Trabalhos


A CERTIFICAÇÃO DE ALIMENTOS ORGÂNICOS NO BRASIL

FONSECA, Mª Fernanda de Albuquerque Costa e 

Doutoranda em Desenvolvimento e Agricultura no CPDA/UFRRJ, pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro – PESAGRO-RIO, Alamêda Sào Boaventura, 770, Niterói-
Rio de Janeiro, Brasil          e.mail:
fernanda.sede@pesagro.com

Trabalho publicado em 22/02/2001


As primeiras iniciativas de produção e comercialização de produtos orgânicos no país foram estabelecidas por cooperativas de consumidores (Coonatura, no Rio de Janeiro, e Coolméia, no Rio Grande do Sul), no ano de 1978, aproximando consumidores e produtores.

Os agricultores ecológicos apoiados por organizações não-governamentais (ONGs) iniciaram essa nova maneira de encarar a comercialização. Nessa época, produtores e consumidores estavam em contato direto, via feiras e cestas em domicílio, o que dava confiança ao processo. Estava criada a rede de credibilidade de produção e comercialização dos alimentos orgânicos, envolvendo produtores, consumidores e profissionais das ciências naturais e agrárias que avalizavam o sistema saudável de produção de alimentos.

A necessidade da regulamentação para os alimentos orgânicos acontece com o natural distanciamento entre agricultor e consumidor quando do crescimento do mercado. No início desse processo, no Brasil, a normatização era estabelecida pelas próprias organizações de agricultores, ONGs e cooperativas de consumidores. Em 1986, a Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio) definiram as bases técnicas a serem consideradas pelos agricultores em suas unidades de produção.

No início de 1991, a Comunidade Econômica Européia (CEE) regulamentou o comércio de produtos orgânicos no âmbito dos seus países afiliados. Segundo essa regulamentação, a importação de produtos orgânicos de países não pertencentes à CEE só é permitida caso existam, nesses últimos, regulamentações normativas equivalentes.

A partir de setembro de 1994, o Ministério da Agricultura (MA) reuniu-se com representantes de entidades ligadas à produção e ao consumo de alimentos orgânicos com o propósito de criar normas para a produção orgânica em todo o território nacional, abrindo maiores possibilidades de exportação. A discussão continuou nos anos seguintes, quando finalmente, em maio de 1999, o MA publicou a Instrução Normativa nº 007, criando um selo de qualidade para os produtos orgânicos. A referida norma recusa os transgênicos e a radiação ionizante, e trata tanto do processo de produção quanto de industrialização. Considera ainda sobre a saúde ambiental e humana, e visa assegurar a transparência em todos os estágios da produção e da transformação. Fato estranho foi ignorar os distribuidores, não os chamando a participar do processo de discussão e do comprometimento da sociedade como um todo.

Na Instrução Normativa são criados os Órgãos Colegiados Nacional (OCN) e Estadual. Eles são paritários e têm a função de credenciar as instituições certificadoras que serão responsáveis pela certificação e controle de qualidade orgânica.

As entidades certificadoras deverão ser pessoas jurídicas sem fins lucrativos, credenciados junto ao OCN. As normas permitem a importação de produtos orgânicos certificados em seu país de origem condicionados às leis fitossanitárias no Brasil e à análise prévia e autorização de uma certificadora registrada no OCN. Contudo, não há nada nas normas sobre sanções à importação de alimentos orgânicos subsidiados no seu país de origem.

Outra forma de garantir os alimentos orgânicos é a certificação participativa praticada pela Rede Ecovida, em Santa Catarina, e Coolméia, no Rio Grande do Sul. Esse sistema de rede de geração de credibilidade tem o objetivo de garantir a qualidade dos alimentos ecológicos produzidos pelos grupos que compõem a rede (ONGs, associações, grupos informais, profissionais ligados à agroecologia, consumidores) e não onerar a cadeia produtiva. A Abio, no Rio de Janeiro, tem como proposta de trabalho esse tipo de certificação na Rede Agroecologia Rio. Essa é uma visão mais coerente com os princípios do movimento orgânico, mais justa para a sociedade, onde todos participam da construção dos conceitos, da repartição dos frutos, na busca por um desenvolvimento harmônico da sociedade.

Há que se ter em mente que muitas vezes os interesses das instituições certificadoras não são os mesmos dos agricultores e processadores, principalmente quando se fala num mercado mundial de US$ 100 bilhões anuais, crescendo a taxas anuais de 20% a 30%. O custo dessa certificação varia de 0,5% a 2,5% do valor da produção orgânica, inviabilizando iniciativas de pequenos agricultores e pequenas agroindústrias . Muitos documentos falam do prêmio que os alimentos orgânicos têm em relação aos demais. Entretanto, não tocam na questão de qual segmento da cadeia produtiva está se beneficiando desse prêmio. Será que os agricultores estão sendo beneficiados ou continuam explorados pelos demais segmentos? O discurso mudou, e a prática?


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