Trabalhos

Adubação verde intercalar como fonte de nutrientes para a cultura do milho orgânico

 Ramon Costa Alvarenga 
E-mail:
ramon@cnpms.embrapa.br
Pesquisador Científico da Embrapa Milho e Sorgo

Caixa Postal 151 - CEP 35701-970 - Sete Lagoas, MG

Trabalho publicado em 20/01/03

 
A sociedade está cada vez mais exigente em relação à qualidade dos alimentos que consome e um segmento crescente está disposto a pagar mais por produtos saudáveis e sem resíduos tóxicos, que não ofereçam riscos à saúde. Em razão disso o mercado de produtos orgânicos está em plena expansão e produtos com essa certificação recebem melhor remuneração, contribuindo decisivamente para a melhoria da renda dos agricultores que optam pela produção orgânica. Outro atrativo diz respeito à garantia de comercialização, devido à oferta reprimida. Destaca-se o grande contingente de agricultores familiares voltados para produzir alimentos nessas condições e médios produtores também já aparecem no mercado, com um grau tecnológico mais elevado e a intensificação no uso dos insumos orgânicos disponíveis.  

Para manter a continuidade de unidades de produção orgânica, a geração e a adaptação de conhecimentos tecnológicos deverão ser dinâmicas de tal modo que permitam a sustentabilidade do sistema. Um dos pré-requisitos é a diversificação das culturas envolvidas nos sistemas de rotação. Nesse sentido a cultura do milho se destaca, devido ao seu uso múltiplo na propriedade agrícola, havendo necessidade de adequações no manejo cultural para a melhoria da eficiência dos sistemas de produção de milho orgânico, o que favoreceria outras explorações em que ele é matéria prima essencial, como no caso da produção de aves, suínos e bovino orgânicos. Para isso, a capacidade de suporte nutricional dos solos e a promoção do desenvolvimento vegetativo de espécies em sistemas orgânicos são aspectos fundamentais do processo de produção.

Dentro das alternativas econômicas e ambientais para o manejo de nutrientes visando à produção de milho orgânico, a adubação verde ocupa lugar de destaque. Reconhece-se o seu papel positivo sobre os atributos químicos, físicos e biológicos do solo, como também na dinâmica de pragas, doenças e plantas daninhas e, ainda, a sua função no manejo e conservação de solo, na recuperação e/ou manutenção da fertilidade e potencial produtivo.  

A adubação verde pode ser implantada em cultivo exclusivo ou em consórcio (cultivo intercalar) com o milho. O cultivo exclusivo, em rotação, ainda que apresente bons resultados à cultura do milho plantado no verão seguinte, apresenta o inconveniente de não proporcionar rendimento econômico. Por outro lado, o cultivo intercalar possibilita que ambas culturas sejam cultivadas num mesmo ano agrícola. Nesse sistema, ainda é possível defasar o plantio da leguminosa em relação à gramínea, com o objetivo de minimizar a competição do adubo verde, visando a menor interferência possível dele sobre o rendimento do milho, ainda que essa prática interfira negativamente sobre a produção do adubo verde.  

Na escolha do adubo verde, é preciso estar atento ao fato de que as condições pedoclimáticas interferem diferentemente sobre o rendimento das espécies. Estas é uma das razões por que há diferenças entre o comportamento das espécies de adubo verde quando plantadas em diferentes locais. Para uma mesma condição de solo, baixa fertilidade, por exemplo, o diferencial na  produtividade entre duas espécies pode ser devido à maior habilidade de uma delas em capturar nutrientes que estejam numa condição menos disponível às plantas. O caso do fósforo é clássico. Algumas espécies, devido à exsudação de determinados ácidos, como o psídico, favorecem a absorção desse nutriente. Nessa condição, o fósforo, que anteriormente não estava numa forma passível de assimilação, passa para uma forma mais disponível e pode ser absorvido por essas plantas. Maior tolerância ao estresse hídrico, às pragas e doenças, agressividade e sensibilidade ao fotoperíodo são outras características que interferem sobre o seu rendimento.

Em razão disso, o conhecimento sobre o comportamento dessas espécies deve ser regionalizado e até mesmo localizado para que a escolha da melhor espécie recaia naquela com maior potencial de produção de fitomassa, de reciclagem de nutrientes e que melhor se ajuste ao sistema agrícola adotado na produção de culturas comerciais. Além disso, ainda deve ser considerada a taxa de decomposição do adubo verde, que irá regular a intensidade da liberação dos nutrientes imobilizados na fitomassa e que serão absorvidos, na seqüência, pela cultura já em crescimento ou cultivada na sucessão. A relação entre o conteúdo de carbono e nitrogênio (C:N) da fitomassa é a principal responsável pela velocidade de decomposição. Uma relação mais larga indica decomposição mais lenta da fitomassa em comparação a outra de relação C:N mais estreita. Entretanto, essa velocidade pode ser controlada, até certo ponto, pelo manejo dessas plantas, conforme o interesse em retardar ou acelerar sua decomposição. Estimula-se a decomposição quando o tamanho dos fragmentos dessas plantas, quando picadas no manejo, for de menor tamanho ou quando elas são incorporadas ao solo.  

