O
sistema de produção da pecuária de corte orgânica baseia-se
numa visão holística, que está inserido dentro de princípios
de agroecossistemas sustentáveis, cujo enfoque engloba dois
componentes essenciais: ambiental e social. Este sistema
objetiva uma produção que mantenha o equilíbrio ecológico
dos agroecossistemas e com a satisfação, direta, ou indireta ,
das necessidades humanas.
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O
Pantanal instituido recentemente como ‘Reserva da Biosfera’,
é uma planície periodicamente inundável, caracterizada pela
presença de extensas áreas de campos naturais, favorecendo a
atividade pastoril, razão pela qual, a região tem sua economia
voltada principalmente para a exploração extensiva da pecuária
de corte. O Pantanal é formado por grandes propriedades
privadas, cujo manejo tradicional da pecuária extensiva por
cerca de 200 anos tem contribuído para a conservação dessa
região única no mundo. Vários criadores pantaneiros vem se
associando, com o objetivo de beneficiar-se deste sistema
natural de criação, procurando alternativas tecnológicas para
aumentar a produtividade animal de forma sustentável.
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O
manejo sustentável de sistemas complexos, como o Pantanal, é
extremamente difícil e constitui o principal desafio de
cientistas, técnicos e proprietários rurais. O aproveitamento
de uma área no Pantanal não deve ser unilateral, sendo necessário
entender todo o processo (interações entre componentes bióticos
e abióticos) e o papel de cada espécie no seu respectivo
ecossistema. Portanto, o manejo sustentável deve se basear nos
requerimentos das espécies de flora e fauna integrado com os
requerimentos dos animais exóticos introduzidos e as
necessidades do homem, levando-se em consideração as limitações
do ambiente.
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O
Pantanal é constituído por várias fitofisionomias (unidades
de paisagem) que compõem um conjunto de hábitats. Dentro deste
conjunto de hábitats, existem vários tipos que embora
de tamanho reduzido, constituem ambientes chaves para a
manutenção biológica do sistema, tais como capões (ilhas
circulares de matas mais elevada que a planície inundável),
cordilheiras ( cordões arenosos com altura de 1 a 3 m acima da
planície alagável, coberta por vegetação de cerrado, cerradão
e mata), lagoas permanentes (baías), corixos, vazantes, ninhais,
etc. As funções destes hábitats são múltiplas e complexas (Junk
e Silva, 1997).
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Embora
a produção pecuária bovina no Pantanal esteja próxima a um
sistema orgânico de produção, para a sua certificação são
exigidos alguns critérios/procedimentos básicos descritos na
Instrução Normativa nº 007 e normas da certificadora responsável.
Além do mais, deve atender a legislação ambiental vigente Lei
nº 4771, de 15 de setembro de 1965 e, de 17 de maio de 1999.
Portanto, na região do Pantanal, nem sempre todas as
propriedades terão condições viáveis para a implantação do
sistema orgânico.
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Para
a implantação de
um sistema orgânico no Pantanal, é importante caracterizar as
propriedades em função dos diferentes de tipos fitofisionômicos
e a ocorrência/intensidade de inundação, pois
estes são fatores importantes a serem considerados
quando da tomada de decisões para a conservação, uso e ocupação
da área, especialmente em relação a produção de bovinos. As
áreas devem ter
capacidade para manter os animais durante o ano todo, ou seja,
em condições adversas de seca e cheia. Para atender este requisito é necessário
mapear as invernadas (Santos et al., 2000), visando conhecer os
tipos de pastagens disponíveis (fitofisionomias) e a proporção
da área inundada, em anos de máxima inundação.
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| No
caso de propriedades que podem
sofrer inundação em toda a área (foto 1), e que necessitam
utilizar o manejo integrado entre duas propriedades ou duas áreas
distantes uma da outra (dentro do Pantanal), ambas as
propriedades/áreas utilizadas devem estar dentro dos critérios
mínimos de produção orgânica, ou seja, certificadas.
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Foto
1 – Vista aérea do Pantanal, durante anos que ocorrem
máxima inundação. |
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As
áreas ideais devem ter como base as fitofisionomias preferidas
por bovinos para pastejo que são campo limpo com predominância
de espécies preferidas, tais como Axonopus
purpusii, Mesosteum
chaseae, entre outras e áreas baixas como bordas de baías
permanentes, baías temporárias, vazantes e baixadas em geral.
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A
taxa de lotação deve ser leve a mediana (estimada em função
da proporção de tipos fitofisionômicos disponíveis), pois a
pressão de pastejo é o principal fator que influencia a condição
ecológica do ecossistema pastagem e o nível de produção
animal. Invernadas que possuem maior proporção de áreas de
campo limpo e áreas baixas apresentam maior capacidade de
suporte, porém, esta situação depende do nível/distribuição
de precipitação, da
área inundável e tempo de inundação;
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A
estimativa da capacidade deve ser flexível em função das
condições ambientais. É recomendável que o sistema seja
auto-sustentável com a utilização dos recursos localmente
disponíveis, sendo que, nem sempre isto será possível. Por
exemplo, no caso de inundação de grande parte das áreas
preferidas por bovinos e de não haver áreas altas que suportem
a produção animal, uma opção seria a suplementação das
vacas com alimentos de origem orgânica, pois dentro do sistema
orgânico, os animais não devem passar por restrições
alimentares. Portanto, o produtor deve trabalhar com estratégias
de manejo, variáveis em função das condições ambientais.
