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Milho
Orgânico |
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Sérgio
Cabral de Carvalho |
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| DÚVIDAS PERTINENTES ? | ||
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Durante
o XXIV Congresso Brasileiro de Milho, na minha apresentação das atuais técnicas
de produção orgânica, constatei que várias dúvidas são comuns a
grandes e pequenos agricultores, e a técnicos da pesquisa e da extensão.
Vejamos algumas das principais: |
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São
dúvidas pertinentes e comuns a quem ainda não conhece profundamente o
assunto e não convive com produção orgânica bem
feita. Comecemos lembrando que hoje já existem no Brasil
resultados de pesquisas de longa duração mostrando milho orgânico com
produtividade média superior a 8.000kg/ha usando variedades comuns como o
BR106. E são experimentos de mais de 17 anos de duração e em mais de um
local. |
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| ESTERCO OU MATÉRIA ORGÂNICA ? | ||
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Realmente
parece difícil conseguir 10 ton./ha de esterco para cultivar áreas médias
e grandes. Para contornar essa dificuldade entra o aprimoramento técnico
de quem vai conduzir o processo. Existem sistemas de compostagem que
permitem ampliar bastante a disponibilidade de matéria orgânica e a
qualidade do produto, e, com maior aprimoramento ainda pode-se utilizar
o bokache (espécie de adubo orgânico de origem oriental produzido
na própria fazenda). Ao fazer isso a necessidade de esterco cai ainda
mais. Outro aliado fundamental
, que na Europa sempre foi o principal esteio da grandes produções,
é a adubação
verde. Mas não da maneira tradicional desenvolvida nos países
temperados, e sim com enfoques e manejos muito mais eficientes, adequados
as condições tropicais ,e, compatíveis com as necessidades dos sistemas
de produção e com as possibilidades do produtor. Seu conceito inclui
também, companheirismo entre plantas, invasora escolhida, alelopatia,
cobertura viva etc. Mais do
que como fonte de nitrogênio, o adubo verde deve então ser usado com um
instrumento de múltipla habilidade: re-estrurador
do solo; incorporador de matéria orgânica ao sistema; ativador da vida do solo;
controlador de pragas; controlador de ervas nativas por ação alelopática
e por abafamento; disponibilizador do fósforo do solo; reciclador de
nutrientes lixiviados etc. E
isso pode ser feito de forma surpreendentemente simples e acessível ao
agricultor. |
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| PRAGAS OU INSETOS ? | ||
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Com
relação a pragas nota-se que as pessoas em geral tem uma visão
tendenciosa, acreditando que esses insetos são inimigos arbitrários das
plantas cultivadas e sua simples existência os transforma em pragas
inevitáveis. Essa visão é decorrente de uma falha de análise dos
sistemas produtivos, por excessiva simplificação dos modelos. Esquecem
por exemplo da capacidade de defesa inerente as próprias plantas
cultivadas, quando em ambientes não estressados, como são as áreas orgânicas.
Esquecem também que foi justamente o uso de herbicidas que acabou gerando
todas as condições de desequilíbrio ambiental necessárias para que
esses insetos se tornem pragas .E partindo do exemplo de lavouras
convencionais, extrapolam o raciocínio de que atualmente em qualquer
lavoura sempre haverão pragas! Esquecem que os ambientes orgânicos são
absolutamente diferentes em tudo, mesmo se for uma monocultura orgânica! Ou seja: na prática de
muitos anos o que se tem observado em lavouras bem conduzidas é a quase nula presença de pragas em níveis de
dano econômico, principalmente em culturas rústicas como milho. E alem
disso, em eventuais momentos de desequilíbrio, principalmente no período
de conversão, existem artifícios que podem ser usados com grande eficiência
como a homeopatia, o controle biológico e caldas ecologicamente corretas. |
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ERVAS
DANINHAS OU PLANTAS NATIVAS ? |
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A
grande diferença dos sistemas orgânicos está num enfoque onde as
plantas nativas e/ou invasoras passam a ter funções positivas ao invés
de negativas. Quando adequadamente manejadas deixam de competir com as
plantas cultivadas e passam a exercer ações úteis como: garantir
biodiversidade no sistema produtivo; servir de alimento para os insetos;
servir de abrigo para predadores naturais de pragas; manter estável
a temperatura e a umidade do solo; reciclar nutrientes; adicionar matéria
orgânica etc. E para garantir que elas executem essas funções
positivas, usam-se instrumentos como adubação verde, roçada parcial,
sombreamento dirigido, e até modernos implementos como a roçadeira de
linha que auxilia até no plantio direto sem herbicida de grandes áreas
de milho, soja ou feijão (mesmo se não for orgânico). Ressalte-se que
isso tudo, embora simples e fácil, deve ser bem
feito para funcionar. Vale lembrar que a adubação química intensa
é um dos grandes colaboradores para aumentar o problema das ervas
daninhas, bem como o uso de herbicidas, o que felizmente não existe na
agricultura orgânica. |
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BAIXA
OU ALTA PRODUTIVIDADE ? |
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A
outrora chamada agricultura alternativa foi intencionalmente relacionada a
baixa produtividade e pouca eficiência. E isso atendia aos interesses da
indústria de adubos e venenos agrícolas num primeiro momento, e, da indústria
de remédios humanos que se beneficia largamente das doenças oriundas da
alimentação contaminada e desequilibrada num perverso ciclo vicioso.