Para conhecer o potencial de algumas espécies de adubos verdes em integrar um sistema de produção de milho orgânico, está sendo conduzido um ensaio sobre o assunto. O trabalho, até agora, avaliou a sustentabilidade de produção de milho orgânico em sistema de produção intercalar com adubos verdes, os quais constituíram fonte de nutrientes, com e sem o controle de plantas daninhas.             

O ensaio foi instalado no campo experimental da Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas, MG, em um Latossolo Vermelho típico, distrófico, muito argiloso. A área experimental era cultivada com milho (Zea mays) em monocultivo e fertilizada quimicamente até o ano agrícola de 1994/1995. Em outubro de 1995, a área foi preparada com grade aradora e instalado o ensaio, com cinco leguminosas, mucuna-preta (Mucuna  aterrima), guandu (Cajanus cajan), feijão-de-porco (Canavalia ensiformes), feijão-bravo do Ceará (Canavalia brasiliensis), labe-labe (Dolichos lablab), e um tratamento testemunha, com pousio. Dois níveis de controle de plantas daninhas foram avaliados, com e sem capina. Utilizou-se o delineamento de blocos ao acaso, com quatro repetições. Os tratamentos foram dispostos em parcelas divididas com os adubos verdes nas parcelas e o controle ou não das plantas daninhas nas subparcelas. A parcela experimental foi de 25 m2 (5x5 m).  

Essa primeira fase foi de conversão à agricultura orgânica, com duração de dois anos agrícolas. A partir desse histórico, sobre as mesmas parcelas de adubos verdes, foi instalado, em dezembro de 1997, a segunda fase do ensaio, que consistiu no cultivo do milho orgânico, consorciado com adubação verde intercalar como fonte de nutrientes para o milho, com ou sem o controle de plantas daninhas, utilizando-se o mesmo delineamento experimental e disposição dos tratamentos.  

A parcela anteriormente deixada em pousio passou a constituir o tratamento “Milho sem Adubo Verde”. Foram plantadas cinco fileiras de milho, espaçadas de 1,0 m. Foi semeada a variedade crioula “Caiano de Sobrália”, com uma densidade de 40 mil plantas por hectare. As parcelas onde as plantas daninhas eram controladas foram capinadas manualmente duas vezes e, nas demais parcelas, as plantas daninhas não tiveram nenhum controle. Aproximadamente 40 dias após o plantio do milho, foram semeadas as espécies de adubos verdes, inoculadas com rizóbio específico, nas entrelinhas. Após a maturidade fisiológica, as plantas de milho foram quebradas e permaneceram no campo até a época de florescimento dos adubos verdes. Nessa ocasião, as espigas foram colhidas e as leguminosas manejadas, ou seja, cortadas e deixadas em cobertura sobre o solo até a época do próximo plantio, quando a fitomassa seca foi triturada e o preparo de solo feito com arado de discos, o terreno sulcado e iniciado novo ciclo de cultivos.  

Foi avaliada a fertilidade do solo, a imobilização de nutrientes e a fitomassa seca dos adubos verdes no florescimento e a produção de milho com correção de umidade para 13% nos anos agrícolas 1997/1998 a 2001/2002. No ano 2000, o labe-labe, devido ao intenso ataque de vaquinha (Diabrotica speciosa), foi substituído pela crotalária (Crotalaria juncea).             

Com a colheita do milho, em maio de 2002, e o manejo dos adubos verdes na seqüência, encerrou-se a segunda fase do estudo. Em novembro, teve início a terceira fase, em que se tenta aumentar a produtividade do milho orgânico. Para tanto, a variedade crioula foi substituída por variedade melhorada (BR 106) e lançou-se mão de insumos orgânicos, para promover o aumento da produtividade do milho. Toda a parcela será capinada com vistas a que a competição das plantas daninhas sejam minimizadas.

Na Figura 1 são mostradas duas etapas do consórcio milho + adubo verde implantado no ano agrícola de 2000/2001. Na parte superior, observam-se as leguminosas, já estabelecidas, no período de florescimento do milho. Na parte inferior da figura, o milho já atingiu a maturação e os adubos verdes se encontram em franco crescimento.