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As
áreas escolhidas devem possuir fitofisionomias o mais natural
possível, com pouca influência antrópica. Evitar áreas com
modificações antrópicas severas como construção de diques,
áreas degradadas, etc. Evitar áreas com pastagens degradadas.
Para isto, sugere-se usar algumas espécies indicadoras de
degradação, tais como Richardia
grandiflora, Walteria
communis, Stilpnopappus trichospiroides, entre outras. Nesta avaliação também
é de extrema importância considerar o nível de cobertura do
solo.
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Na
foto 2 pode ser visualizado algumas fitofisionomias típicas da
sub-região da Nhecolândia, Pantanal.
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Foto
2 – Vista aérea da sub-região da Nhecolândia
durante o período de seca, onde 1- as áreas mais
baixas como bordas de baías, vazantes e baixadas em
geral são usadas para forrageamento por vários herbívoros
silvestres como veado campeiro (Ozotocerus
bezoarticus leucoagaster) (Soares e Santos, 1996),
capivaras (Hydrochaeris
hydrochaeris), entre outros. Além do mais, estas áreas
constituem num banco de proteína para os bovinos e eqüinos,
pois possuem espécies de alta qualidade nutricional,
sendo altamente preferidas por estes animais (Santos,
2001). Portanto, estas áreas devem ser preservadas; 2 -
no caso de espécies cultivadas, estas devem ser
introduzidas, preferencialmente, nas áreas de
campo-cerrado, capim vermelho (Andropogon
hypogynus) e também áreas pouco usadas para
pastejo como ‘caronal’ (áreas com predominância do
capim carona (Elyonurus
muticus), áreas de campo sujo (Comastri-Filho,
1997), e outras identificadas ‘in loco’; 3 - O
desmatamento de capões e cordilheiras (áreas pouco ou
não alagáveis) não é recomendável, pois destrói hábitats
chaves, com flora e fauna específicas, que tem a função
de refúgio e sítios de nidificação de numerosas espécies.
No Pantanal, existem cerca de 656 espécies de aves. Em
habitat de floresta, ocorrem 443 espécies de aves
(67,5%), e o restante, em habitats de alguma forma
abertos como cerrados, campos inundáveis, rios, baías,
corixos e pastagens. Um total de 286 espécies (43,6%)
ocorrem somente em floresta (Cintra e Antas, 1996).
Estudos de
Tubelis e Tomas (1996) tem mostrado que a
fragmentação das cordilheiras tende a reduzir a
diversidade e abundância de espécies de aves de
habitats florestais no Pantanal. Pelo menos 156 espécies
de aves (23,7%) no Pantanal vivem ou dependem de alguma
forma de ambientes aquáticos As espécies encontradas
na planície de inundação ou áreas úmidas do
Pantanal certamente estão adaptadas às condições de
cheias e secas do rio Paraguai (pulsos de inundação).
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Assim,
qualquer alteração antrópica de grande magnitude, que altere
esses pulsos, reduzirá a diversidade e abundância de animais,
podendo extinguir muitas espécies ainda nem sequer catalogadas
(Lourival et al., 1999).
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Nas
propriedades que possuem grande proporção de cordilheiras em
todas as invernadas, pode-se aceitar o desmatamento de parte
desta área, desde que não sejam áreas de reserva legal (20%
da propriedade) e
de preservação permanente, situada ao longo dos rios ou de
qualquer curso d’água, a critério de autoridade competente.
Também, deve ser considerado a proteção de sítios ambientais
importantes para a fauna já
comentados anteriormente. Além do mais, estas áreas constituem
recursos cênicos, importante para o ecoturismo e possuem um
banco de germoplasma forrageiro ainda pouco estudado.
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No
caso de certificar apenas parte (invernada) da fazenda como de
produção orgânica, a área escolhida deve ser aceirada
interna e externamente para evitar queimadas/incêndios
acidentais.
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As
propriedades devem dispor de infra estrutura mínima, tais como
vias de acesso facilitadas, meios de comunicação, etc., pois o
transporte dos animais pode ter influência negativa sobre o bem
estar animal e a qualidade da carne.
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Na
implantação de qualquer sistema de produção, especialmente o
orgânico, ocorre a necessidade de medir o impacto sobre
atributos ambientais tais como erosão do solo, estado de
conservação da pastagem, diversidade de plantas e avi-fauna,
qualidade da água, entre outros. Desta forma, será necessário
conhecer processos ecológicos chaves que possam fornecer
indicadores ambientais para tomadas de decisões e servir como base para desenvolver e
interpretar sistemas de monitoramento.
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Foto
3 – No Pantanal, os bovinos vivem em conjunto com os
grandes herbívoros silvestres, como o veado campeiro. |
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Neste sistema o produtor pantaneiro deve preocupar-se com o
sistema com um todo, de modo que a produtividade obtida seja
economicamente viável, ecologicamente saudável e socialmente
justa.
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| REFERÊNCIAS |
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COMASTRI
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W.J.; SILVA, C.J. O conceito do pulso de inundação e suas
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da dieta do veado-campeiro (Ozotocerus
bezoarticus leucoagaster) na Nhecolândia, Pantanal. In:
SIMPÓSIO SOBRE RECURSOS NATURAIS E SÓCIO-ECONÔMICOS, 7.,
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D.P.; TOMAS, W.M. Distribuição de espécies de aves em
ambientes florestais no Pantanal: relação com a área do
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7., 1996, Corumbá. Manejo e Conservação. Resumos...Brasília-SPI,
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