Essa idéia de baixa produtividade também se originou do fato de que
muitos dos pioneiros de fato não eram verdadeiramente produtores, mas
consumidores que por falta de alimentos decentes tiveram que se
transformar em agricultores
alternativos de fim de semana, e sem nenhum apoio da pesquisa agronômica
oficial. Hoje
essa imagem foi por terra. Embora muito haja por se fazer, já existe
produção mostrando que é possível ser economicamente eficiente e
pesquisa dando suporte a alta produtividade na agricultura orgânica.
Já há 15 anos se obtinha cenouras orgânicas com mais de 1 kg no "Hortão
do Nasser", projeto onde laranjeiras orgânicas de 3 anos produziam
mais do que os laranjais industriais paulistas de mais de 7 anos de idade.
Pesquisa de João Carlos Galvão na UFV tem mostrado produtividade com
milho orgânico 1.500 kg/ha superior à convencional.
O pesquisador Jacimar Souza, da Incaper, realiza talvez o melhor e
mais sólido trabalho científico na área de alimentos orgânicos,
contando com 13 anos de resultados onde as hortaliças orgânicas
apresentaram produtividade média 15% superior e custo 20% inferior
comparados com o convencional. Lá a produtividade média do milho supera
a marca de 8.000 kg/ha sem precisar recorrer a híbridos de alta genética
. A
produtividade de coqueiral no Rio de Janeiro evoluiu de 80 para mais de
200 frutos/pé em menos de 12 meses após nossa assistência técnica. E
isso ocorreu simultaneamente a redução de 35% no custo! Na produção de
leite e laticínios, simples correções de falhas de manejo costumam
trazer resultados surpreendentes que as vezes podem representar "a
salvação da lavoura". Vale ressaltar que também no nosso trabalho
de controle ecológico de pragas urbanas em Belo Horizonte temos tido
resultados superiores ao das empresas que utilizam os tradicionais venenos
da grandes multinacionais de agrotóxicos. |
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| VIABILIDADE ECONÔMICA ? MERCADO ? | ||
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Em
todo o Mundo esse é o mercado que mais cresce, ocorrendo o mesmo no
Brasil. E o que tem limitado esse crescimento ainda é a falta de oferta.
A falta de pesquisa e ensino nas universidades atrasou muito a entrada de
novos produtores, que via de regra tem recorrido a assessoria de técnicos
independentes e de produtores pioneiros autodidatas. Entretanto,
resultados práticos técnicos e econômicos muito bons já comprovados e
a recente entrada de alguns (poucos) pesquisadores e professores na área
devem acelerar esse processo. Deve-se ressaltar também a crescente
preocupação dos consumidores por alimentos mais sadios. Quanto ao milho,
vale ressaltar que por falta de oferta é hoje o principal limitador da
expansão da pecuária orgânica, seja de leite ou de frangos e ovos. Quanto
a viabilidade econômica, é de avaliação muito simples. Quando bem
feito o manejo, se trabalha com custos mais baixos e decrescentes,
obtendo-se produtividade equivalente ou superior, e assim o
resultado será sempre positivo. Como em geral existe uma demanda
reprimida para orgânicos, a viabilidade econômica é ainda mais segura.
O que é preciso em muitos casos é trabalhar esse mercado em função da
escala pretendida.
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É DIFÍCIL MUDAR ? COMO
FAZER ? |
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Isso
é mais ou menos como andar de bicicleta: a pessoa que ainda não aprendeu
acha isso quase impossível. Depois acha isso quase tão óbvio quanto
caminhar. Como
qualquer processo de mudança, optar por métodos orgânicos exige algum
esforço, basicamente
o esforço de pensar. Pensar, inclusive, na possibilidade de se
tornar um produtor mais independente e feliz, e isso as vezes assusta,
mudando de uma agricultura de insumo para uma agricultura de manejo. É
importante entretanto um bom assessoramento para que eventuais perdas
momentâneas sejam compensadas por crescentes índices econômicos
registrados desde o início do processo. E assim orientamos os produtores
a fazer a mudança paulatinamente conforme a capacidade do seu sistema de
produção, seja ele de milho, leite, fruticultura ou outro setor, lançando
mão de todo um conhecimento e experiência desenvolvidos nos últimos 20
anos.
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