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| Adubação verde intercalar como fonte de nutrientes para a cultura do milho orgânico | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Ramon
Costa Alvarenga Trabalho publicado em 20/01/03 |
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A
sociedade está cada
vez mais exigente em relação à qualidade dos alimentos que consome e
um segmento crescente está disposto a pagar mais por produtos
saudáveis e sem resíduos tóxicos, que não ofereçam riscos à saúde.
Em razão disso o mercado de produtos
orgânicos está em plena expansão e produtos com essa certificação
recebem melhor remuneração, contribuindo decisivamente para a melhoria
da renda dos agricultores que optam pela produção orgânica. Outro
atrativo diz respeito à garantia de comercialização, devido à oferta
reprimida. Destaca-se o grande
contingente de agricultores familiares voltados para produzir alimentos
nessas condições e médios produtores também já aparecem no
mercado, com um grau tecnológico mais elevado e a intensificação no
uso dos insumos orgânicos disponíveis.
Para
manter a continuidade de unidades de produção orgânica, a geração e
a adaptação de conhecimentos tecnológicos deverão ser dinâmicas de
tal modo que permitam a sustentabilidade do sistema. Um dos pré-requisitos
é a diversificação das culturas envolvidas nos sistemas de rotação.
Nesse sentido a cultura do milho se destaca, devido ao seu uso múltiplo
na propriedade agrícola, havendo necessidade de adequações no manejo
cultural para a melhoria da eficiência dos sistemas de produção de
milho orgânico, o que favoreceria outras explorações em que ele é
matéria prima essencial, como no caso da produção de aves, suínos e
bovino orgânicos. Para isso, a capacidade de suporte nutricional dos
solos e a promoção do desenvolvimento vegetativo de espécies em
sistemas orgânicos são aspectos fundamentais do processo de produção.
Dentro
das alternativas econômicas e ambientais para o manejo de nutrientes
visando à produção de milho orgânico, a adubação verde ocupa lugar
de destaque. Reconhece-se o seu
papel positivo sobre os atributos químicos, físicos e biológicos do
solo, como também na dinâmica de pragas, doenças e plantas daninhas
e, ainda, a sua função no manejo e conservação de solo, na recuperação
e/ou manutenção da fertilidade e potencial produtivo.
A
adubação verde pode ser implantada em cultivo exclusivo ou em consórcio
(cultivo intercalar) com o milho. O cultivo exclusivo, em rotação,
ainda que apresente bons resultados à cultura do milho plantado no verão
seguinte, apresenta o inconveniente de não proporcionar rendimento econômico.
Por outro lado, o cultivo intercalar possibilita que ambas culturas
sejam cultivadas num mesmo ano agrícola. Nesse sistema, ainda é possível
defasar o plantio da leguminosa em relação à gramínea, com o
objetivo de minimizar a competição do adubo verde, visando a menor
interferência possível dele sobre o rendimento do milho, ainda que
essa prática interfira negativamente sobre a produção do adubo verde.
Na
escolha do adubo verde, é preciso estar atento ao fato de que as condições
pedoclimáticas interferem diferentemente sobre o rendimento das espécies.
Estas é uma das razões por que há diferenças entre o comportamento
das espécies de adubo verde quando plantadas em diferentes locais. Para
uma mesma condição de solo, baixa fertilidade, por exemplo, o
diferencial na produtividade
entre duas espécies pode ser devido à maior habilidade de uma delas em
capturar nutrientes que estejam numa condição menos disponível às
plantas. O caso do fósforo é clássico. Algumas espécies, devido à
exsudação de determinados ácidos, como o psídico, favorecem a absorção
desse nutriente. Nessa condição, o fósforo, que anteriormente não
estava numa forma passível de assimilação, passa para uma forma mais
disponível e pode ser absorvido por essas plantas. Maior tolerância ao
estresse hídrico, às pragas e doenças, agressividade e sensibilidade
ao fotoperíodo são outras características que interferem sobre o seu
rendimento.