 

Figura 1- Milho sem adubo verde e consorciado com adubos verdes na fase de florescimento (acima) e de maturação (abaixo). Sete Lagoas, MG, 2000/2001.
Os teores foliares de macronutrientes no milho foram afetados significativamente apenas pelo controle ou não das plantas daninhas, sendo que, nas parcelas onde o mato foi controlado, os teores percentuais de nitrogênio, fósforo, potássio e enxofre foram superiores, evidenciando a competição das plantas daninhas. De maneira geral, esses teores foram inferiores aos verificados por Heinrichs et al. (2002). Comparando com teores foliares considerados adequados para culturas produtivas de milho, compilados por vários autores, verifica-se que apenas os teores de enxofre estavam abaixo de valores considerados adequados; o teor de nitrogênio situa-se no limite inferior e os demais nutrientes apresentam teores considerados satisfatórios.

Tabela 1- Teor foliar de macronutrientes na cultura do milho consorciado com adubos verdes em comparação ao teor considerado adequado. Sete Lagoas, 2000.

Situação de Comparação

Nutriente

N

P

K

Ca

Mg

S

 

g kg-1

Adequado*

27,5-32,5

1,9-3,5

17,5-29,7

2,3-4,0

1,5-4,0

1,5-2,1

 

 

 

 

 

 

 

Milho + Labe-labe

25,4

2,4

20,2

5,7

1,7

1,3

Milho +Mucuna

28,4

2,6

19,7

6,1

1,8

1,4

Milho +F.Bravo

27,3

2,5

20,9

5,7

1,7

1,3

Milho +F.Porco

28,2

2,5

20,9

5,9

1,7

1,4

Milho +Guandu

26,7

2,3

20,5

5,8

1,6

1,3

Milho S/ Adubo Verde

25,1

2,3

20,1

6,0

1,6

1,2

*Teores foliares considerados adequados para culturas produtivas de milho, compilados por vários autores, citados por BÜLL(1993). 

A Tabela 2 mostra resultados médios das análises químicas do solo na profundidade de 0 a 20 cm, no início do ensaio (1995), antes de iniciar o plantio de leguminosas, no primeiro ano do presente trabalho, antes do plantio do milho, em 1998, e no terceiro ano do estudo, em 2000.

Observa-se que, num primeiro momento, comparando os resultados de 1995 e 1998, que a adubação verde exclusiva tendeu a aumentar a fertilidade do solo, o que pode ser atribuído à reciclagem (mineralização da fitomassa das leguminosas, retornando ao solo os nutrientes absorvidos do solo e imobilizados nela). Depois que o milho foi inserido no sistema, este passou a exportar nutrientes nos grãos e a produtividade de fitomassa e reciclagem de nutrientes foi menor nos adubos verdes, à exceção do milho+mucuna. Desse modo, a exportação dos nutrientes contribuiu para a ligeira redução do padrão de fertilidade verificado no solo entre o período de 1998 a 2000. A menor imobilização temporária dos nutrientes na fitomassa também pode ter contribuído para o menor nível de nutrição das plantas, uma vez que a quantidade de nutrientes prontamente assimiláveis após a mineralização diminui. Somente para o K essa tendência não foi verificada.

 
Tabela 2- Resultados das análises químicas do solo na profundidade de 0 a 20 cm, no início do ensaio (1995), no primeiro ano (1998) e no terceiro ano (2000) do consórcio milho+adubo verde. Sete Lagoas, MG, 2000.

Adubo Verde

Ano

pH

Al

H+Al

Ca

Mg

K

P

M.O.

 

 

 

cmolc dm-3

mg dm-3

dag kg-1

 

Inicial

1995

5,7

0,00

3,42

5,01

0,70

74

12

3,30

 

Labe-labe
(Crotalária)

1998

6,3

0,05

4,41

5,74

0,78

27

10

3,81

2000

6,3

0,00

3,36

3,85

0,63

30

7

3,01

 

Mucuna
Preta

1998

6,3

0,05

4,59

5,42

0,68

31

10

3,62

2000

6,0

0,09

3,9

4,15

0,68

53

14

3,51

 

Feijão-
Bravo

1998

6,3

0,07

4,58

5,89

0,81

35

10

3,74

2000

5,9

0,04

3,61

4,34

0,69

41

16

3,63

 

Feijão
Porco

1998

6,2

0,08

4,76

5,12

0,68

27

10

3,83

2000

6,1

0,00

4,28

4,8

0,73

38

7

3,30

 

Guandu

1998

6,2

0,08

4,6

5,76

0,87

35

11

3,83

2000

5,9

0,04

4,57

5,01

0,86

51

8

3,57

 

S/ Adubo
Verde

1998

6,3

0,07

4,67

5,66

0,75

31

10

3,79

2000

6,3

0,00

3,48