultrapassar as 16h e deve concluir com um período de obscuridade. As mutilações devem ser evitadas ao máximo. Alguns casos específicos de castrações e corte de cauda são permitidos. Não é permitido corte de dentes, debicagem ou queima de asas. A descorna também é considerada mutilação e deve ser evitada sempre que possível. No caso de animais a campo como bovinos ou ovinos, por exemplo, o manejo e rotação das pastagens é fundamental para se cortar o ciclo dos parasitas e manter as pastagens descontaminadas. 4. Alimentação A dieta deve ser equilibrada conforme as necessidades dos animais (para um nível de produção razoável e um crescimento normal) e ser de boa qualidade. Se possível deve-se produzir a maior quantidade possível de alimentos na propriedade. Todos os alimentos devem ser produzidos ecologicamente. Quando for comprovado que é inviável produzir ou conseguir na região, pode-se permitir uma pequena porcentagem de alimentos de origem convencional. É proibido o emprego de aditivos, promotores de crescimento, estimulantes do apetite, conservantes, uréia, aminoácidos puros, a corantes artificiais. Devem ter preferência os aditivos vitamínicos e minerais de origem natural. No caso de ruminantes, a maior parte da dieta teve ter um elevado conteúdo de matéria fibrosa. Mamíferos jovens devem ser alimentados a base de leite orgânico. As pastagens não podem receber adubação química, uréia ou qualquer produto químico artificial. 5. Terapêuticas. As práticas devem procurem atingir a máxima resistência às enfermidades e a prevenir as infeções. Quando ocorre um enfermidade, deve-se encontrar a causa e prevenir futuras ocorrências modificando as técnicas de manejo. Os criadores devem procurar um médico-veterinário que trabalhe com fitoterapia, homeopatia e similares. Em casos urgentes podem ser empregados medicamentos sintéticos previamente selecionados conforme seus aspectos toxicológicos e rigorosamente controlados. O período de carência para o aproveitamento do alimento destes animais deverá ser, no mínimo, o dobro do período recomendado pelo fabricante ou pelo órgão oficial. É proibida a aplicação rotineira e profilática de medicamentos sintéticos assim como uso de qualquer promotor de crescimento, substâncias de origem sintética para produzir o estímulo ou a supressão do crescimento natural assim como hormônios para sincronizar ou induzir o cio. PRODUTIVIDADE DOS SISTEMAS ECOLÓGICOS Este ponto tem sido sempre motivo de preocupação e de indagação por aqueles que desejam iniciar uma criação ecológica. Felizmente atualmente já dispomos de inúmeras experiências práticas que ocorrem inclusive no nosso país, que tiveram acompanhamento científico e que foram publicadas em Congressos. Allison Taylor & Frank Hurnick (1994,1996) compararam 336 poedeiras em gaiolas , 3 aves /gaiola, 733 cm /ave com 437 aves criadas em aviários (aves com ninhos e poleiros comunais) durante 3 anos e concluíram que o sistema aviário bem manejado pode oferecer vantagens com respeito à condição física de poedeiras, em relação ao sistema de aves em bateria de gaiolas. Em relação a frangos de corte, Coenen et al, 1966, analisou grupos de 16.000 a 23.700 animais e concluiu que grupos com densidade "reduzida" tinham melhor conversão alimentar e menor mortalidade. Em relação a suínos, o Departamento de Zootecnia e Des. Rural da UFSC vem há anos trabalhando com suinocultura intensiva ao ar livre, medindo produtividade, custo, qualidade da carne e bem-estar, ou seja a influência do espaço de cada animal no desempenho zootécnico. Apresentamos as tabelas a seguir; SUÍNOS AO AR LIVRE: PRODUTIVIDADE, CUSTO, QUALIDADE DA CARNE E BEM-ESTAR Desempenho técnico médio das unidades de produção: CETRE / Florianópolis, CNPSA / Concórdia, UFSC / Florianópolis, Canoinhas (SC) e Carazinho (RS). (OLIVEIRA, 1966) ----------------------------------------------------------------------------------- Nº leitões nasc. Vivos / parto 10,3 (9,1 - 11.3) Nº leitões desmamados / parto 9,1 (8.2 - 9,5) Idade média desmame (dias) 35,2 (27,2 - 39,8) Interv. Desm. -Cobrição Fértil (IDCF) 10,9 (5,4 - 15,7) Nº leitões desmamados / porca / ano 20,7 (18,1 - 21,4) ----------------------------------------------------------------------------------- Custo por matriz alojada: (CNPSA, 1993) confinamento: US$ 697, 51 ar livre: US$ 311, 93 Custo de produção por leitão: (OLIVEIRA, 1966) CNPSA (1994): ar livre 32, 95% menor Univ. Of Cambridge (1988): ar livre: + 1,26 Libras confinado: - 0,96 Libras FUTURO Os altos custos de produção do modelo da agrícola industrial baseado em maquinárias e insumos caros derivados do petróleo levou a um inegável empobrecimento do homem do campo, principalmente os pequenos e médios produtores, provocou uma enorme contaminação ambiental, perda de biodiversidade e trouxe como conseqüência o êxodo rural e um encarecimento do preço dos alimentos pela elevação do custo de produção dos mesmos. Grandes grupos econômicos pouco a pouco foram dominado toda a cadeia produtiva principalmente o beneficiamento e a comercialização. Isto é bastante evidente, por exemplo, na área de leite e derivados. Para os pequenos e médios produtores fica muito difícil a competição com grupos fortes como Nestlé, Parmalat, Sadia, Perdigão, por exemplo. Independizar-se e disputar com eles de igual para igual a mesma fatia de mercado é impensável. A produção de produtos diferenciados, como os alimentos ecológicos, com mais qualidade e preços superiores parece ser uma saída importante para driblar a crise, se não a única. O mercado internacional está ávido destes produtos e paga preços entre 30 a 40% superiores aos mesmos produtos tradicionais. Os consumidores, pouco a pouco se conscientizam e exigem qualidade sendo que muitos, conforme recentes pesquisas e estão dispostos a pagar mais por um alimento de maior valor nutritivo e sem o risco de conter resíduos químicos tóxicos. Em
dezenas de países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento houve
nos últimos anos um verdadeiros "boom" desses produtos,
principalmente os alimentos. O crescimento deste mercado, no Brasil,
deve ser imenso nos próximos anos. Ótimo para gerar empregos na zona
rural, melhorar a qualidade de vida dos produtores rurais, diminuir a
contaminação ambiental e contribuir para a melhoria da saúde da
população brasileira com alimentos de melhor qualidade. 1. ANTOINE, Dominique - L’élevage biologique de la poule pondeuse. Collection les Quatre Saisons du jardinage.Terre Vivante, Paris 1984. 174 pgs 2. BOEHNCKE, Engelhard et al - Animal Health F 11 - Book of Abstracts, 11th IFOAM Scientific Conference, Copenhagem, Dinamarca, 1996. 3. CABEZAS, Silvia e RAMOS JUNIO, Gilberto - Tick (Boophilus microplus) Control with Effective Microoganisms in Cattle s6. Faculdade Barramanense, Rio de Janeiro, Brasil, apresentado no11th IFOAM Scientific Conference, Copenhagem, Dinamarca, 1996. 4. Basic Standards of IFOAM International Federation of Organic Agriculture Movouments, 1998. 5. ESCOSTEGUY, Angela - Queridos Animais, L&PM Editores, 1997, 202pgs. 6. ESCOSTEGUY, Angela - Perspectivas Econômicas dos alimentos ecológicos, PNFC- Projeto Novas Fronteiras da Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável, Home Page,( www. pnfc.org) ,dezembro de 1998. 7. PADEL, Susanne - Organic livestock products: possibilities and prospects. Book of Abstracts, 11th IFOAM Scientific Conference, Copenhagem, Dinamarca, 1996. 8. PINHEIRO,S. Et alli - Agropecuária sem veneno, 3º Edição, L&PM Editores, 1985, 128 p. 9. PINHEIRO MACHADO Fº, LC - Alternativas Criatórias ao confinamento promotoras do bem-estar animal. Palestra apresentada durante o I Congresso Latino-americano de Bem-estar animal, São Paulo, junho de 1998. 10. POUSSET. Joseph - Les Principaux Elevages en Agriculture Ecologique de subsistance. Le courrier du livre, Paris, 1977. 223 pgs. 11. Best Organic Products - Organic Food News- Article 9 - Home Page The Organic Centre Ltda - (www.organicfood.co.uk) out 1998. 12. Organic Foods market Triples Over Three Years - Organic Food News- Article 13 - Home Page The Organic Centre Ltda - (www.organicfood.co.uk) out 1998 |
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