Em
razão disso, o conhecimento sobre o comportamento dessas espécies deve
ser regionalizado e até mesmo localizado para que a escolha da melhor
espécie recaia naquela com maior potencial de produção de fitomassa,
de reciclagem de nutrientes e que melhor se ajuste ao sistema agrícola
adotado na produção de culturas comerciais. Além disso, ainda deve
ser considerada a taxa de decomposição do adubo verde, que irá
regular a intensidade da liberação dos nutrientes imobilizados na
fitomassa e que serão absorvidos, na seqüência, pela cultura já em
crescimento ou cultivada na sucessão. A relação entre o conteúdo de
carbono e nitrogênio (C:N) da fitomassa é a principal responsável
pela velocidade de decomposição. Uma relação mais larga indica
decomposição mais lenta da fitomassa em comparação a outra de relação
C:N mais estreita. Entretanto, essa velocidade pode ser controlada, até
certo ponto, pelo manejo dessas plantas, conforme o interesse em
retardar ou acelerar sua decomposição. Estimula-se a decomposição
quando o tamanho dos fragmentos dessas plantas, quando picadas no
manejo, for de menor tamanho ou quando elas são incorporadas ao solo.
Para
conhecer o potencial de algumas espécies de adubos verdes em integrar
um sistema de produção de milho orgânico, está sendo conduzido um
ensaio sobre o assunto. O trabalho, até agora, avaliou a
sustentabilidade de produção de milho orgânico em sistema de produção
intercalar com adubos verdes, os quais constituíram fonte de
nutrientes, com e sem o controle de plantas daninhas.
O ensaio foi instalado no campo experimental da Embrapa Milho e
Sorgo, em Sete Lagoas, MG, em um Latossolo Vermelho típico, distrófico,
muito argiloso. A área experimental era cultivada com milho (Zea mays) em monocultivo e fertilizada quimicamente até o ano
agrícola de 1994/1995. Em outubro de 1995, a área foi preparada com
grade aradora e instalado o ensaio, com cinco leguminosas, mucuna-preta
(Mucuna
aterrima), guandu (Cajanus
cajan), feijão-de-porco (Canavalia
ensiformes), feijão-bravo do Ceará (Canavalia brasiliensis), labe-labe (Dolichos lablab), e um
tratamento testemunha, com pousio. Dois níveis de controle de plantas
daninhas foram avaliados, com e sem capina. Utilizou-se o delineamento
de blocos ao acaso, com quatro repetições. Os tratamentos foram
dispostos em parcelas divididas com os adubos verdes nas parcelas e o
controle ou não das plantas daninhas nas subparcelas. A parcela
experimental foi de 25 m2 (5x5 m).
Essa
primeira fase foi de conversão à agricultura orgânica, com duração
de dois anos agrícolas. A partir desse histórico, sobre as mesmas
parcelas de adubos verdes, foi instalado, em dezembro de 1997, a segunda
fase do ensaio, que consistiu no cultivo do milho orgânico, consorciado
com adubação verde intercalar como fonte de nutrientes para o milho,
com ou sem o controle de plantas daninhas, utilizando-se o mesmo
delineamento experimental e disposição dos tratamentos.
A
parcela anteriormente deixada em pousio passou a constituir o tratamento
“Milho sem Adubo Verde”. Foram plantadas cinco fileiras de milho,
espaçadas de 1,0 m. Foi semeada a variedade crioula “Caiano de Sobrália”,
com uma densidade de 40 mil plantas por hectare. As parcelas onde as
plantas daninhas eram controladas foram capinadas manualmente duas vezes
e, nas demais parcelas, as plantas daninhas não tiveram nenhum
controle. Aproximadamente 40 dias após o plantio do milho, foram
semeadas as espécies de adubos verdes, inoculadas com rizóbio específico,
nas entrelinhas. Após a maturidade fisiológica, as plantas de milho
foram quebradas e permaneceram no campo até a época de florescimento
dos adubos verdes. Nessa ocasião, as espigas foram colhidas e as
leguminosas manejadas, ou seja, cortadas e deixadas em cobertura sobre o
solo até a época do próximo plantio, quando a fitomassa seca foi
triturada e o preparo de solo feito com arado de discos, o terreno
sulcado e iniciado novo ciclo de cultivos.
Foi
avaliada a fertilidade do solo, a imobilização de nutrientes e a
fitomassa seca dos adubos verdes no florescimento e a produção de
milho com correção de umidade para 13% nos anos agrícolas 1997/1998 a
2001/2002. No ano 2000, o labe-labe, devido ao intenso ataque de
vaquinha (Diabrotica speciosa), foi
substituído pela crotalária (Crotalaria
juncea).
Com a colheita do milho, em maio de 2002, e o manejo dos adubos
verdes na seqüência, encerrou-se a segunda fase do estudo. Em
novembro, teve início a terceira fase, em que se tenta aumentar a
produtividade do milho orgânico. Para tanto, a variedade crioula foi
substituída por variedade melhorada (BR 106) e lançou-se mão de
insumos orgânicos, para promover o aumento da produtividade do milho.
Toda a parcela será capinada com vistas a que a competição das
plantas daninhas sejam minimizadas. Na Figura 1 são mostradas duas etapas do consórcio milho + adubo verde implantado no ano agrícola de 2000/2001. Na parte superior, observam-se as leguminosas, já estabelecidas, no período de florescimento do milho. Na parte inferior da figura, o milho já atingiu a maturação e os adubos verdes se encontram em franco crescimento.
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Os
teores foliares de macronutrientes no milho foram afetados
significativamente apenas pelo controle ou não das plantas daninhas,
sendo que, nas parcelas onde o mato foi controlado, os teores
percentuais de nitrogênio, fósforo, potássio e enxofre foram
superiores, evidenciando a competição das plantas daninhas. De maneira
geral, esses teores foram inferiores aos verificados por Heinrichs et
al. (2002). Comparando com teores foliares considerados adequados para
culturas produtivas de milho, compilados por vários autores,
verifica-se que apenas os teores de enxofre estavam abaixo de valores
considerados adequados; o teor de nitrogênio situa-se no limite
inferior e os demais nutrientes apresentam teores considerados satisfatórios.
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Tabela
1- Teor foliar de macronutrientes na cultura do milho consorciado com
adubos verdes em comparação ao teor considerado adequado. Sete Lagoas,
2000. |
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*Teores
foliares considerados adequados para culturas produtivas de milho,
compilados por vários autores, citados por BÜLL(1993).
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A
Tabela 2 mostra resultados médios das análises químicas do solo na
profundidade de 0 a 20 cm, no início do ensaio (1995), antes de iniciar o
plantio de leguminosas, no primeiro ano do presente trabalho, antes do
plantio do milho, em 1998, e no terceiro ano do estudo, em 2000. Observa-se
que, num primeiro momento, comparando os resultados de 1995 e 1998, que a
adubação verde exclusiva tendeu a aumentar a fertilidade do solo, o que
pode ser atribuído à reciclagem (mineralização da fitomassa das
leguminosas, retornando ao solo os nutrientes absorvidos do solo e
imobilizados nela). Depois que o milho foi inserido no sistema, este
passou a exportar nutrientes nos grãos e a produtividade de fitomassa e
reciclagem de nutrientes foi menor nos adubos verdes, à exceção do
milho+mucuna. Desse modo, a exportação dos nutrientes contribuiu para a
ligeira redução do padrão de fertilidade verificado no solo entre o período
de 1998 a 2000. A menor imobilização temporária dos nutrientes na
fitomassa também pode ter contribuído para o menor nível de nutrição
das plantas, uma vez que a quantidade de nutrientes prontamente assimiláveis
após a mineralização diminui. Somente para o K essa tendência não foi
verificada. |
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Tabela
2- Resultados das análises químicas do solo na profundidade de 0 a 20
cm, no início do ensaio (1995), no primeiro ano (1998) e no terceiro ano
(2000) do consórcio milho+adubo verde. Sete Lagoas, MG, 2000. |
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